Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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JORNAL DE DEBATES > TELENOVELAS

Sou do contra, e você?

Por Fernando Schweitzer em 23/09/2008 na edição 504

Ser do contra nos anos de chumbo da repressão era algo louvável. Mesmo que muitas vezes veladamente seja, no âmbito artístico ou de vida comum. Hoje o padrão é da inversão plena de valores onde quem tem muita opinião própria, assim saindo do padronicamente aceito, se torna um canalha social.


Lendo a coluna ‘Cena Aberta’ do portal Natelinha, especializado em jornalismo de celebridades e TV, deparei com aquele muito mais do mesmo. Uma coluna malhando a novela da Record Os Mutantes e elogiando A mexicana, padrão A Favorita. E usando como valia uma coluna da revista Veja. Em simultaneidade assistia a película Equilibrium que me trouxe uma inquietante reflexão. Mas preciso expor a sinopse para que tal analogia se torne racional:




Nos primeiros anos do século 21 aconteceu a 3ª Guerra Mundial. Aqueles que sobreviveram sabiam que a humanidade jamais poderia sobreviver a uma 4ª guerra e que a natureza volátil dos humanos não podia mais ser exposta. Então uma ramificação da lei foi criada, o Clero Grammaton, cuja única tarefa é procurar e erradicar a real fonte de crueldade entre os humanos: a capacidade de sentir, pois há a crença de que as emoções foram culpadas pelos fracassos das sociedades do passado. Desta forma existe um Estado totalitário, a Libria, que é comandado pelo ‘Pai’ (Sean Pertwee), que só aparece através de telões. Foi decretado que os cidadãos devem tomar diariamente Prozium, uma droga que nivela o nível emocional. As formas de expressão criativas estão contra a lei, sendo que ao violar qualquer regulamento a não-obediência é punida com a pena de morte.


O desequilibrium da crítica


Parece-me que qualquer coisa que não seja dita através do que dita a poderosa emissora carioca traz um ódio embutido de pessoas que, como ela, vêem o diferente como abominação. Ou como se tudo que não fosse proveniente dela então poder-se-ia ter chance de ser considerado como algo possível de ter relevância ou até qualidade.


Quanto à exibição do filme em TV aberta sem alardes também me preocupa. Pois apesar de os norte-americanos tentarem salvar o planeta, o que não acontece na realidade, seja um grande chavão, a contextualização quanto a idiotiozação das massas que permeia o argumento do roteiro é muito pertinente.


E me fez atinar ao processo de desumanização visto na novela de João Emanuel Carneiro, mas que perante o status quo de ser uma novela global, e por conseguinte dada como algo de pleno sucesso entre vários setores da sociedade brasileira. Em contra ponto está a louquíssima Os Mutantes, que realmente é uma mudança e tanto na dramaturgia brasileira. Embora sofra ataques múltiplos e totalmente coordenados pela bucefalia elitizada pró-rede Globo, que já atacaram as mexicanas do SBT, depois as brasileiras do SBT, as brasileiras da Band e Record.


Aquela máxima de Michel Foucault de que quem está no centro precisa atacar o periférico para se afirmar no poder se faz presente neste discurso anti qualquer coisa que não seja proveniente do Projac. Nem deveria citar a nada confiável quando o assunto é tendencionismo, Veja. Em matéria pejorativa, ‘Vão nos abduzir? Os ETs chegaram à novela Os Mutantes, da Record. Haja papo do outro mundo’, de Marcelo Marthe.


Prova de amor recusada


O que chega a ser irônico é que o Marthe está criticando uma novela que cita Marte, mas brincadeiras à parte certas afirmações do marciano da Veja são de um tão repetido discurso pejorativo ao que não é global que chegam a parecer matéria paga. O próprio título dá o tom de imbróglio. Ressalto este trecho: ‘A maior revelação da nova fase da novela é que todos os mutantes foram concebidos pelos tais extraterrestres. Em breve, a salvação dos humanos dependerá de um herói enviado do futuro – a referência óbvia é o filme O Exterminador do Futuro.’ Mesmo que muitas teses de ufólogos consistam nisto, ainda existem milhares de filmes bem aceitos em críticas do mesmo veículo. Ainda esquecendo a muitas vezes elogiada Vamp, ícone cult dos anos 90, que trazia vampiros em sua trama.


Toda obra tem uma referência hoje, salvo autores que nunca tiveram contato com outras obras, o que hoje seria impossivelmente concebível devido a integralidade das nações, mediante a tecnologia atual. A ressalva que faço é que Tiago Santiago era colaborador-escritor de Vamp, e migrou para a Barra Funda com a recusa de sua Prova de Amor pela Vênus platinada. A mesma que ergueu a emissora ao ponto de bater em momentos a intransponível invencibilidade do Jornal Nacional.


Sobre o plágio


Baseando uma ficção na ainda pouco comentada no Brasil nanotecnologia, o autor construiu sua base na primeira temporada da trama. O princípio básico da nanotecnologia é a construção de estruturas e novos materiais a partir dos átomos (os tijolos básicos da natureza). É uma área promissora, mas que dá apenas seus primeiros passos, mostrando, contudo, resultados surpreendentes (na produção de semicondutores, nanocompósitos, biomateriais e chips, entre outros). Um dos instrumentos utilizados para exploração de materiais nessa escala é o microscópio eletrônico de varredura, o MEV. O objetivo principal é chegar em um controle preciso e individual dos átomos.


Muitas vezes quando prefiro a frase ‘O importante não é o que se faz, mas quem faz!’, recebo severas críticas, do pedantismo ao pessimismo. Devo dizer realmente que esperança sem motivos, sorrisos sem motivo, pelo menos para mim, são coisa de drogado ou de pessoas que não comportam em si pleno gozo de suas faculdades mentais. Endrigo Annyston termina sua coluna ‘Cena Aberta’ de uma forma interessante: ‘Todos os elogios do mundo não descreveriam tudo o que foi visto hoje em A Favorita. Uma novela de verdade, com um autor de verdade.’


Mas, como diria o professor Girafales, ‘Eu poderia saber qual fora o motivo, razão ou circunstância para tal afirmação?’ Desculpem-me plagiar Roberto Bolaños.

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Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista, Florianópolis, SC

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/09/2008 Marcelo Ramos

    Meu, falar mal de novela é chover no molhado. A novela, hoje, se limita a reproduzir uma pseudo-realidade, se limita a tentar ser um espelho das pessoas que a assiste. Toda a produção da Globo se limita a uma estratégia de marketing, que busca identificar, por pesquisas, o que as pessoas pensam. E o que aconteceu foi a Bigbotherização das novelas e a novelização dos Big Brother. Uau, agora fiquei assustado.

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