Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > TAM, VÔO 3054

Telejornalismo e a tragédia de Congonhas

Por Giana Batista Guterres em 14/08/2007 na edição 446

Desde a terça-feira, 17 de julho, temos acompanhado boletins e plantões em todos os canais de televisão brasileiros, inclusive reportagens especiais e históricas sobre outras tragédias e acidentes aéreos no Brasil e no mundo. O próprio Pan perdeu o brilho e a magnitude que o telejornalismo brasileiro mostrava até então.

Como estudante de Jornalismo, me envergonho de alguns de nossos jornalistas, mesmo dos que considero exemplos na profissão. A pressa pela apuração nas informações e a luta pela maior audiência têm afetado, infelizmente, uma cobertura realmente séria e informativa sobre os fatos. Boa parte dos telejornais se preocupa em debater as causas e hipóteses do acidente e seus possíveis culpados. Fala-se do PT, do Lula, da pista, do piloto, de problemas mecânicos, do piloto, do peso da aeronave… A televisão brasileira está saturada por esse terrível fato, não se fala em outra coisa e, de acordo com as teorias que estudei até o 6º semestre, penso que isso só vem prejudicar, pois as pessoas, literalmente, não agüentam mais, não dão mais atenção a esse ‘bombardeio’ de notícias.

Estou estarrecida até agora, e de luto. Sou gaúcha, amo esta terra e este povo, e admito, como todos, ser bairrista também. As vítimas merecem todas as homenagens e muito mais. Mas não é esta a questão que critico, e sim, a posição da mídia. É com pesar que escrevo isto. Amo a profissão, não me vejo fazendo outra coisa. Até porque penso que temos condições de ter um telejornalismo comparável ao de grandes países, pois temos uma das maiores emissoras no mundo, boa infra-estrutura e bons profissionais.

O respeito e a ética

Outro ponto que deixa a desejar é o respeito e a consideração para com os familiares das vítimas, procurados para entrevistas. Quando foi suposto que a culpa seria por um erro do piloto, o que se fez? Depois de estraçalharem sua imagem, procuraram o pai do piloto para ouvir suas considerações sobre o acidente. Outro erro é que, desde a tragédia, fala-se sobre o número de corpos que ainda não foram identificados. Depois de todas as críticas feitas pela demora, a Rede Globo (a que acompanho com maior freqüência) mostrou uma reportagem especial para mostrar que muitas vítimas do ’11 de setembro’ até hoje não foram identificadas. E erros se repetem na cobertura telejornalística. Fala-se da apuração dos dados da caixa-preta, mas esquecem-se que, para obter os dados do acidente da Gol, no ano passado, foram precisos seis meses para a codificação – e se essa informação é disponível em um jornal do interior, como as grandes emissoras se esquecem disso?

Por tudo isso, a conclusão a que chego, infelizmente, é que o telejornalismo ainda não está preparado para grandes tragédias. Sem falar do sensacionalismo que está sendo praticado. Onde está o respeito para com os familiares? Onde está a ética (simplesmente por maior audiência)? São tantas as hipóteses que surgem que, pelo menos, se deveria esperar o resultado oficial para qualquer afirmação. Espera-se mais profissionalismo nos telejornais e próximas notícias sobre este acidente.

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Estudante do 6º semestre de Jornalismo da Universidade da Região da Campanha, Urcamp, Bagé, RS

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/08/2007 Luiz Guilherme Melo

    Olá Giane, gostei do artigo. Realmente, o acidente do Airbus da Tam foi um show jornalístico. A gana de conseguir o furo levou as grandes emissoras – e publicações também – a cometer erros grotescos de apuração. Tanto que a cada dia era uma informação.
    Nesse ‘iô-iô’ a culpa pelo maior acidente aéreo caiu da pista para o piloto.

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