Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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JORNAL DE DEBATES >

Telepresença: o templo da imagem

Por Robson Terra em 18/11/2008 na edição 512

Quando os irmãos Lumière projetaram a imagem em movimento no Salão do Índio, subsolo do Gran Café, em Paris, em 28 de dezembro de 1895, com a primeira sessão pública do invento chamado ‘cinematógrafo’, com o trem chegando à estação, alguém da platéia correu apavorado, fugindo da sala, com a projeção do trem sobre ela. Depois da base, o realista do cinema com os filmes ‘feitos ao sol’ de Lumière, o mago George Méliès, construiu o primeiro estúdio e criou o ilusionismo na tela, a base fantástica do cinema. Méliès é rei dos efeitos especiais que influenciaram diretores e encantam platéias até hoje. O mito da caverna, de Platão, escrito uns 400 anos antes de Cristo, no livro 7 de seu tratado sobre A República, comparava o mundo a uma vasta sala escura onde os homens assistem, imobilizados, a uma constante de espetáculos de claro e escuro. As sombras chinesas encantaram a França.

Já em 1934, Paul Valéry profetizou: ‘O espantoso crescimento de nossos instrumentos, e flexibilidade e a precisão que eles atingiram, as idéias e os hábitos que introduziram, nos asseguram modificações próximas e muito profundas da antiga indústria do Belo.’ As sombras do Gato Preto, silhuetas humanas, recortadas em zinco, passeando por trás de uma tela branca de um metro de largura, transmitiam todas as emoções dos enredos. E as imagens feitas com a mão projetadas na parede, nos dias de chuva? Encantamento puro.

O pião mágico multicor

Na infância, existiram fotografias que, sob a pressão dos dedos, forneciam a imagem de uma luta de boxe, ou de uma partida de tênis. O velho monóculo, nos anos 1960, que colocado nos olhos dava à foto a dimensão do cinema na caixinha de plástico colorido. Ou o caleidoscópio que cria labirintos de pedras, luz e cor. Até a chama do isqueiro promove encantamento, assim como a luz do vagalume na noite escura.

Na TV, a magia da transmissão ‘ao vivo’ seduz gerações. Antes da chegada do videoteipe, tudo era transmitido em tempo real, gerando o que Jost chama de ‘modelo de promessa’. A transmissão da chegada do homem à Lua, em 1969, deu à TV brasileira um referencial de divino, pois ‘estar na Lua é estar perto de Deus’. O homem chegou lá. As imagens coloridas, em 1972, na telinha da TV, alucinaram o Brasil. A tecnologia transforma o mundo para o bem e para o mal…

Na eleição de Obama, figura emblemática constituída por simbolismos diversos, a cobertura da votação provocou novo impacto como o pião mágico multicor girando, destinado ‘a verificar o tempo em que as imagens persistem no fundo do olho’.

O futuro volta ao passado

Antes de continuar a leitura, veja o filme:

http://edition.cnn.com/video/#/video/politics/2008/11/04/blitzer.yellin.hologram.obama.cnn?iref=videosearch

Chocante! A repórter Jessica Yellin, a 1.150 quilômetros de distância, em Chicago, surge como um milagre televisivo em 3D na cobertura da celebração da vitória de Obama. Segundo Veja, ‘a técnica empregada pela CNN foi a telepresença 3D. No parque de Chicago, 35 câmeras de alta definição filmavam Jessica sobre um fundo verde, captando seu corpo sob todos os ângulos. As imagens eram enviadas a vinte computadores, que as juntavam e reconstruíam a figura de Jessica à perfeição… Jessica foi incrustada num cenário, como se faz com as apresentadoras da previsão do tempo, só que por meio de uma imagem virtual eletrônica’.

Como truque de mágica, a cena entra para a história da TV mundial. O futuro volta ao passado na percepção da imagem que entorpece de ilusão, consentida e consciente. Conforme Aumont, ‘a ilusão foi valorizada, de acordo com as épocas, como objetivo desejável da representação, ou ao contrário criticada como mau objetivo, enganoso e inútil’.

O mundo fantástico do cinema

Desde a Grécia, com o quadro pintado por Zêuxis com uvas tão bem imitadas que os pássaros vinham bicá-las, às aparições ‘milagrosas’ dos santos para os puros, às miragens do deserto, a ilusão teatral de grande apelo sensorial, os fantasmas, os sonhos constantes e indecifráveis, os truques das imagens, trazem o que Kant designava assim: ‘o sentimento de um prazer e ou de um desprazer’ que atende à necessidade de vivenciar emoções fortes, como medo, surpresa, novidade, bem-estar de corpo e mente.

Esse envolvimento explica e traz para o fato real, a cobertura da vitória do mítico Obama, recursos do mundo ficcional fantástico do cinema, em efeitos divinos, para apresentar a realidade que o jornalismo da TV precisa transmitir em tempo real. Mesmo com todos aqueles truques. Evoé!

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Jornalista, professor universitário e mestrando em Comunicação e Tecnologia

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