Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ENTRE ASPAS >

Telesur, Líbia, a história oficial

Por Mauro Malin em 24/02/2011 na edição 630

O enviado a Trípoli da Telesur, emissora criada por Hugo Chávez, dá uma demonstração do que é o jornalismo a serviço do poder. No seu relato, após o discurso de Muamar Kadafi, com a cidade em calma, numerosos manifestantes a favor do ditador foram às ruas. O número de mortos no país pode ser menor do que os mil informados pelas agências de notícias. Líderes tribais estariam conversando com o governo, a fim de restabelecer a ‘normalidade’, isto é, o regime de Kadafi. Todas as imagens mostradas são de partidários do governo.


Herzog, Audálio e Kotscho


Felizmente, o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, mostrou-se sensível ao veemente texto postado pelo jornalista Ricardo Kotscho em seu blogue a respeito da documentação sobre o assassinato em 1975, sob tortura, do jornalista Vladimir Herzog (ver ‘A terceira morte de Vlado‘). Kotscho defendeu o direito do jornalista Audálio Dantas de ter acesso a papéis sob a guarda do Arquivo Nacional.


A repartição foi recentemente transferida da Casa Civil para o Ministério da Justiça. Audálio era presidente do Sindicato dos Jornalistas em São Paulo e foi o primeiro a denunciar a morte de Herzog. Agora, ao solicitar a documentação, ouviu como resposta a exigência de um atestado de óbito, entre outros documentos.


O atestado de óbito oficial de Herzog foi feito pelo médico Harry Shibata, que trabalhava para o principal órgão de repressão política da ditadura, o DOI-Codi. Shibata escreveu no atestado o que lhe mandaram: que Herzog se suicidara. Foi um episódio dos mais odiosos do regime militar.


Causa estranheza que funcionários de uma instituição chamada Arquivo Nacional desconhecessem essa história. O atendimento a Audálio Dantas só foi providenciado depois que o ministro Martins Cardozo reagiu positivamente à contundente e providencial crítica feita por Kotscho.


Estado e crime organizado


O sociólogo José Cláudio Souza Alves faz uma análise incômoda, para a mídia e outros setores, da situação da segurança pública no Rio de Janeiro.


José Cláudio Souza Alves – Acho que a gente está assistindo agora aos efeitos da ocupação do Alemão. Você tinha uma estrutura montada, uma forma organizada dessa estrutura criminosa, junto com o aparato policial, com a milícia, com o tráfico.


Esses grupos que estavam lá controlando o Alemão, e que tinham o acordo montado – sempre há o acordo −, esse pessoal é desalojado e você tem agora uma grande área que na linguagem estabelecida por eles mesmos é uma grande área de garimpagem, uma Serra Pelada. É uma grande rapinagem. Vão pegar agora os espólios de uma guerra.


A modificação ali tornou mais frágil aquele sistema, aquele controle, porque permitiu uma visibilidade maior de todos esses procedimentos, que são de apreensão de armas e venda de armas, tortura de moradores para obtenção de informações, roubo puro e simplesmente dos moradores.


A saída do grupo que controlava geograficamente, politicamente, pelo menos o acordo local, permite agora o crescimento de outros grupos, sobretudo ligados ao aparato policial, e isso chegou a um ponto insuportável. Insuportável pela fragilidade, pela exposição de tudo isso, que já vinha, de certa forma, sendo observado, investigado.


Inicia-se isso que você está vendo aí: uma crise interna da polícia, que nada mais é do que uma exposição do que sempre houve, e da vinculação de nomes importantes da estrutura policial a essa rede criminosa. E aí um começa a acusar o outro.


A demissão do Allan Turnowski, sua exoneração, é quase que uma condição necessária para a preservação de tudo ali. Você não pode continuar guilhotinando um ao outro, daqui a pouco é a degola de toda a estrutura, porque ela está profundamente atingida. Você vai sacrificar alguns. Esses serão sacrificados. Agora já é um outro movimento do jogo. Qual é a recomposição dessa estrutura que será feita a partir de então?

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