Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

The Economist não dá o braço a torcer

Por Carlos H. Knapp em 28/11/2006 na edição 409

André Levy, brasileiro, graduado em matemática pela USP e mestre em finanças por Stanford, trabalha atualmente em Sidney, como gerente de riscos operacionais da Australian Prudential Regulation Authority, agência reguladora de bancos, seguradoras e fundos de pensão da Austrália.


Leitor regular da revista The Economist, publicação da qual se confessa admirador, ele observou uma série de equívocos cometidos pela publicação britânica em matérias veiculadas às vésperas do primeiro turno das últimas eleições presidenciais brasileiras, em 28/9 (‘Ame Lula se você for pobre, aflija-se se você não for’) e em 29/9 (‘A segunda chance de Lula’).


André escreveu ao editor da Economist corrigindo os erros – dizendo que ‘são questões de fato e não de opinião’ – e esperou ver uma retificação ou, pelo menos, a reprodução de sua carta numa das edições seguintes.


Em lugar disso, o chefe do bureau da Economist em São Paulo, Brooke Unger, refutou por e-mail as correções oferecidas por André Levy, iniciando uma polêmica entre ambos. Percebe-se, na correspondência, que Brooke deve ser a origem das informações que André considera erradas. Ele as defende.


Eis um resumo da discussão:


The Economist – ‘Durante seus quase quatro anos de governo, ele [o presidente Lula], reduziu a inflação, aumentou o emprego e elevou a transferência de renda para os pobres’ (29/09/2006). ‘Enquanto dava dinheiro aos pobres, ele [Lula] cortou a inflação, criou empregos e manteve o crescimento da economia’ ( 28/092006).


André Levy – A inflação foi reduzida em 1994 pelo plano econômico coordenado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando este era Ministro da Fazenda de seu predecessor, o ex-presidente Itamar Franco. E desde então a inflação permaneceu baixa. Vide http://www.pbs.org/wgbh/commandingheights/lo/countries/br/br_inf.html


Brooke Unger – Realmente a maior redução da inflação é produto do Plano Real. Entretanto, o fato é que a inflação caiu acentuadamente durante a gestão Lula. Veja a página 42 do relatório do Banco Central que se segue. Isso não aparece no seu gráfico porque ele têm por escala a hiperinflação e, desse modo, obscurece a evolução recente.


André Levy – Ao afirmar que ‘durante seus quase quatro anos de governo, ele (o presidente Lula), reduziu a inflação’, The Economist quis dizer que a inflação era alta antes que Lula tomasse posse e que, agora, ela é significativamente menor e que o governo Lula agiu proativamente para reduzi-la. De fato, no momento da eleição de Lula, a inflação estava no seu ponto mais elevado desde o início do Plano Real, o que de modo algum se compara com os níveis das duas décadas anteriores. Vide http://www.dicasdebrasilia.com.br/brasil/numeros/portugues/img023.jpg. Contudo, no Brasil todos sabem que nessa época a inflação foi estimulada pela alta da cotação do dólar, refletindo os temores e as incertezas sobre uma possível mudança da política monetária. Vide http://www.valoronline.com.br/valoreconomico/285/primeirocaderno/opiniao/Repartindo+bolo+solado,,,58,3923400.html.


A manutenção da política monetária de FHC – ponto para Lula – foi decisiva para garantir ao mercado que nenhuma mudança drástica estava para acontecer – na verdade não houve mudança alguma. Se vocês se referem a isto ao dizer que ‘ele reduziu a inflação’, então só posso aplaudir a habilidade com que a equipe de Lula elaborou sua retórica de modo que ela pudesse depois ser elogiada por não fazer aquilo que antes afirmara iria fazer (diminuir os juros pagos aos credores do governo, ou simplesmente não pagar a dívida).


Broke Unger – É isso que eu penso ao dizer que Lula reduziu a inflação. Eu não estava querendo afirmar que a redução da inflação foi de algum modo comparável ao efeito do Plano Real (ao qual me refiro no artigo como tendo acabado com a hiperinflação) e concordo em que o surto de inflação antes da posse de Lula se deveu principalmente aos receios quanto a política que ele adotaria. Mas ele adotou uma linha muito firme contra a inflação, resistindo à intensa pressão política e dando ao Banco Central uma autonomia mais efetiva do que a anterior (a nomeação de Meirelles para ministro, a fim de protegê-lo das acusações de que ele teria violado leis de câmbio, teve o efeito de lhe dar mais independência em relação ao ministério da Fazenda). A inflação está agora no seu nível mais baixo desde 1998. Por isso, não acho que eu esteja errado ao creditar a Lula a redução da inflação.


The Economist – ‘E há alguns meses as mulheres se tornaram beneficiárias do Bolsa Família instituído pelo governo federal, uma bolsa de até 95 reais mensais paga aos pais que mantêm seus filhos na escola e os submetem a exames médicos.’


André Levy – Manter os filhos na escola era uma exigência da Bolsa Escola do governo FHC. Vide http://www.brazzil.com.content/view/8876/51/.


Brooke Unger – A matéria a que V. se refere foi escrita há dois anos pelo primeiro ministro da Educação de Lula, que foi demitido. É certo que o governo Lula minimizou as exigências contidas no Bolsa Família mas, quando examinei o programa de perto, um ano depois, isso já não era verdade. O Banco Mundial, que estava participando, insiste no pré-requisito das transferências condicionais de dinheiro (que é o caso do Bolsa Família). O Ministério da Educação (e não o Ministério da Assistência Social [sic]) tem a função de monitorar a freqüência escolar das crianças. Estou certo de que existe pressão política no sentido de não retirar o benefício das famílias que não cumprem a exigência, porém existe pressão oposta dos financiadores e da sociedade para que o façam. Não posso jurar que os pré-requisitos estejam sendo rigorosamente monitorados (já faz algum tempo que estudei o programa) mas elas ainda vigoram. Vide http://www.mds.gov.br/programas/transferenciapdeprenda/programa-bolsa-familias/programa-bolsa-familia/o-que-e. A eficiência da monitoração é assunto de estudos acadêmicos cujos resultados ainda não vi (e que podem não estar ainda terminados).


André Levy – Ao empregar o verbo tornar na afirmação de que ‘há alguns meses as mulheres se tornaram beneficiárias do Bolsa Família’, The Economist quis dizer que elas não gozavam do benefício antes. Todos sabem, no Brasil, que o Bolsa Família é uma nova embalagem dos programas sociais do presidente anterior, como reconhece o próprio ministro da Educação de Lula, Cristóvão Buarque, no artigo já referido.


Brooke Unger – Minha última informação é de que a exigência escolar está em vigor, embora eu admita que não pesquisei o assunto imediatamente antes de escrever o artigo. Na ocasião eu não pretendia fazer uma análise em profundidade do Bolsa Família, um programa que os mais respeitáveis acadêmicos do Brasil consideram um modo eficiente de atenuar a pobreza, mas não uma solução de longo prazo. Meus artigos anteriores sobre o Bolsa Família assinalavam que eles eram baseados em programas iniciados pelo governo Fernando Henrique (e estes, por sua vez, calcados em iniciativas estaduais e locais, entre estas a versão de Brasília do Bolsa Escola, que foi criada por Cristóvão Buarque quando ainda era membro do PT!). Quanto à minha afirmação de que as mulheres se tornaram recentemente beneficiárias do Bolsa Família: foram elas que me disseram que haviam se tornado beneficiárias do programa poucos meses antes de conversarmos. Isto faz sentido porque, além de aumentar o valor do benefício, o que Lula fez foi aumentar amplamente o número de pessoas abrangidas. Por isso, milhões de pessoas, que estão agora no programa, não eram de fato beneficiárias antes.


The Economist – ‘A dívida externa já não pende sobre o Brasil como a lâmina de uma guilhotina.’


André Levy – Em junho de 2006, a dívida pública externa era de 89 bilhões de dólares, isto é, 120% das reservas do Banco Central e duas vezes o saldo do comércio exterior. Vide http://www.bcb.gov.br/pec/indeco/ingl/ie5-26i.xls.


Brooke Unger – A tabela que você destacou me dá parcialmente razão. Observe, por exemplo, que entre 2000 e 2006 a relação entre dívida externa e exportação caiu de 3,9 para 1,2. Observe também que o Brasil tem agora saldo externo credor – linha 46 da segunda tabela de http://www.bcb.gov.br/pec/indeco/ingl/ie4-23i.xls


André LevyThe Economist deixou de assinalar que a dívida externa foi substituída pela dívida interna e leva o leitor inadvertido à conclusão de que a dívida pública foi de fato reduzida.


Brooke Unger – Mas toda a minha discussão sobre a armadilha fiscal que a economia brasileira enfrenta está baseada na premissa de que a despesa e a dívida são inaceitavelmente elevadas. Escrevi, por exemplo, que ‘acima de tudo’ o governo precisava adotar ‘um plano de longo prazo para reduzir os gastos e a dívida pública líquida, que no presente se situa em cerca da metade do PIB’. Por isso, não vejo como você pode afirmar que induzi o leitor a pensar que o Brasil não tem problema de dívida.




***


Brooke Unger põe fim à polêmica afirmando ter refutado todas as críticas. E acrescenta: ‘Encaminharei nossa correspondência ao editor da seção América, embora não possa prometer publicação.’


Na correspondência, André observou que todos os erros assinalados favorecem Lula, candidato à reeleição, ao que Brooke respondeu com veemência, afirmando que não existiu essa intenção. Disse ainda: ‘Se você pretende insinuar que há algum tipo de entendimento entre The Economist e o governo Lula, isso é absolutamente falso. Na verdade, recebi cartas acusando-nos do contrário, de estarmos sendo pagos por forças interessadas em desacreditar Lula. É desnecessário dizer que isto é igualmente falso’.


Nenhum jornal se obriga a publicar todas as cartas dos leitores. Geralmente publica uma seleção das mais interessantes ou oportunas e assim mesmo destacando só alguns trechos. The Economist não acolheu as reclamações de André Levy mas lhe deu a devida atenção. Entretanto, os reparos de um bem informado leitor brasileiro foram mais do que interessantes e oportunos – tanto é que são agora reproduzidos no Observatório da Imprensa. O fato de o prestigioso jornal londrino ter travado essa discussão longe dos olhos dos seus leitores não significaria uma tentativa de evitar o constrangimento de dar o braço, ou pelo menos um dedo, a torcer?

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