Quinta-feira, 23 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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JORNAL DE DEBATES >

Tragédia com brasileira ganha destaque na… Espanha

21/04/2009 na edição 534

Desta vez não houve alvoroço. Nada de manchetes bombásticas, reportagens no Jornal Nacional ou manifestações coletivas de indignação. No Brasil, passou praticamente desapercebida a história de Maria Socorro da Silva, uma maranhense de 26 anos que foi assassinada recentemente na Espanha.

Vítima de uma rede de aliciamento de mulheres, a jovem chegou em dezembro do ano passado à cidade de Ourense, na Galícia, com a ilusão de ter conhecido uma pessoa especial e a esperança de conseguir um trabalho. Alguns dias depois, seu corpo foi encontrado boiando em um rio com marcas de tiros de escopeta. O enterro aconteceu no final do mês passado, na mesma cidade onde ela foi morta.

O caso chocou a imprensa espanhola. A notícia recebeu grande destaque nos jornais, rádios e televisões, foi capa de revista e provocou comoção em Ourense, onde a prefeitura chegou a organizar uma manifestação para condenar o assassinato da jovem.

Ao contrário do caso Paula Oliveira, a filha do assessor de um importante político que disse ter sido atacada por neonazistas na Suíça, Maria Socorro não recebeu muita atenção por parte da mídia brasileira. Alguns veículos online até se dispuseram a copiar e colar o material mandado pela agência Efe, mas não houve ‘repercussão’. Ficou só na típica notinha que as redações produzem às pencas todos os dias.

300 mil prostitutas

No entanto, o assassinato da jovem ilustra de forma contundente a gravidade da questão do aliciamento e do tráfico de mulheres para a exploração sexual, fatores que são responsáveis diretos pelo impressionante aumento do número de brasileiros – homens e mulheres – que se prostituem na Espanha.

O governo é relutante em dar cifras porque a prostituição no país não é ilegal, de forma que não há muitos dados confiáveis. Um relatório da polícia espanhola de 2005 alertava que havia mais de 5 mil brasileiras no país exercendo a prostituição em boates – na época era o maior contingente, seguido pelas romenas e colombianas.

A situação não mudou muito desde então, mas estudos recentes mostram que a prostituição de brasileiros ganhou uma dimensão ainda maior no país.

Em 2008, o governo espanhol alertou que 8 de cada 10 prostitutas do arquipélago de Baleares, conhecido por ser um mercado de luxo da prostituição, eram brasileiras. Também no ano passado, um estudo feito pelo Ministério da Saúde apontou que 70% dos homens que se prostituem no país eram brasileiros.

Fontes não-oficiais estimam que há aproximadamente 300 mil prostitutas na Espanha, das quais 15 mil seriam brasileiras.

Imigrantes ‘legais’ e irregulares

Para a advogada e mestre em direito internacional Verônica Maria Teresi, que recentemente escreveu uma tese sobre o tráfico de brasileiras para fins de exploração sexual, o boom de brasileiros que vêm à Espanha para se prostituir se deve mais às facilidades das máfias de introduzir pessoas no país do que a uma ‘preferência sexual’ do mercado.

‘Antes das brasileiras chegarem, as [prostitutas] colombianas eram maioria. E antes destas eram as dominicanas [da República Domicana]. O `gosto´ do mercado, na verdade, depende da facilidade que as máfias têm para colocar pessoas aqui’, diz Teresi, que atualmente trabalha como pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento e Cooperação da Universidade Complutense de Madri.

Ela lembra que os brasileiros não precisam de visto para entrar na Espanha, o que facilita a entrada deles no país. E que, precisamente por conta do aumento dos casos de prostituição, está havendo um maior controle sobre essa nacionalidade.

‘Acho que o mercado vai se fechar para as prostitutas brasileiras. E é natural que isso aconteça porque os brasileiros estão visados. Em 2004, por exemplo, quando o governo espanhol passou a exigir visto de entrada dos colombianos, houve uma regressão imediata do número de prostitutas desse país’, lembra Teresi.

Os números oficiais de brasileiros na Espanha aumentaram consideravelmente nos últimos anos. Em 2001 havia 24 mil morando no país; em 2009 esse número deve chegar a 130 mil – contando os imigrantes ‘legais’ e os que estão em situação irregular.

‘Uma potência em crescimento’

Segundo Leonardo Cavalcanti, professor de sociologia na Universidad Autônoma de Barcelona, a explicação para tal crescimento corresponde a dois fatores:

‘Um é o simples boca-a-boca. Os imigrantes chegavam aqui e começavam a chamar outros; o segundo fator foi o boom da construção civil, que incentivou um novo tipo de imigração, de origem mais humilde’, diz Cavalcanti, que atualmente realiza um estudo sobre a integração dos brasileiros no mercado de trabalho espanhol – desde a prostituição até a construção civil.

Para o sociólogo, as freqüentes notícias na imprensa local sobre prostituição já prejudicaram a imagem dos brasileiros. Cavalcanti diz conhecer muitas pessoas que vieram fazer mestrado ou doutorado e que, ao chegar ao aeroporto, tiveram de responder perguntas do tipo: ‘A senhora veio estudar ou se prostituir?’

‘O fato de um policial de alfândega achar que tem a liberdade de fazer tal pergunta mostra o quanto a imagem dos brasileiros já foi afetada. É absurdo. Eles não fazem essas perguntas para americanas, japonesas ou canadenses’, argumenta Cavalcanti, que faz uma ressalva: ‘A imagem do coletivo de brasileiros que mora aqui certamente foi afetada, mas a imagem do Brasil enquanto país, não. Aos olhos dos espanhóis, somos uma potência mundial em crescimento.’

‘Sentimento de fracasso’

Maria Socorro veio para a Espanha após conhecer um homem chamado Juan pela internet. Eles mantiveram contato por meio de chat e emails durante alguns meses até que, em dezembro passado, a jovem foi convidada a passar o ano novo na casa dele, em Ourense.

Ao chegar, ela descobriu que tinha sido vítima de uma rede de aliciamento de mulheres para prostituição. Teve o passaporte roubado e foi ameaçada e agredida. A jovem fugiu, deu queixa na polícia e buscou ajuda de ONGs locais. Assustada, ela ligava quase todos os dias para a mãe, no Brasil. Contou que as coisas não estavam dando certo, mas que mesmo assim ela só voltaria no dia 28 de março – data de volta da passagem.

Sem dinheiro e sem poder trabalhar, Maria Socorro decidiu se prostituir por conta própria. No dia 11 de fevereiro discutiu com um cliente por causa do preço do programa e acabou morta a tiros de escopeta. O homem, Ramón F.A, de 48 anos, confessou o crime 15 dias depois e está preso, aguardando julgamento.

‘Nesses casos, quando a menina percebe que foi enganada com falsas promessas de trabalho, ela busca todas as alternativas possíveis para se virar e não ter de voltar para casa com sentimento de fracasso, de quem não conseguiu nada. E nesse momento muitas caem na prostituição’, afirma Verônica Teresi.

‘Um dia vou ter casa própria’

Por outro lado, na opinião da pesquisadora, a maioria das meninas que vêm à Espanha ‘não são bobas’ porque já sabem que vão se prostituir ou, no mínimo, admitem que existe essa possibilidade.

‘O que elas não sabem, e é muito importante que saibam antes de ir, é que a realidade aqui é bem mais cruel do que elas imaginam’, diz Teresi.

A enfermeira carioca Sandra vive há 14 anos na Espanha e ficou perplexa quando ouviu na imprensa a história da morte da brasileira. Mesmo sem nunca ter conhecido Maria Socorro, ela começou uma mobilização entre os imigrantes de Ourense para juntar dinheiro e repatriar o corpo da jovem para o Brasil, já que a família não tinha condições de pagar os 8 mil euros (cerca de R$ 24 mil) que são necessários.

‘Os jornais davam a notícia todos os dias. Quando eu li que ela seria enterrada numa fossa comum porque a família não tinha dinheiro, saí pedindo ajuda por todos os lados. No final não conseguimos levar o corpo para o Brasil porque a juíza disse que pode ser necessário fazer outra autópsia até o caso estar encerrado. Mas pelo menos trouxemos a mãe dela e lhe demos um enterro decente’, conta Sandra, que ainda estava indignada.

‘O mais impactante foi ver como ninguém fazia nada por ela, nem aqui nem no Brasil. Para aquela brasileira na Suíça [Paula Oliveira] deram toda a atenção do mundo porque ela era rica, e para a pobre ninguém fala nada? Tinha que ser ao contrário! Como brasileira, me senti completamente triste e abandonada’, desabafou.

A mãe da jovem assassinada, Maria Lindalva da Silva, esteve em Ourense para se despedir da filha. O corpo de Maria Socorro foi enterrado na cidade no último dia 25. Com a voz trêmula, falando ao telefone, Lindalva lembrava dos sonhos da menina que tinha toda uma vida pela frente.

‘Ela sempre foi muito trabalhadora. Durante a semana, no Brasil, trabalhava como secretária numa empresa grande, e nos finais de semana ajudava a limpar a casa do patrão dela. Na última vez que eu fui na casinha que ela alugava, ela me disse: `Mãe, a senhora viu como eu ralo? Trabalho muito mesmo. Um dia vou ter minha casa própria.´ Logo depois ela me mostrou a planta do que seria a casa dela e que tinha desenhado à mão’, lembrou Maria Lindalva, sem conseguir conter o choro.

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Jornalista, Madri (Espanha)

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