Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > ELEIÇÕES 2010

Traídos pela palavra?

Por Maria Aparecida Moura, Ludmila Salomão Venâncio e em 28/09/2010 na edição 609

A campanha presidencial de 2010 pode ser considerada como aquela em que mais se recorreu ao monitoramento eletrônico dos papéis, bravatas e repercussões discursivas. Trata-se de uma campanha mobilizada fundamentalmente por comunidades discursivas online e demarcada pela ausência da arena pública como instância de exposição e legitimação das propostas políticas.

Nesse sentido, os candidatos brasileiros, animados pela bem sucedida estratégia de campanha de Barack Obama em 2008, adotaram, em maior ou menor grau, o que se convencionou chamar de parlatório digital. No parlatório digital, embora a condição de emissor esteja mais acessível, o que se viu foi a amplificação do marketing político metamorfoseado em testemunhos e adesões de identificações passageiras e cambiantes. Da janela do Twitter, por exemplo, o correligionário de ocasião, protegido pelo relativo anonimato, pôde dizer e repassar mensagens políticas sem se preocupar com o curso dos acontecimentos no mundo da vida.

A condição discursiva estabelecida pelos candidatos justapôs o discurso monológico e dialógico e deixou entrever um forte monitoramento das estratégias orientadas pelos fluxos de informação dos opositores. Todavia, com o país vivendo um momento de estabilidade econômica, crescimento do PIB, emprego e renda, nenhum dos candidatos quis dar a impressão de que realizará grandes mudanças.

Nesse contexto, os candidatos que lideram a corrida presidencial, Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva, têm se esforçado para manter um discurso com poucos pontos controversos. De maneira geral, prometem aumentar os investimentos nas áreas de saúde e educação e manter as políticas que têm assegurado a estabilidade econômica do país e os programas assistencialistas, como o Bolsa Família, considerados de grande aceitação pela população.

Discurso de lançamento

Em pesquisa realizada, no contexto do Observatório das Eleições ao longo da campanha, obteve-se como resultado uma taxonomia dos presidenciáveis 2010, estruturada em 49 grandes classes. Para tanto, levou-se em consideração os discursos registrados em fontes de informação oficiais, proferidos diretamente ou atribuídos aos candidatos. O objetivo do trabalho, inédito em termos de metodologias combinadas, foi proporcionar maior precisão na recuperação de notícias, redes sociais de apoiadores ou detratores associados, fluxos e tendências na condução da campanha, conduta discursiva e expressividade de mudanças fluxo de informações.

Na estruturação do método utilizado articulou-se a análise documentária, a análise de conteúdo, a análise de discurso, a análise semiótica e a análise de redes sociais (ARS) adotadas de modo sucessivo para dar maior densidade e atribuição de identidade à rede discursiva proposta. Na composição do corpus considerou-se os discursos dos três candidatos melhor posicionados nas pesquisas de intenção de votos no mês de junho de 2010.

O monitoramento eletrônico e a análise da formação discursiva apresentada pelos candidatos Marina Silva, José Serra e Dilma Rousseff possibilitou entrever em seus discursos a efervescência, as propostas, as contradições e os pontos de contato entre os hipotéticos planos de governo.

Desse ponto de vista, o discurso dos candidatos e a reverberação dos mesmos estiveram sempre condicionados à clusterização fenomênica das trocas de mensagens em ambientes digitais e midiáticos. Assim, os discursos se sobrepuseram ao longo da campanha devido à necessidade de reagir ao curso dos acontecimentos com base no monitoramento eletrônico ‘tag a tag.’ O único momento discursivo da campanha em que foi possível identificar a expressão de um lugar de fala pautado pelo compromisso ontológico ocorreu no discurso de lançamento das candidaturas em junho de 2010. Naquele momento, os candidatos apelaram essencialmente ao passado político, suas origens familiares seus compromissos de campanha.

Patrulha de ideias e tititi

Nesse sentido, os discursos apresentaram parcimônia e equilíbrio visto inclusive nos verbos e expressões no discurso. Verificou-se 262 verbos no discurso de Serra, 298 no de Dilma e 394 no de Marina com 1154, 1203 e 1477 variações nas formas verbais flexionadas respectivamente. Os verbos ‘querer’ e ‘fazer’ estiveram presentes como ponto coincidente nos três discursos manifestos nas formas ‘quero’ e ‘fazer’. Enquanto os verbos ‘agradecer e ‘trazer’ marcaram o discurso de Marina Silva, os verbos ir (e suas flexão vamos) e poder deram o tom dos discursos de Serra. Dilma adotou os termos ‘seguir’ e ‘mudar’ (e a flexão mudando) como termos privilegiados.

No campo discursivo, essas semelhanças e poucas dissonâncias prevalecem. Em relação ao governo Lula, a crítica pelos candidatos da oposição é moderada, considerando a enorme satisfação do eleitorado em relação ao presidente. O próprio candidato Serra veiculou em seu programa eleitoral, exibido no dia 19 de agosto, imagem ao lado do presidente Lula. Enquanto as cenas eram exibidas, o locutor pronunciava ‘Serra e Lula, dois homens de história. Dois líderes experientes’. Serra, no entanto, apelou para expressões tenho, acredito, sou, sei, estudei e fui como emblemáticas de sua capacidade e preparo para o cargo político pretendido. No início da campanha, Serra fez muitas referências às relações internacionais diplomáticas do governo Lula com ditaduras, porém no curso dos acontecimentos tal estratégia foi abandonada em prol do evento sobre a quebra do sigilo bancário de seus familiares.

Em momentos de detratação aos adversários políticos não poupou expressões como factoides e armações, guerra de baixarias, guerra de dossiês, loteamento político, máquinas oficiais, neo-corruptos, patota corporativa, patrulha de ideias e tititi.

A candidata dos números

Considerada internacionalmente uma das mais influentes líderes socioambientais brasileiras, Marina Silva, candidata a presidência pelo Partido Verde (PV), permanece em terceiro lugar entre as intenções de voto, em acordo com pesquisas de opinião e monitoramentos realizados por institutos de pesquisa brasileiros. O foco do discurso de Marina Silva é vinculado à sua história na vida pública e propostas para a constituição de um governo voltado para uma economia de baixo carbono e o atendimento integral das famílias de baixa renda.

Os enunciados desta candidata apresentam uma gama de valores dos quais se coloca como representante. Assim, verificam-se em seus discursos expressões como: recomposição vegetal de áreas de plantação, ética dos valores, economia de baixo carbono, biodiversidade, crédito de carbono, entre outros. Há de se notar, que no início da campanha eleitoral, Marina negou-se a desqualificar seus adversários e colocou-se na condição daquele que constrói uma comunicação cuja meta principal é apresentar suas propostas de governo dando a ver suas convicções pessoais e articulações na vida pública. Todavia, nesta fase final, parece que a estratégia se alterou. É possível encontrar tréplicas de Marina acerca de desditos entre Dilma e Serra, seus principais adversários na corrida pela presidência.

Entretanto, quando questionada acerca de temas polêmicos como liberação do aborto e casamento entre homossexuais é categórica e pontual: ‘não faço discurso de conveniência para agradar grupos específicos’.

A candidata Dilma Rousseff é generosa nos elogios a Lula. Aproveitando a popularidade do presidente, ela se apresenta como a mulher capaz de realizar a continuação da mudança tão necessária para o país. É assim que o discurso de Dilma é pautado pela utilização repetitiva de termos que giram em torno dos conceitos de continuidade e evolução.

O reforço de crença no realizado constante na expressão ‘Para o Brasil seguir mudando’ que inicia sua propaganda eleitoral gratuita e que aparece por treze vezes em seu discurso de candidatura na convenção nacional do PT, encarna a tese principal da candidata de que o Brasil deve seguir no mesmo rumo, mas melhorando. Dessa percepção decorrem duas principais constatações de estratégias discursivas utilizadas por Dilma: a primeira refere-se à utilização de termos que permitem a conexão de sua trajetória (ou imagem) ao presidente Lula e às realizações do governo atual. Assim é que expressões como candidata de Lula e mãe do PAC são associadas à candidata com bastante regularidade na mídia. Dessa estratégia decorre ainda a utilização massiva de argumentos quantitativos para expressar o volume de ações realizadas na gestão atual, na qual ela faz parte. Os próprios candidatos da oposição, como Plínio Arruda, criticam Dilma descrevendo-a como a candidata dos números. A segunda estratégia refere-se ao emprego de verbos que remetem às ideias de continuidade e evolução (seguir, mudando, ampliar, continuar, investir), do coletivo (podemos, somos, precisamos, vamos, nossos, temos) e de sua capacidade e experiência (sei, criei, planejei, acompanhei).

Novas estratégias discursivas

Os atuais acontecimentos sobre a quebra do sigilo dos dados fiscais de aliados e parentes de José Serra, incluindo sua filha, e as acusações e denúncias feitas pela imprensa à ex-ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, certamente forçaram uma reconfiguração do discurso da candidata. Apesar desses acontecimentos, Dilma ainda busca manter seu discurso priorizando a continuidade e classifica essas acusações, pelo menos em parte, como ‘manobras eleitoreiras’.

Compreende-se que a estruturação discursiva é própria aos sujeitos inscritos em contextos sociais determinados e cuja intenção comunicativa é reflexo desta conformação. Resta saber, nos próximos dias, como o eleitorado brasileiro percebeu e responderá nas urnas a essas novas estratégias discursivas.

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Respectivamente, professora da Escola de Ciência da Informação da UFMG, doutoranda em Ciência da Informação pelo PPGCI/ UFMG e mestre em Comunicação Social pela PUC Minas

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