Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > A BATALHA DE GAZA

Trunfos do jornalismo humanista

Por Alberto Dines em 06/01/2009 na edição 519

Como cobrir guerras sem provocar outras? Como descrever os resultados do ódio sem aumentá-lo? O grande desafio do jornalista em zonas de conflito é pormenorizar o horror para acabar com o horror. Tarefa sobre-humana: impossível ignorar sentimentos, preferências, preconceitos ou fingir objetividade diante da dor.


Jornalistas não são máquinas de escrever. As guerras contemporâneas são conjunto de batalhas, geralmente curtas, grande é a rotatividade dos enviados às frentes de combate. Todos mais ou menos novatos, veteranos tentariam ser mais frios, o público quer sentir as emoções do terreno.


O fator de equilíbrio é o veículo. Cabe ao jornal, revista, rádiojornal, telejornal ou portal de internet abrigar e comparar divergências, somar pontos de vista, exibir o amplo espectro da controvérsia. Juntar interpretações – geralmente encontradas a boa distância das ocorrências – com as vivências in loco. Veicular opiniões e colocá-las a serviço da racionalidade.


Se as partes não oferecerem um mínimo de credibilidade, o conjunto ficará claudicante. O jornalismo é um processo orgânico e não uma colcha de retalhos, desigual.


Sessenta anos


As edições dos jornalões de referência nacional da segunda-feira (5/1) ofereceram um mostruário deste jornalismo múltiplo, pós-individual. Com o feriadão do fim de ano e a invasão da Faixa de Gaza pelo exército israelense, foi o primeiro dia da guerra plena.


Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e Globo buscaram o equilíbrio – mostrar os dois lados felizmente virou rotina. Despachar repórteres para a região do conflito também (o Globo serviu-se da correspondente).


A Folha saiu-se melhor, a partir da primeira página. Arrasadora, aquela imensa imagem negra, enlutada, e, no canto, as lágrimas correndo no rosto da menina palestina (foto de Ismayil Zaydah/Reuters). A longa chamada dividida em tópicos oferece ao leitor (provavelmente recém-chegado das férias/festas) uma visão ampla desta nova batalha da Guerra da Palestina, a mais longa dos séculos 20 e 21 (desde 1948, 60 anos).


Os três diários oferecem praticamente o mesmo espaço (quatro páginas), mas a Folha acrescentou a primeira página quase inteira e a oportuníssima análise de Igor Gielow, de Brasília, na Página 2 mostrando o nonsense da nossa diplomacia.


Além da farta produção dos enviados e correspondentes, os três selecionaram excelentes textos de grandes jornais internacionais (a Folha serviu-se do Financial Times, o Globo usou Washington Post e Independent, o Estado preferiu as agências de notícias).


Partido da racionalidade


A diferença, a grande diferença a favor da Folha foram as entrevistas da última página do primeiro caderno (A-10) com dois lúcidos especialistas: o palestino Bashir Bashir, que leciona na Universidade Hebraica de Jerusalém, e o israelense Eyal Zisser, da Universidade de Tel-Aviv.


Aqui fica visível o que acima foi designado como ‘fator de equilíbrio’, o trabalho de edição, a orquestração. De nada adiantariam entrevistas com delirantes adversários. O leitor ficaria mais confuso, mais vulnerável às simplificações e, sobretudo, ao ódio.


A maestria – a função social do jornalismo – exibiu-se na escolha de dois expoentes da cultura regional. Teoricamente em guerra, divergentes, o palestino e o israelense mostraram como é possível produzir aproximações. Mostraram também o quilate das respectivas elites, o potencial de bom senso e sofisticação cultural ao lado daquele enorme barril de pólvora.


Cobrir uma guerra mostrando como a guerra é insensata, absurda; cobrir uma guerra tomando o partido da racionalidade é um dos trunfos – triunfo – do jornalismo verdadeiramente humanista, tão fácil de entender, tão difícil de praticar.


 


Leia também


Por um pacifismo radical — Marcos Nobre [para assinantes do UOL / Folha de S.Paulo]

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/01/2009 Ibsen Marques

    Me parece que a imprensa comete o mesmo equívoco com que noticiou a invasão do Iraque. Chama guerra o que claramente é pura invasão. As lutas armadas são símbolos clássicos da irracionalidade humana.
    Israel tem bloqueado o acesso às informações do front e só liberou a ajuda humanitária após muita pressão externa. Creio que as sucessivas perseguições e massacres ao Judeus tornaram-no um povo frio e anestesiado. Nas declarações dos sobreviventes do holocausto o discurso sempre foi: divulguem amplamente o acontecido para que a humanidade nunca mais passe por tamanha tragédia! Incrível que isso volte a acontecer pelas mãos de seus próprios filhos e netos.

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