Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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TV Globo contesta CartaCapital

Por Ali Kamel em 19/10/2006 na edição 335

Leitor assíduo deste Observatório, um espaço plural e aberto a todas as discussões relativas ao jornalismo, pude acompanhar o debate envolvendo a matéria de capa da revista CartaCapital. Por esse motivo, gostaria de compartilhar com os leitores do OI a longa resposta que enviei à revista. Na semana passada, recebi de Maurício Dias um questionário cujo teor não deixava dúvida de que a revista estava mal-intencionada: as perguntas partiam sempre de premissas falsas e se referiam a episódios que nunca existiram. Preferi então dar uma resposta geral, reafirmando nossa convicção de que estamos realizando uma cobertura isenta das eleições. Para minha surpresa, porém, os principais ataques da revista à TV Globo não constavam do questionário que o repórter tinha me enviado. Isso pode ser facilmente constatado a partir da leitura da ‘reportagem’.


A TV Globo não teve oportunidade de relatar a verdade dos fatos previamente. Isto está feito no texto abaixo. É um relato minucioso e verdadeiro, não em minha defesa, mas em defesa do trabalho que nossas equipes espalhadas por todo o Brasil vêm fazendo com seriedade e compromisso com a ética.


Informações preliminares


De tudo o que foi escrito em ‘A trama que levou ao segundo turno’, reportagem de capa de CartaCapital da semana passada (nº 415, de 18/10/2006), a insinuação mais fantasiosa é aquela sobre o acidente com o vôo 1907, da Gol. A revista afirma que, no Jornal Nacional de 29 de setembro, o noticiário eleitoral, com destaque para as fotos do dinheiro dos petistas, foi praticamente o único assunto. Depois, ao constatar que o telejornal não divulgou a notícia do desastre, a revista pergunta: ‘A emissora levou um furo, como se diz no jargão jornalístico, ou decidiu concentrar seus esforços no que lhe pareceu mais importante?’.


A revista alega que o site Terra, às 20h10, já trazia extensa matéria sobre o desastre.


A insinuação provocou constrangimento nas nossas equipes em Rio, São Paulo, Brasília e Manaus, envolvidas na cobertura da tragédia. As primeiras informações sobre o desaparecimento de um avião nos chegaram quando o JN já estava havia muito no ar (o telejornal teve início às 20h). Imediatamente, nossas equipes saíram à cata de informações, que eram escassas e sem confirmação. Seria um avião de passageiros que estava desaparecido ou atrasado? Ele era da Gol ou da Embraer? Ele sumiu em Mato Grosso, indo para Brasília, ou no Pará, indo para Manaus? Em nossas redações, foi aquela correria, mas todos tínhamos uma convicção: só poríamos a informação no ar quando tivéssemos certeza dela.


Um telejornal como o Jornal Nacional, recordista absoluto de audiência, constrói a sua reputação assim: com notícias corretas, sem espalhar o pânico no país. Pôr no ar que um avião de passageiros da Gol ‘pode’ estar desaparecido, sem dizer qual o vôo e qual a rota é simplesmente levar o pânico para milhares de casas Brasil afora. Não fizemos isso. Não faremos isso. Mesmo que tivéssemos conseguido confirmar a informação antes do encerramento do JN, ela seria apenas uma nota, pois todos que conhecem TV sabem que é impossível produzir um rico material com o jornal a caminho do fim, com um assunto que demanda deslocamentos grandes.


Não consegui encontrar a suposta nota das 20h10 do site Terra, mencionada pela reportagem na CartaCapital, não sei sequer se ela existiu de fato. Mas encontrei outra, tida pelo site como a primeira, publicada às 20h46 atualizada às 3h21 do sábado, em que tudo está na condicional (observem os trechos em itálico), mesmo após atualizações tão tardias:




‘Um avião de passageiros da Gol, vôo 1907, que saiu de Boa Vista com escala em Manaus, Belém e Brasília e destino ao Rio de Janeiro, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), teria sumido do radar de controle do sistema aéreo nacional. As informações iniciais dão conta de que havia 155 passageiros, mas ainda não se sabe o número exato de pessoas a bordo. Segundo informações preliminares, o avião teria colidido em pleno vôo com outra aeronave de pequeno porte, modelo Legacy, fabricada pela Embraer.


‘O gerente de imprensa da Infraero comunicou que logo após o desaparecimento do avião da Gol, uma aeronave de reconhecimento eletrônico da Força Aérea Brasileira, capaz de detectar metais em terra, em regiões de selva, e de voar em situações de alto risco, decolou para tentar localizar o avião.


‘Segundo a Infraero a área que estão monitorando é de um raio de 30 quilômetros. A direção da Infraero está esperançosa já que moradores de São Felix do Xingu, fronteira do Mato Grosso com o Pará, avistaram um avião de grande porte voando baixo, mas não houve relatos de explosão. O avião modelo Legacy, de propriedade de uma empresa norte-americana, que teria se chocado com o avião da Gol, fez contato com a torre de controle de tráfego aéreo de Manaus para avisar do ocorrido e pousou’.


Esta notícia, como disse, foi publicada às 20h46, quando o JN já tinha acabado (ele saiu do ar às 20h45). E trazia apenas possibilidades. Um site de internet deve publicar informações assim, tão preliminares (mas notem que só o fez às 20h46). Um telejornal da dimensão de um JN, jamais. Mesmo que tenha havido uma notícia sobre o assunto no Terra às 20h10, como alega a revista, o grau de imprecisão dela deve ter sido ainda maior, forçosamente, do que a que foi divulgada às 20h46.


Fonte graduada


A notícia foi divulgada pela Rede Globo tão logo obtivemos a confirmação oficial, sem possibilidade de erro, obtida junto à Gol e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Isso ocorreu poucos minutos após o término do JN. Obtivemos a confirmação de fonte segura, mas ainda antes de uma manifestação oficial e por escrito tanto da Gol quando da Anac, que só divulgaram a primeira nota oficial às 21h50.


Não nos sentimos frustrados, mas convictos de que não divulgamos boatos, não dissemos que uma aeronave estaria desaparecida, mas demos a notícia exata: o avião da Gol que fazia o vôo 1907 desapareceu quando sobrevoava a região amazônica, entre Manaus e Brasília, com 155 passageiros a bordo. E, a partir dali, a cada intervalo comercial, municiamos nossos telespectadores com notícias exatas. Foi assim no Jornal da Globo daquela noite. Foi assim no Jornal Hoje e no Jornal Nacional dos dias subseqüentes. Um detalhe: o noticiário sobre o dossiê e as fotos, três VTs e duas notas, ocupou oito dos 37 minutos do JN. Dizer que o tema foi praticamente o único do JN daquele dia é, portanto, apenas parte da fantasia.


Também é falsa a afirmação de que eu teria tomado conhecimento na própria sexta-feira (30/9) de uma fita com a conversa entre o delegado Bruno e os jornalistas a quem distribuiu as fotos. Eu só soube da possível existência de uma fita no dia seguinte, depois que, publicamente, o ministro Tarso Genro e o coordenador da campanha de Lula, Marco Aurélio Garcia, deram entrevistas dizendo que a fita existia e que nela o delegado dizia que seu desejo era ‘ferrar o PT’.


Liguei para São Paulo no início da noite de sábado para saber se sabíamos dessa fita. Luiz Cláudio Latge, diretor de jornalismo em São Paulo, disse que o repórter Rodrigo Bocardi tinha ouvido a fita, fora da Globo, e eu pedi que ele me reproduzisse o conteúdo. Ele foi enfático ao afirmar que nos dez minutos de conversa, em nenhum momento, o delegado se referiu ao PT ou a motivações políticas. O que fizemos? Pusemos no ar as suspeitas de Marco Aurélio Garcia, no JN, reproduzindo sua frase sobre ‘ferrar o PT’ e, em seguida, demos uma nota dizendo que nos dez minutos de conversa com os jornalistas em nenhum momento a frase fora dita. E acrescentamos que o delegado se justificava, alegando que fazia aquilo porque se sentiu prejudicado ao ter sido afastado do caso. Isso no dia exato em que a existência da fita passou a ser cogitada, na véspera da eleição.


A íntegra da reportagem do JN sobre Marco Aurélio Garcia é a que segue:




A divulgação das fotos foi novamente criticada pelo PT. Hoje, as críticas foram dirigidas ao PSDB e à imprensa.


O coordenador da campanha de reeleição do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, voltou a dizer que o vazamento das fotografias teve objetivo político. E reclamou que os jornais não contaram toda a história. Para Garcia, a imprensa deveria ter revelado a fonte da informação.


As fotos foram divulgadas pelo delegado Edimilson Bruno, citado pela imprensa, inclusive pela TV Globo, como uma fonte graduada da Polícia Federal. Ontem, o delegado chegou a declarar que as fotos teriam sido roubadas. (aqui entra uma fala de Marco Aurélio Garcia)


– Não são quaisquer informações, são informações de caráter delitual. Quando um delegado diz: ‘Eu vou subir agora para forjar um boletim de ocorrência’, a imprensa está sendo informada de um.


Marco Aurélio Garcia disse ainda que tem informações de que o delegado da Polícia Federal, Edmilson Bruno, teria dito aos jornalistas que estava divulgando as fotos para atingir o PT:


– Quando um delegado, fugindo das suas responsabilidades, declara que vai fazer isto para ferrar, não foi bem esta expressão, o PT e o presidente Lula, ele está saindo da conduta funcional que se espera de um delegado.


Em Fortaleza, o presidente do PSDB, Tasso Jereissati, disse que as reclamações do PT encobrem a questão verdadeira – a origem do dinheiro:


– Estão em verdadeiro pânico sobre a divulgação destas fotos, desta montanha de dinheiro. Isto me parece quase uma confissão de crime, que o dinheiro é deles e que é um dinheiro ilegal.


A íntegra da nota de redação sobre o conteúdo da conversa entre o delegado e os jornalistas que receberam as fotos é a seguinte:




O repórter da TV Globo que recebeu as fotos diz que o delegado conversou com os jornalistas durante dez minutos. E que em momento nenhum mencionou qualquer motivação política para a atitude. O delegado disse apenas que se sentia prejudicado pela Polícia Federal por ter sido afastado do caso – mesmo tendo efetuado as prisões.


Isso deixa claro que o JN foi absolutamente transparente no que diz respeito às suposições do PT a respeito da fita. E cumpriu a sua obrigação de dizer aos seus telespectadores que a intenção de ‘ferrar o PT’ ou outra motivação político-eleitoral não foram mencionadas na conversa com os repórteres.


Agiram mal a TV Globo e toda a imprensa ao divulgar as fotos? De maneira alguma, elas eram de extremo interesse público. Agiu mal a TV Globo ao preservar a fonte? Também não, porque ao mesmo tempo em que preservou a fonte, não fez, em nenhum momento, o que ela pediu: alegar que os CDs haviam sido furtados. Desde o primeiro instante a TV Globo disse a seus telespectadores que conseguira os CDs de uma fonte graduada da Polícia Federal, com isso deixando claro que se tratava de alguém da hierarquia da polícia. Em nenhum momento dissemos que os CDs por nós obtidos eram fruto de furto ou roubo.


Qualidade sofrível


O que mais impressiona é a parte da reportagem em que se destaca a frase do delegado: ‘Tem de sair hoje à noite na TV. Tem de sair no Jornal Nacional‘. Trata-se de um caso de omissão cujo objetivo pode ter sido dar a entender que a intenção do delegado era vazar as fotos prioritariamente para a TV Globo. Nada mais falso.


Conversando com quatro jornalistas, nenhum deles da TV Globo, o delegado, a certa altura, pergunta para qual televisão ele deve divulgar, alegando que precisa que as fotos saiam numa TV. Os repórteres, nenhum deles da TV Globo, sugerem a Globo e o SBT. O delegado pergunta então se há alguém da Globo nas proximidades, e os repórteres apontam para Rodrigo Bocardi, repórter do Jornal Nacional, que estava de plantão na Polícia Federal. Outro repórter do grupo acrescenta que também está na PF um repórter da TV Bandeirantes, a quem classifica de gente finíssima. O delegado alega que não tem CDs para todos, mas os repórteres asseguram a ele que tirarão cópias e farão a distribuição aos repórteres de TV. O delegado pergunta se pode confiar no grupo, se de fato eles vão distribuir os CDs para todos, porque, acrescenta ele, não interessa que apenas um veículo divulgue o furo. Na visão dele, todos têm de divulgar.


A essa altura, um dos repórteres pergunta se as fotos só podem sair na TV no dia seguinte (tenta deixar o furo para os jornais impressos). O delegado esclarece então que devem sair ainda naquela noite, no primeiro jornal da Globo, à noite, mas não à tarde. E acrescenta a frase, citada apenas pela metade pela revista: ‘Tem de sair no Jornal Nacional. Se for o SBT, Ana Paula Padrão’. A preocupação do delegado, ao citar os dois telejornais, é mostrar que ele gostaria que as fotos saíssem nos primeiros telejornais da noite, e não nos últimos. Ao se despedir dos repórteres, o delegado se certifica de que não precisa se preocupar nem com a Globo nem com a Band, porque os repórteres repassarão o material. E acrescenta, em tom de desabafo: ‘Se eu não vir isso nem na Globo nem na Band…’. Os repórteres o tranqüilizam, garantindo que os CDs serão repassados para as duas emissoras.


Esses diálogos mostram claramente que CartaCapital se baseou numa edição parcial das frases do delegado, e, assim, distorceu, voluntária ou involuntariamente, os fatos, atacando a TV Globo.


De resto, diante do questionário que Maurício Dias me mandou, tomei a decisão de não responder especificamente a nenhuma das perguntas, porque todas partiam de premissas falsas ou relatavam episódios que simplesmente não existiram. Eram perguntas sobre o que não existiu, com o objetivo de pôr em dúvida a nossa isenção em relação ao PT. Algumas, além de falsas, eram constrangedoramente contraditórias. Numa delas, por exemplo, indaga-se por que a TV Globo não destacou um repórter para investigar a participação de Abel Pereira na máfia das sanguessugas; em outra pergunta, afirma-se que a TV Globo engavetou uma ou mais reportagens sobre Abel, uma delas já editada e que nunca teria ido ao ar. O repórter não se deu conta de que é ou uma coisa ou outra. Mas se há dúvidas sobre as minhas respostas, reitero aqui: as premissas das perguntas eram sempre falsas.


Decidi apenas dizer que nos orgulhávamos da isenção que conseguimos imprimir em nossos telejornais. E citei uma frase do presidente Lula, atestando publicamente a nossa isenção. Ao ler a reportagem, porém, diante de insinuações sem nenhuma base na realidade, que ofendem não somente a mim mas a todos os profissionais da TV Globo, em respeito aos leitores de CartaCapital, decidi encaminhar esses esclarecimentos.


Não sou movido por paixões políticas e meu compromisso é apenas com a minha profissão: relatar os fatos, com correção e imparcialidade, não importando se beneficiam ou prejudicam esta ou aquela corrente política. Posso constatar com orgulho que esta é também a postura dos meus colegas de redação. Para todos nós, é motivo de satisfação trabalhar numa casa que não espera de seus funcionários outra coisa senão esse tipo de comportamento. Políticos passam. Eleições chegam ao fim. Mas o nosso trabalho jornalístico é diário e avança nos anos. Supor que jornalistas da TV Globo e a própria emissora possam perder isso de vista, trocando os compromissos éticos de nossa missão conjunta por objetivos políticos subalternos, é uma ofensa gravíssima que repudiamos com toda a ênfase.


PS: Cópias da fita com a conversa gravada entre o delegado e os repórteres, divulgadas por alguns sites, estranhamente têm uma qualidade sofrível, especialmente nos trechos que menciono aqui. Tenho certeza de que cópias em melhor estado hão de surgir, quem sabe neste Observatório.

******

Diretor-executivo de Jornalismo da TV Globo

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