Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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JORNAL DE DEBATES >

Um ano de TV pública

Por Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar em 10/02/2009 na edição 524



A tragédia de nossas vidas são as dúvidas,/ que muitos, ou alguns, conseguem traduzir já no início de suas existências,/ mas que chega a ser triste se esta tradução é feita tardiamente,/ quando a velhice tenta, em suas trajetória, resgatar a adolescência ou a infância tornando o nosso fim mais circular, uma invenção, como uma negação da rotineira linearidade,/ esta casca ou esta realidade em forma de espetáculo, que envolve todos nós!’ (S.A.)


Há tempos deixamos de ver e menos ainda defender o que fazem em nome do pobre e empobrecido cinema brasileiro. Claro que os seus novos funcionários vindos da TV aberta, o defendem como sempre defenderam a TV e o que dela viesse. Foram feitos por ela! E aí dão legitimidade a tudo e a todos. E todos são geniais! Ultrapassam o puxa-saquismo ao dar continuidade a uma ladainha enraizada no capital que também tudo justifica. E o único esforço é ajudar a vender uma imagem postal de segurança necessária às instituições a que sempre serviram como cães de guarda. E como servem a qualquer tipo de novela, anúncio, governo ou imagem – como pedir-lhes coerência?


Obsessivos na marcha para o’sucesso’ a qualquer preço, inovar para eles é se repetirem nas justificativas, pessoalizando o discurso e escondendo a lambeção seja lá do que for. Vejam a’pérola’ do senhor Tony Ramos ao Estado de S. Paulo, de 2 de janeiro de 2009:’…e Daniel (Filho) é simplesmente um grande diretor. Um cara que consegue o que ele atingiu na sua carreira como ator, produtor e diretor, no cinema e na televisão, só não obtém esse reconhecimento por preconceito e eu tenho horror de preconceito.’


Vai para o trono ou não vai? Duro vai ser manter o mesmo discurso no’Se eu fosse você 24′. Vê-se aí, claramente, o baixo efeito de Roliude sobre o pensamento abjeto de muitos marionetes. Mas, como a sociedade do espetáculo comporta tudo, por que não comportaria os Spice Boys da TV? Ora, por que a top model bonita e idiota não pode ser atriz? As Xuxas e os Xuxos proliferam do BBB ao Jô Soares, os defende também como geniais. A encenação é velha, mas o Gordo sabe como coisificar os elementos e faturar! Tudo lhe serve no que acha ser o top-look televisivo. Quem sabe não o indicam a uma carreira na Academia Brasileira de Letras, como doutor em nada? Não está lá o Sarney, o Paulo Coelho e tantas outras múmias?


Banalização do real


Nossa sociedade do espetáculo não comporta confronto ou cisões. E como bem dizia Guy Debord (1931-1994): (…)’quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. (…) É por isso que o espectador não se sente em casa em lugar algum, pois o espetáculo está em toda parte.’ Mas também é preciso que se leve em conta que a falsificação passiva do mundo não se iniciou com a TV, mas ganhou uma força militar-religiosa profunda, vasta e abrangente de reprodução infinita da ideologia dominante.


A essa nova-velha ordem servem as religiões, o dinheiro, as corporações, os políticos, comunicadores, pensadores e atores fetichizados pelas novelas e pela publicidade. A consolidação de um novo fascismo-espetáculo passa pela TV, e por todos que a sustentam e defendem, não só sua ação, como seu ódio ao pensamento profundo. Mas, tal’solidariedade’ entre tantos idiotas não diz alguma coisa?


O capitalismo não é bobo e sabe como transformar cocô em mercadoria de primeira. Voltando uma vez mais a Debord: (…)’o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediadas por imagens.’ A felicidade é transformar tudo que toca em dinheiro. Consome-se seja lá o que for: do traque sertanejo aos porta-vozes das religiões de resultado. E produz-se o controle num autoritarismo velado tipo os berros histéricos do pastor Malafaia. O seu oposto é a ritualização emotiva , açucarada e também financeira do padre Marcelo Rossi. Servem ao sistema de reprodução do capital, mas não ao saber.


Com todos bem-sucedidos voltamos ao emporcalhamento do que a TV aberta vende como interpretação: o fast-food das’celebridades’ com o top-pornô do senhor Amaury Jr, vendendo seu peixe caro num país de miseráveis. Ou seja, estetiza-se uma assimilação de conteúdo algum. Vip não pensa, fatura seja lá com o que for. Dilatam-se os múltiplos mecanismos de um capitalismo bárbaro e selvagem, onde o engenhoso é só aparecer em qualquer imagem, num espetacular ocultamento da verdade, da história e do país – numa expansão conveniente e estratégica da prostituição, onde todos são tops qualquer coisa, favorecendo-se a beleza artificial só contemplativa, pois ao não pensar, não tem o que dizer.


Daí a nossa, ainda, solidariedade com a televisão pública que tenta ainda muito modestamente transformar a apatia reinante da TV em politização-poética do cotidiano. Transformação mais que necessária do lixo mundano para uma história nova. A TV Pública, por ser pública, nossa, uma construção, precisa estar atenta ao imediatismo político mas, acima de tudo, deve ampliar o olhar da história, porque o imediatismo e a nossa historicidade foram sempre a base e a força para a manipulação do espetáculo, o universo diário e histórico da TV. Lamentavelmente, até agora, a TV Pública não disse a que veio e tememos pela falta de teóricos profundos como Antonio Candido, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Ana Coutinho, Victor Gama, Andrea Tonacci, Negro Leo, Maria Eduarda Castro, Ícaro Lira, Joana Collie, Zé Celso Martinez Correa, Andre Scucato, Marcelo Ikeda, Nikita Paula, Sergio Santeiro, Hernani Heffner, Macalé… e invenções mais que necessárias. Sua plenitude não pode ser só de assepsia e limpeza do que já está morto, mas de transformação do falso show da vida em pensamento-movimento na desconstrução e ultrapassagem de uma visão banalizadora do real. De nada adianta um só bom programinha se tudo mais só repetir os modelos dominantes, pois dilui-se o que tenta ser bom.


Olhar introdirigido


Ora, a TV que até ontem defendia a expansão da mesmice, precisa ir além do xuxismo do Jornal Nacional ou qualquer outro informativo. Precisa entender sua importância histórica numa não-falsificação das idéias, trabalhando a dignidade humana a fundo. Dar expressão ao país e evitar que seja apenas uma cópia silenciosa da prostituição internacional. É preciso reverter essa ideologia de manutenção da ordem em discussões e poesia. O espectador não é só um boçal que transformado em produto consome qualquer coisa que o faça ressurgir vitorioso como inválido, sem história alguma.


De um modo geral, as teorias sobre a TV deixam muito a desejar. São na verdade piruetas verborrágicas sem reflexão profunda alguma. Satisfazem o gosto do freguês, mas também deixam a desejar. São apenas distorções ficcionais vagando entre o espetáculo que justifica qualquer shopping center da picaretagem e o capital. É isso: a TV mais parece um shopping de aberrações e inutilidades querendo com a sua desimportância cultural tornar-se uma confortável arma militar, pois já está dentro de qualquer casa ou espaço. E controlando, né? Controle e poder não estão intimamente ligados? E no que resulta a intensificação dessa relação?


No regime militar era um campo de trabalho que se justificava por empregar pessoas, atores e técnicos. Porém, ao empregá-las, incutia-lhes a pretensão do sucesso na desimportância da consciência em conexão com o saber. A percepção burocrática-autoritária caracterizou-se sempre como uma sofrida coisificação do capitalismo como um bom negócio da China. Mas para quem? Nessa nova dinastia difusa entre famílias, o entretenimento é só o lucro que interessou sempre. Para mantê-lo é o vale tudo na estetização do horror no controle de corações e mentes. Muitas são as obscenidades na ritualização da produção de vazios. E em quê a TV como porta-voz do poder mudou com a convenientíssima farsa da’abertura’?


Ora, por mais bem-sucedido que seja o senhor Daniel Filho, que clássico do nosso cinema ele dirigiu? Claro que para os seus empregados ele é tido como gênio. Seria por demais significativo e até político se fosse visto apenas como um monumento frágil mas lucrativo do sistema vigente. Era querer muito de um espaço onde tudo se resume ao dinheiro, e não ao pensamento e ao saber. Se morasse em Roliude possivelmente estaria fazendo videogame para a Disneyworld, adequando seu acesso tecnológico à guerra do Iraque, num novo caminho para as Índias. Hoje, com o empobrecimento e a banalização da imagem se pode tudo. Até mesmo despotencializar sonhos. E o não-conhecimento tornou-se definitivamente incorporado as conquistas do espetáculo. Não temos mais Matraga, Blábláblá, Deus e o Diabo ou o genial São Bernardo, mas seguramente teremos o Se Eu Fosse Você 24. Haja saco, né?


Por outro lado, a ainda nova TV Pública não pode ter medo da cultura de massas, ou melhor, esta cultura que foi massificada. E nem precisa fugir dela. Basta tocar na sua inorganicidade, desembrulhar a fruta, tirar a casca e mostrar-nos a polpa. Inverter essa realidade que nos é mostrada e decodificada toda hora e todo dia, 365 dias por ano, como coisa diferente e sempre semelhante, para que, em essência, nada mude; muito menos na idéia de país, este que pensamos em nossa utopia, construir também, 365 dias por ano. Mas que, as ideologias, teimam em retardar! Escondendo a polpa para nada alterar!


Não sabemos quantos canais de TV há no mundo. Quantas repetidoras, quantos olhares, quantas imagens etc., etc… E, praticamente, todas elas com os mesmos significantes e significados, todos de uma mesma matriz (o que não iremos aqui abordar). E, por que não, estes mesmos olhares, com uma outra significação? O olhar de uma nova TV Pública? E, por que, teria de ser diferente? Eis a questão! Tudo pode ser abordado com outra ou com alguma significação, o que as nossas TVs não possuem, falta-lhes este sentido, o da linguagem. Uma TV Pública é linguagem através das imagens do olhar, este que forma uma paisagem, o que não existe mais como comunicação ou coisa pública. A coisa virou espectro, aproximou-se e se individualizou, o de um olhar introdirigido ou, no máximo, alterdirigido, formando os grupos, as corporações. E o público acabou virando isso; esse olhar, essa linguagem, a que não capta nem transmite significações. Uma idéia do ser…


Idéias justas


Ser para quê, se tudo já está decidido, é assim e não vai mudar? O que dizem! Tanta conversa para quê? Estamos falando de uma TV que nasceu para ser Pública, para um público diferente, que precisa entender a significação da res publica, a coisa pública, nossa, da nossa responsabilidade e necessidade, e que merece os nossos cuidados porque parte de nós, mantida por nós e que só poderá sobreviver assim, a partir desses entendimentos, de contradições não massificadas e que representem uma outra realidade, a da inversão do espetáculo.


Esse formato e essa forma enganosa, espetacular, de atender o que não entendemos, necessidades criadas, introjetadas em nosso inconsciente como prazer e a conquista possível, depois do esgotamento do dia ou do desespero ou da esperança que nos modelam como realidades. Nada de novo precisa ser inventado, porque tudo já foi posto à luz de nosso olhar. Mas que não vemos mais, porque as TVs é que nos olham, em toda parte, ruidosamente, impondo o seu padrão, a sua linguagem, o seu ser já definido. Sem dúvidas ou questionamentos, sem contradições!


Para concluir: a TV Pública é outro paradigma com as mesmas temáticas, por que não? Entendam a inorganicidade deste país e tente-se alguma organicidade. Somos este Continente que não se esgota, nem nas invasões. Mas carente de uma cultura própria para começar a sua afirmação como significação, a de um olhar e a de uma linguagem que temos e que tem medo, ou está sendo excluída, por ser diferente de um paradigma da verticalização, sem abertura para horizontalidade.


Nossa massificação econômica, política e cultural, tem desarticulado o olhar e a linguagem dos signos, transformando a vida cotidiana em um espetáculo com muito barulho para nada, de imagens e fatos sem contradições, como se nós nada significássemos, nessa imolação insaciável do divino, das religiões e de partidos. Como se o público fosse apenas qualquer produto veiculado pelo marketing que garante os horários.


Espera-se de uma TV Pública a idéia de um tempo imprescindível. Como a de um país que precisa se fazer. Nossas possibilidades ainda são incomparáveis! Como as idéias justas de um Antonio Cândido falando de Paulo Emílio Sales Gomes e do seu tempo na defesa do cinema brasileiro e de sua importância na veiculação das idéias de um país. E de uma política orgânica para defendê-lo, como diferente, necessário e parte de uma cultura que foi se perdendo com o domínio das imagens de outros. Espectros, a que assistimos como um espetáculo que continua nos encantando. Pela cegueira de nosso olhar! De nosso tempo!

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Respectivamente, diretor de cinema, escritor e artista plástico, Rio de Janeiro, RJ; co-diretor dos longas Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja

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