Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Um Brasil de Brunos e Elizas

Por Luciano Martins Costa em 09/07/2010 na edição 597

Nesta sexta-feira (9/7), faz exatamente um mês que a jovem Eliza Samudio foi, segundo a polícia, barbaramente espancada e morta por ordem do goleiro do Flamengo Bruno Fernandes.A descrição das torturas, feita por duas testemunhas, deixou transtornado até mesmo um experiente delegado que acompanha o inquérito. Das páginas dos jornais emerge o atleta com um perfil monstruoso, um jovem cujos pais têm passagens pela polícia e que parece capaz de matar o próprio filho.


O assunto virou obsessão da imprensa e, nos últimos dias, as emissoras de televisão acompanham freneticamente a movimentação dos acusados e da polícia. Desde o caso da morte da menina Isabella, encerrado há três meses com a condenação do casal Nardoni, não se via tanta movimentação de jornalistas em torno de uma história policial.


As revistas semanais já haviam estampado em suas capas, nas edições correntes, a história do desaparecimento de Eliza Samudio, mas apenas na quarta-feira (7/7) a imprensa teve acesso aos detalhes escabrosos do crime. Ao se encerrar a semana, a polícia não tem mais dúvidas e a imprensa já crava seu veredicto.


Morte anunciada


No entanto, falta um detalhe ao noticiário. Esse detalhe foi levantado pela repórter Eleonora Paschoal, no Jornal da Band, da Rede Bandeirantes de Televisão, na quinta-feira (8/7). Trata-se da questão da violência contra a mulher, tema central do caso Bruno Fernandes, assunto que a imprensa costuma contornar.


A repórter da Band relatou casos de agressões que eram crônicas de morte anunciada, e que no entanto não geraram a atenção necessária da mídia e das autoridades para evitar o desfecho trágico. Citou, evidentemente, o assassinato da jornalista Sandra Gomide, cujo autor, Antonio Pimenta Neves, segue impune.


Nesta sexta-feira (9/7), O Globo reproduz declarações das candidatas à Presidência da República Dilma Rousseff e Marina Silva lamentando mais um caso de violência contra a mulher, mas não aparece uma linha de iniciativa dos jornais propondo uma análise dessa perversidade social que ainda envergonha o Brasil.

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/07/2010 Cristiana Castro

    ( cont. ) isso e não, a favor.

  2. Comentou em 10/07/2010 Cristiane Sampaio

    O que mais revolta em tudo isso é saber que o grande critério de noticiabilidade que sustenta a transformação dessa notícia num ‘fait diver’ não é o fato de a violência contra a mulher ser algo chocante, e sim o fato de o autor do crime ser um famoso jogador de futebol. A violência de gênero ainda não choca as pessoas como deveria. Muitas mulheres são assassinadas diariamente no País e há casos que não viram nem notícia local, muito menos nacional. A mídia não está interessada em discutir esse problema, e sim em fabricar escândalos que fogem da questão central da violência contra a mulher.

  3. Comentou em 10/07/2010 jonas carvalho

    Muito bem Márcia ( jornalista). Se me dá licença eu vou complementar o que você disse, com muita propriedade, lembrando do que já diziam nossos avós: ‘ quando um não quer, dois não tem!’

    grandes abraços

  4. Comentou em 09/07/2010 Boris Dunas

    A atitude mais infeliz, covarde e sobretudo inútil em casos como esses é atacar a imprensa, como se ela vibrasse de tesão em dar esse tipo de notícia para ter mais audiência ou vender mais jornais, revistas, etc. É inútil porque a ira da população acaba canalizada para o lado errado: mais uma vez, pune-se o carteiro pelas más notícias; é covarde porque esses que a atacam sabem bem que estão batendo num ente abstrato, impessoal: dá pra ser muito valente quando não se corre qualquer risco; e finalmente é infeliz por não enxergar – para não ter de enfrentar – o real problema: a completa falência moral e cultural “como nunca antes neste país”. O fracasso não se improvisa, e nunca é obra do acaso. É a feiúra desse bicho que ninguém quer encarar.

  5. Comentou em 09/07/2010 Rose Silveira

    E a imprensa, ao batizar o fato de Caso Bruno, não estaria cometendo um erro de interpretação sobre a vítima nessa história? Afinal, a vítima é Eliza Samudio. O fato de ser ele um ídolo condena até a memória de Eliza ao segundo plano?

  6. Comentou em 09/07/2010 Douglas Otavian Tôrres

    A questão da violencia contra mulher,é apenas um detalhe no roteiro do ‘coliseu’ da grande midia,em busca dos indices de audiencia ,e,satisfazer a Plateia com sangue,o delegado se tornou o imperador a quem todos aguardam que mostre o polegar e o aponte para baixo para delirio de todos.Tem de se ter apuração.julgar,emfim justiça,não os linchamentos midiáticos em alta definição que desnundam a nossa pouca evolução intelectual e espiritual,predomina ainda os instintos das cavernas.

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