Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

‘Um casamento futuro entre ele e a namorada’

Por Lola Aronovich em 21/10/2008 na edição 508

Acabei de ver um vídeo absolutamente repugnante de uma entrevista da Rede TV com o seqüestrador e assassino Lindemberg. Eu não tinha visto isso. Li várias entrevistas de jornalistas com o criminoso. Parece que tudo quanto é jornal e emissora de TV conseguiu ligar para ele. E a polícia não fez nada para impedir! Não dá pra acreditar em algo assim. O ‘quarto poder’ pode então telefonar para um criminoso que está apontando uma arma pra uma menina de 15 anos, em plena negociação com a polícia? Quer dizer que qualquer um que descobrisse o telefone poderia ligar pra Lindemberg e passar trote, xingar, orar por eles, qualquer coisa? Virou uma espécie de ‘Disque seqüestrador’.

As telecomunicações tiveram papel decisivo no desfecho do seqüestro: a mídia agia como se o apartamento invadido fosse a casa da mãe joana; no último dia, a bateria do celular do negociador policial acabou (pasmem!). Mas essa da Rede TV, no programa da Sônia Abraão, eu não tinha visto. São longos minutos de um nojento tique nervoso falando para Lindemberg ter calma, enquanto tudo que o rapaz parece querer saber é: ‘Tá na televisão? É ao vivo?’. Isso é puro A Montanha dos Sete Abutres, grande filme de 1951 sobre uma tragédia que um jornalista perpetua para poder tirar proveito dela. É muito deprimente, muito mundo cão quando o repórter pede pra falar com Eloá, e ela, com voz trêmula, chorosa, tenta responder que ‘tá tudo bem’, mas que está fraca, com fome. E pede para mandar um beijo para mãe a e para o pai. Sabe, como faz todo mundo que aparece na TV? Manda alôzinho e beijo para os pais? Eloá também fez isso, mas desmoronando, sem saber que iria ser assassinada dentro de algumas horas.

‘Fase momentânea’

Em seguida, a apresentadora Sônia volta com seu programa de auditório, agora recebendo convidados, um advogado e um psicólogo (todos homens brancos, óbvio). E segue-se o seguinte diálogo surreal:

Sônia Abrão: ‘Boa tarde, dr. Ademar, e com a sua experiência [sic] nos orientar assim sobre o que vai acontecer daqui pra frente, pra que a gente possa ter uma idéia, claro.’

Doutor Ademar Gomes: ‘Bom, eu sou muito otimista, né? Eu espero que isso termine assim em pizza, né, e num casamento futuro entre ele e a namorada, a apaixonada dele, né? Ele tá passando uma fase momentânea, né, e ele tem a motivação de viver, porque um rapaz jovem, quando se apaixona, muitas vezes se desequilibra, no caso radicaliza, mesmo. Mas isso vai terminar realmente em final feliz, graças a Deus, eu tenho plena certeza e convicção disto.’

Palavras assim só podem vir de alguém que não tem a mínima empatia! Que não consegue se colocar no papel de uma menina, de uma mulher. Sério que, se tudo acabasse ‘bem’, ‘em pizza’ (me expliquem como uma tragédia dessas poderia ‘acabar bem’, mesmo que ninguém morresse), Lindemberg e Eloá iriam se casar? Quer dizer, doutor Ademar não pensou em perguntar pra Eloá se ela iria querer se casar com um cara que bateu nela, a ameaçou de morte, apontou uma arma para o seu rosto, atirou no seu computador e, finalmente, na sua cabeça e na sua virilha. Tadinho, Lindemberg estava só numa ‘fase momentânea’, e tantos jovens passam por isso e ‘radicalizam’ nessas horas, não é mesmo?

Não é um mundo para amadoras

Nesse momento, não foi apenas Lindemberg que viu Eloá como sua posse. A mídia e esse doutorzinho asqueroso fizeram a mesma coisa. Eloá nem existia. Ela era apenas ‘a apaixonada’, ‘a namorada’ (nem falaram em ex-namorada) daquele bom rapaz, trabalhador, de boa índole, ‘meu querido’, como repetia o repórter. E notem o termo que o doutor usa, ‘terminar em pizza’. Isso é sinônimo de impunidade!

Se Eloá saísse viva de lá, Lindemberg iria ser aplaudido e todos (os homens) comemorariam o final feliz, cheio de amor, de um batalhador que teve a coragem, o brio, a hombridade de reconquistar a amada. As emissoras já marcariam a data do casamento para poder fazer uma grande cobertura (sem pedir o consentimento de Eloá). Seria um lindo happy end! Não para as mulheres que apanham dos companheiros, que são ameaçadas diariamente e assassinadas de vez em quando. Mas o que elas importam? Este não é um mundo para amadoras.

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Doutoranda em literatura em língua inglesa, Joinville, SC

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