Segunda-feira, 16 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº995
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JORNAL DE DEBATES > ISABELA NARDONI

Um caso para não esquecer

Por Alberto Dines em 14/04/2008 na edição 480

Horror íntimo ou vocação coletiva para envergar a toga? Catarse pessoal ou sumarização da justiça? Tragédia ou circo midiático? A morte da menina Isabella Nardoni toca na emoção do país inteiro, qualquer que seja a conclusão do inquérito.


O Brasil festeiro, erotizado, apressado, partidarizado e narcisado faz uma breve pausa para pensar. Pensar e sofrer, individuar-se e abandonar a manada equalizadora. Tal como aconteceu com o menino João Hélio, despedaçado nas ruas do Rio em fevereiro de 2007, uma criança incapaz de emitir mensagens cala a estupidez reinante e avisa que é hora de incomodar-se.


A dengue, a tremenda pressão mundial no preço dos alimentos, o narcotráfico, o genocídio no Sudão, a guerra religiosa no Iraque, a repressão chinesa no Tibete e o ódio solto no Oriente Médio certamente causarão a morte de milhares ou milhões de crianças pelo mundo afora.


Mas esta criança singularizada pela tragédia, subitamente emudecida por uma bestialidade insuspeitada, despertou nossa humanidade. Numa questão de horas, converteu em órfãos a imensa nação dos adultos.


Coração partido


Ninguém se importa com a prática do infanticídio em algumas tribos indígenas, defendida com empenho por antropólogos (Folha de S.Paulo, 6/4). A cada dez horas, uma criança é assassinada, o Ministério da Saúde contabiliza, em seis anos, 5.049 mortes de meninos e meninas até 14 anos (O Globo, 6/4). Normal. A pedofilia e a prostituição infantil são encaradas com naturalidade, parte da ‘vida moderna’, incentiva o turismo.


A queda de Isabella deu um tranco nos bons costumes. Por alguns momentos sacudiu modos e modas. Ao contrário de João Hélio, seu companheiro de infortúnio e martírio, a menina não acionou nossa compulsão legiferante. Até agora não apareceu um político oportunista para propor alguma lei absurda contra tragédias.


Até mesmo a parvoíce das autoridades incapazes de compreender a questão do segredo de justiça ou as disparatadas suspeitas vocalizadas incessantemente pela mídia antes mesmo de investigadas não conseguem sobrepor-se à soturna perplexidade que, por milagre, infiltra-se nos espíritos.


Imunizada contra a solidariedade, desumanizada por um debate partidário que na realidade só responde à pergunta ‘o que é que eu ganho com isso?’, a sociedade brasileira sempre se perfilou no bloco do ‘não-me-importa’. Envergonha-se de exibir o coração partido, mas agora oferece sutis indícios de sensibilização.


Sentimentos contínuos


A dúvida sobre quem matou Isabella é tão dilacerante quanto a certeza de que alguém a matou. O filosófico e angustiante por quê? começa a equiparar-se ao policialesco quem?. Os enigmas serão desfeitos, culpados logo aparecerão – inevitável. A questão que deve permanecer e atazanar as almas e os espíritos relaciona-se com a mecânica da bestialidade. Desafio destinado a não consumar-se, exercício infindável, por isso salutar tanto para religiosos como para agnósticos, para céticos e idealistas, revolucionários e conservadores. Ignorar o animal que convive com o ser humano é próprio dos bárbaros.


Isabella é uma dolorosa oportunidade para questionamentos. Nações aturdidas, empurradas por sensações, são incapazes de maturar sentimentos contínuos, comprometidos com éticas espasmódicas.


A morte de Isabella é um caso para não esquecer e aguilhoar.


***


Por conta própria


A.D. # comentário para o programa radiofônico do OI, 14/4/2008


Quinze dias depois do assassinato da pequena Isabella Nardoni a mídia afinal sossegou no fim de semana (12-13/4). Certamente estava cansada do show de sensacionalismo exibido na sexta-feira (11/4) após a libertação dos principais suspeitos, o pai e madrasta da menina.


Como o inquérito prossegue e as testemunhas continuam depondo sob sigilo na polícia, o relax de sábado e domingo só tem uma explicação: a mídia só sabe trabalhar com vazamentos ou hipóteses delirantes.


A única matéria, digamos exclusiva, foi a entrevista do Fantástico com o desembargador Caio Canguçu, que acolheu o pedido de habeas-corpus apresentado pela defesa. Na realidade, a reportagem interessava mais ao magistrado para defender-se das acusações de que a libertação do casal poderia ser entendida como um prejulgamento.


Se a mídia deseja manter o caso no alto das primeiras páginas de qualquer maneira, o único recurso é investigar por conta própria.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/04/2008 Ubirajara sousa

    Fiquei estarrecido ao ver, ontem, no jornal da Globo, fotos e outros documentos do processo, que corre EM SEGREDO DE JUSTIÇA. A única pergunta que faço é esta: está agindo corretamente a imprensa quando os publica, ou o crime foi praticado somente por quem surrupiou esses documentos e os ‘ofertou’ a algum jornalista íntegro e cumpridor do seu dever?

  2. Comentou em 14/04/2008 Sandra Regina Souza

    Tenho acompanhado os noticiários sobre o Caso de Isabela, e fico muito chocada de como boa parte da imprensa vem condizindo o assunto de forma inadequada. Muitos colegas em vez de informar estão pré-julgando antecipadamente os ‘suspeitos’, se sentem donos da verdade, e se utilizam desse Quarto Poder (imprensa). Tudo diferente do que se aprendeu de como exercer o bom jornalismo, então, se é uma utopia ser imparcial tentar pelo menos não fazer juízo de valores de fatos que ainda estão sendo apurados pela polícia.
    Outro absurdo, é a imprensa se prestar a fazer o papel de polícia, vigiar o ‘casal de suspeitos’ por 24 horas. A mídia está se prestando a isto, com câmeras colocadas em todos os pontos estratégicos e endereços, digno de um verdadeiro Big Brother. Mas desta vez, ao termínio de saga não haverá milionário, e com certeza esses familiares vigiados não estão se divertindo com esta situação.
    A imprensa que sempre lutou pela liberdade de expressão se presta agora a cercear o direito de privacidade dos cidadãos, e não respeita a dor das pessoas. Além de alimentar ódio da população pelas pessoas que estão sendo investigadas pelo caso, mas já foram condenadas pela opinião pública com ajuda da Imprensa e do Poder Público que também quis os seus 15 minutos de fama. Espero que a imprensa e a polícia não repitam o mesmo erro do caso da Escola base. É preciso relembrar sempre!

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