Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

Um espectro ronda a democracia

Por Marcelo Salles em 07/11/2006 na edição 406

O noticiário político nos dias seguintes à reeleição do presidente Lula comprovou a hipótese levantada pelo professor Venício Lima: ‘Nessas eleições, o papel da mídia entrou em debate’. E debater o papel da mídia constitui-se, como sabemos, numa heresia. Sobretudo quando pesquisadores, professores e jornalistas independentes ressaltam a importância da democratização dos meios de comunicação para o bom funcionamento da democracia.

Daí o título do editorial do jornal O Globo de quarta-feira (1/11): ‘Grave ameaça’. Para o diário carioca, o grande perigo que ronda o país ganha repercussão em ‘sites e blogs na internet, por meio de mensagens muitas vezes de identificação suspeita, e em algumas análises sem sustentação em fatos concretos’, maneira pela qual ‘tenta-se relatar a história de uma conspiração fantasiosa’.

Mais à frente:

‘Um indicador preocupante de onde tudo isso pode chegar foi a inaceitável agressão cometida por militantes do PT (…) contra repórteres. Agressão (…) que na verdade atingiu toda a imprensa e o que ela representa em termos de liberdade democrática’.

Na página 14 da mesma edição, o jornal passa da opinião à distorção de informações. No quadro central, em reportagem não-assinada, o subtítulo diz que o ex-ministro Ciro Gomes ‘pede incentivo financeiro para veículos que apóiam o governo’. A matéria, entretanto, cita um trecho da entrevista concedida por Ciro ao blog Conversa Afiada – e reproduzida neste Observatório – no qual está explícito que o ex-ministro não pede verba para veículos que apóiam o governo, e sim para os meios de comunicação alternativos.

Ainda na página 14, outra reportagem não-assinada ecoa as denúncias feitas pela revista Veja: ‘abusos, constrangimentos e ameaças’ a três de seus jornalistas por um delegado da Polícia Federal. A medida, diz o editorial, ‘reproduz uma cena típica da ditadura militar’.

No dia seguinte, quinta (2/11), a página 12 do Globo se ocupa de notas da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) a condenar a intimidação dos jornalistas da Veja. Outra nota da ANJ critica a forma como o governador do Paraná tratou jornalistas em entrevista coletiva. Nota do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro reprova ‘a histeria fascista dos militantes que (…) agrediram os repórteres que cobriam o dia seguinte da vitória de Lula’.

Em resumo, essa foi a maneira como O Globo entrou no debate sobre a mídia. Donde se pode concluir que, para o diário carioca, as vozes discordantes participam de uma conspiração fantasiosa com o objetivo de restringir a liberdade de imprensa e a democracia.

Nenhuma menção

Não importa que a Veja tenha perdido sua credibilidade ao publicar reportagens que ela mesma admite não estarem comprovadas. O Globo continua assumindo a versão da revista como a única verdadeira; seus artigos de opinião sequer admitem que o outro lado (no caso, a PF) possa ter razão. Qual o receio de Veja – endossado pelo Globo? Que seus jornalistas revelem que as reportagens ali publicadas são freqüentemente reescritas até perderem seu contexto original, de modo a agradar os executivos da Editora Abril – situação recentemente explicitada em palestra de Edna Dantas, ex-jornalista da empresa, para estudantes da Universidade Cândido Mendes? Mas, para O Globo, as informações suspeitas e análises sem sustentação são as que vêm de blogs e sites da internet…

Cabem ainda outras perguntas para a direção do Globo, como: por que distorcer a entrevista de Ciro Gomes? Terá sido mera desatenção do redator escrever ‘veículos que apóiem o governo’ em lugar de ‘meios de comunicação alternativos’? Quando dizem que o interrogatório da PF ‘reproduz uma cena típica da ditadura militar’ é um elogio ou uma crítica? (A interpretação fica prejudicada porque o jornal se refere a um regime que apoiou entusiasticamente). Por que não explicar aos leitores a cobertura tendenciosa da mídia paranaense, em vez de apenas criticar a posição do governador Roberto Requião? Será pelo mesmo motivo que condenam os homens-bomba palestinos sem explicar por que eles se tornam homens-bomba?

 O Globo afirma que o entrevero entre militantes petistas e repórteres configura ‘agressão (…) que na verdade atingiu toda a imprensa e o que ela representa em termos de liberdade democrática’, mas não publicou uma linha sobre o assassinato de Brad Will e a prisão de Erin Siegal, jornalistas do Centro de Mídia Independente de Nova York. Nem a Sociedade Interamericana de Imprensa divulgou nota a respeito. Por quê?

Afinação ideológica 

O diretor-executivo de Jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, talvez possa ajudar nas respostas. Em artigo publicado no diário carioca, na terça-feira (31/10), ele avisa:

‘Embora os atores políticos permaneçam racionais (ninguém rasga dinheiro), eles tentam pôr a sociedade para girar no compasso da irracionalidade. (…) A internet facilitou isso à exasperação, com a proliferação de blogs cujo compromisso ético com a informação é nenhum’.

Kamel, que não aceitou debater publicamente a democratização da mídia brasileira, considera alguns atores políticos perigosos porque tentam causar um surto de irracionalidade na sociedade. Mas é claro que políticos hereges sempre existiram. A grande diferença é que hoje suas vozes se fazem ouvir independentemente da vontade dos donos da mídia grande. Por isso – e só por isso – Kamel entrou no assunto. Já não podia ignorá-lo.

A pequena democratização da informação que ocorre hoje graças à internet e a jornais e revistas independentes poderá engendrar uma democratização mais ampla, que desemboque numa reestruturação das concessões públicas de radiodifusão e garanta a pluralidade no controle desses veículos de comunicação. Com o advento da TV digital, por exemplo, torna-se possível a existência de pelo menos 252 emissoras abertas. Um cenário de ‘liberdade democrática’ muito mais amplo do que o de hoje, onde seis emissoras ideologicamente afinadas falam o que querem e como querem para 190 milhões de pessoas.

Eis o espectro que ronda a democracia no imaginário global.

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Editor do fazendomedia.com

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