Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Um ‘fenômeno de massa’: estratégias narrativas e relações contratuais

Por Thales Vilela Lelo em 07/07/2009 na edição 545

Partindo dos conceitos de ‘sociedade de massa’ e ‘fenômeno de massa’, a intenção deste trabalho é analisar de forma sintética o programa CQC (Custe o que Custar), da emissora de televisão Band, desenvolvendo as idéias de relações contratuais, buscando compreender qual é o público espectador, o motivo de determinado programa estar na grade de programação da emissora e o porquê de se manter nela. O artigo usado para explorar o tema será ‘Eles estão à solta, mas nós estamos correndo atrás. Jornalismo e entretenimento no Custe o que Custar’, das doutoras em Comunicação e Cultura pela UFBA Juliana Freire Gutman e Itania Maria Mota Gomes, e do graduando em Comunicação pela UFBA Thiago E. F. dos Santos.

O programa semanal CQC estreou na grade da TV Bandeirantes em 17 de março de 2008 e é exibido às segundas-feiras a partir das 22h15, sendo apresentado pelo jornalista Marcelo Tas, que divide bancada com os apresentadores Marco Luque e Rafinha Bastos. O programa, com censura para menores de 12 anos, em pouco tempo de exibição já havia dobrado a audiência da Band nas noites de segunda, com seis pontos de média no Ibope e pico de oito, ficando em terceiro lugar no Ibope da Grande São Paulo e em segundo na própria emissora, empatado com o Jornal do Brasil. O programa também já ganhou o Troféu Imprensa na Categoria ‘Melhor Programa Humorístico’ de 2008, desbancando o programa Pânico na TV, que havia recebido o prêmio em 2004, 2006 e 2008 (em 2005 não houve premiação).

Elementos da cultura pop

As relações contratuais são marcas presentes na fundação do programa e em seus oito apresentadores. Marcelo Tas é o mediador e líder do grupo; é ele quem toma as últimas decisões, faz as chamadas de comerciais e de abertura de quadros e tem a câmera enquadrada em qualquer situação, além de passar grande parte da noção de credibilidade jornalística ao CQC. Os apresentadores Marco Luque e Rafinha Bastos são contratados do programa que exercem funções mais características ao entretenimento e responsabilidade social, usando de artifícios da comédia stand-up, da qual são precursores, para dar um tom humorístico ao programa. Ambos estão na bancada junto com Tas, mas seus enquadramentos de câmera são desfocados e sujos. Danilo Gentili é publicitário e trabalhou também com comédia stand-up, Oscar Filho é reconhecido por seus trabalhos em espetáculos teatrais, Rafael Cortez é jornalista, compositor e ator, enquanto Felipe Andreoli é especializado em programas esportivos. Ainda há a presença do oitavo elemento que se identifica como especialista em marketing político, Warley Santana, que atua no quadro ‘Em Foco’.

O CQC recorre a estratégias humorísticas para construir relatos sobre acontecimentos no campo cultural, econômico e, principalmente, político. Entre as principais marcas do programa estão as reportagens performáticas, o jogo de sentidos criado por manipulações videográficas, o modo irônico como discute os fatos cobertos pela grande imprensa, a sátira feita a personalidades públicas e a paródia das produções e processos televisivos, num jogo de permanente intertextualidade. Logo na abertura, a atmosfera de segredo, conspiração, suspense e aventura, própria do cinema hollywoodiano, é reproduzida em inúmeras vinhetas do programa. Em uma referência explícita ao filme MIB, Homens de Preto, os apresentadores se valem de dois objetos icônicos centrais do longa-metragem: o terno preto e os óculos escuros. Outras referências a elementos da cultura pop, como os filmes Missão Impossível, Arquivo X e o super-herói Batman são explicitados em diversos momentos, com intenção de provocar o efeito de ‘guardião do mundo’ e ‘revelador do lado oculto da notícia’, próprio do campo jornalístico.

Uma opção ‘menos engessada’

A marca do programa, uma mosca, também produz a metáfora para o repórter que bisbilhota tudo, que não tem medo de ir atrás de autoridades, celebridades e afins para trazer as notícias ‘mais quentes’ para a população e, segundo o próprio apresentador, ‘perguntar aquilo que o povo quer saber’, em uma referência à idéia de responsabilidade social, ou mais especificamente à noção de ‘cão de guarda’, também própria do campo jornalístico.

Talvez esse misto entre entretenimento e jornalismo seja a marca principal da audiência do programa. O próprio CQC tece inúmeras críticas ao jornalismo ‘de referência’, sendo uma espécie de metanarrativa crítica sobre o jornalismo brasileiro. Seja através da aparição de jornalistas em situações engraçadas, como no quadro ‘Top Five’, ou mesmo em sátiras, como os quadros ‘Repórter Inexperiente’ e ‘Repórter Egocêntrico’, a crítica ao jornalismo tradicional é constante, reafirmando que o programa usa do entretenimento para atingir valores que o jornalismo tradicional ‘deixa passar em branco’. A tentativa de se estabelecer como um viés do jornalismo convencional, ainda que não se afastasse de premissas básicas do jornalismo como instituição (objetividade, imparcialidade, verdade, relevância, pertinência, factualidade, interesse público, responsabilidade social, liberdade de expressão, atualidade ou quarto poder, entre outros), garante ao telespectador uma opção ‘menos engessada’ e padronizada de abordagens para construção de quadros e notícias, bem como a valorização da narrativa em contraposição ao excesso informativo, aspecto esse abordado por Walter Benjamin em seu livro Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura.

O lado avesso da notícia

A informação só tem valor no momento em que é nova. Ela só vive nesse momento, precisa entregar-se inteiramente a ele e, sem perda de tempo, tem que se explicar nele. Muito diferente é a narrativa. Ela não se entrega. Ela conserva suas forças e, depois de muito tempo, ainda é capaz de se desenvolver.

Hipoteticamente, o público interessado no CQC e o motivo pelo mesmo se manter no ar é pelo fato de buscar uma articulação entre jornalismo e entretenimento, sem que este jornalismo abandone suas premissas básicas como instituição e ainda utilizando estas premissas para ir além do que o jornalismo convencional exibe, ‘correndo atrás’ do lado avesso da notícia e perguntando a autoridades e celebridades aquilo que o povo ‘realmente’ quer saber, mas, ao mesmo tempo, dando espaço para uma narrativa com tom humorístico, sem os aspectos exageradamente ‘sérios’ e atados somente à informação do jornalismo tradicional.

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Graduando em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, MG

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