Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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JORNAL DE DEBATES > JORNALISMO E PUBLICIDADE

Um sólido casamento

Por Leila Cunha em 01/02/2005 na edição 314

Certo dia ouvi de um amigo, professor universitário da área de marketing e propaganda que atua em São Paulo, um insight que teve sobre o jornalismo e a publicidade. A seu ver, há um acordo implícito: ele vende a má notícia, ela, o alívio da tensão.

Após um ano longe das redações, às voltas com uma renovadora crise profissional, sinto vontade de desenvolver a idéia. Diria que, mais do que um acordo, parece um casamento. Daqueles bem sólidos, com décadas de existência. E, claro, com direito a briguinhas diárias, por espaço e interesses.

Tsunami na Ásia, guerras no Golfo, Bush em novo mandato, bombas o ano inteiro em Israel, tráfico no Rio, seqüestros, assassinatos em São Paulo, fome-miséria-subdesenvolvimento no Nordeste… Que melhor remédio para tanto mal-estar nas páginas e telinhas do que umas comprinhas no shopping, uma visitinha ao site de fofocas, ou o encontro marcado todas as noites com a telenovela?

Nada contra o papel da publicidade e do entretenimento orquestrado pela mídia. Nem tampouco contra a publicação de fatos, por mais terríveis que sejam. Mas há excessos. E excessos trazem lacunas.

Deus-nos-acuda ou faz-de-conta

A ênfase diária na publicação da tragédia, da denúncia, da violência, descontextualizadas de suas causas e possíveis soluções, traz uma banalização da dor e do negativo, ou mesmo uma sensação de desamparo e desânimo que servem muito bem aos que lucram pelas vias do escapismo. Que venham os BBBs, a avalanche de celebridades instantâneas e, claro, nossos comerciais, por favor!

E o espetáculo da passividade ganha fogos de artifício. A mídia chama e encanta olhos e ouvidos: ‘Não perca o capítulo inédito!’, ‘Hoje tem paredão’, ‘Já acessou o site?’, ‘Saiba, leia, compre…’. E subliminarmente, cochicha: ‘Relaxe… Você nem precisa ter o trabalho de viver, sentir, mudar de vida. Basta assistir, espiar a dos outros. Afinal, é sempre tão mais interessante que a sua…’

Dia após dia, a dupla mais que dinâmica jornalismo-publicidade (sem jamais assumir o casamento) crava fundo seus cetros nas mentes, sedentas de informação e salvação. A parceria é perfeita: ele choca, ela anestesia; ele dá tapas, ela alisa; ele aterroriza, ela salva; ele denuncia, ela maquia; ele produz a ruga, ela oferece o botox… E o idílio recomeça sempre no dia seguinte.

Afinal, onde está a verdade? No Deus-nos-acuda jornalístico ou no faz-de-conta publicitário? A meio caminho, ou fora dele? Existe vida inteligente sem mídia? Ser ou não ser alienado? O que significa alienação num mundo tão sobrecarregado de palavras e imagens?

Jornalismo sem otimismo

Claro que há ótimos exemplos de ambos os lados. Falo dos excessos, não das exceções.

Quem se dispuser a olhar mais a fundo, em ir na sensação mesmo, vai perceber muita raiva, revolta, depressão, angústia por trás das palavras de muitos repórteres, colunistas e articulistas. Até mesmo nos textos ditos ‘neutros’, não opinativos. São pobres de análises multifacetadas, que levem em conta não só os dois lados, mas o terceiro, o quarto…

‘É tanta notícia ruim e tão pouco espaço. E sem anúncio não tem jornal!’, justificam os editores. ‘Quer uma visão edificante, minha filha? Então vá para os suplementos de saúde e equilíbrio, família, turismo, esoterismo…’.

Infelizmente, nem aí. Muitos são terrenos de ação ideais para publicitários e assessores de imprensa.

Finalmente, a que ou a quem serve um jornalismo sem otimismo? Que adora reclamar, ironizar, apontar erros, criticar mas que tão pouco constrói? Que, mesmo sem querer, acaba assim empurrando boa parte de seus leitores para o mundo encantado dos anunciantes?

E por falar em mundo… onde está a paz, hein, colegas?

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Jornalista no Recife

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