Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > DIREITOS FEMININOS

Um tabu na imprensa

Por Ligia Martins de Almeida em 15/02/2005 na edição 316

‘Um terço das 58 milhões de mulheres em idade fértil não tem acesso à contracepção. As mães com nível universitário têm em média 1,4 filho, enquanto as analfabetas têm 4,4. Mulheres que vivem em domicílios com renda per capita acima de cinco salários-mínimos têm em média 1,1 filho (menos do que na Dinamarca), enquanto nas casas em que a renda é de até um quarto do salário-mínimo esse número aumenta para 4,6 (como na Namíbia). A proporção de bebês nascidos de mães com menos de 20 anos ultrapassa os 25% nos Estados mais pobres.’

Esses dados fazem parte de um artigo do médico Draúzio Varella, publicado pelo UOL em pleno Carnaval, um péssimo momento para divulgar idéias. Quem vai lembrar, depois da empolgação com as fotos de desfile e com o resultado dos vencedores, de um problema tão sério como o direito da mulher a escolher o número de filhos que quer criar?

Como as revistas femininas e mesmo os jornais dificilmente falam do assunto, fui pesquisar na internet. Fiquei animada com o número de páginas que o mecanismo de pesquisa anunciava: 5.500. E fui atrás. Cheguei a ter esperanças de que o Dr. Draúzio tivesse cometido um erro ao dizer que o assunto precisa ser divulgado.

Encontrei alguns sites sobre o assunto: um religioso, um de laboratório farmacêutico e um feminista, contando a luta das mulheres pelo direito à contracepção.

E os outros milhares de sites anunciados, do que tratam? Do controle da natalidade de cães e gatos. Sites bem-feitos, que explicam a vantagem da castração e sobre o que é ser um dono de animal responsável.

Como não há implicações morais nem religiosas, o debate se resume ao bem-estar das pessoas no convívio com animais.

Quando se trata do bem-estar da mulher e das crianças que ela vai gerar – por escolha ou não – o assunto vira tabu. Como diz o Draúzio Varella:

Graças a interesses que convergiram a partir da década de 60, quando as pílulas anticoncepcionais entraram no mercado, formou-se no Brasil uma aliança esdrúxula contra o planejamento familiar, capaz de agregar militares, comunistas e a Igreja Católica. Os militares, então no poder, eram contra por acreditarem piamente que precisávamos de mais brasileiros para ocupar a Amazônia e o Centro-Oeste; os comunistas, pelas mesmas palavras de ordem defendidas até hoje por um dos líderes do MST: façam filhos, eles conhecerão o socialismo! E a Igreja Católica, pelas mesmas razões que a levam a cometer o crime de condenar o uso de preservativo na prevenção à Aids.

A pergunta é: o que pensam as mulheres? Isso dificilmente saberemos, uma vez que a imprensa, que deveria levantar o assunto, raramente gasta espaço com o tema.

Retorno difícil

As revistas femininas, uma vez ou outra, discutem métodos anticoncepcionais, mostrando as opções existentes. Mas, em geral, quando falam de sexo preferem ensinar novas formas de obter prazer, com a certeza de que as leitoras, uma vez que podem pagar pelas revistas, certamente têm dinheiro para consultar o médico, decidir o tipo de prevenção que querem usar e se querem ter um, dois ou 10 filhos. Podem até falar da gravidez entre adolescentes, mas sempre do ponto de vista dos efeitos emocionais. O assunto passa pela pauta como se, ao dar uma matéria por década, as revistas tivessem cumprido seu papel.

Os jornais raramente falam do assunto, e a TV, a grande fonte de informação – e formação – das camadas mais pobres, não vai ficar comprando briga com anunciantes, com a Igreja e com todo mundo que é contra o planejamento familiar.

‘É preciso popularizar os métodos de contracepção nas escolas, nas associações de moradores, nas empresas, em nossas casas, nas unidades que prestam assistência à saúde e, principalmente, através dos meios de comunicação de massa.’ Ao fazer este pedido, Draúzio Varella talvez nem saiba como vai ser difícil obter um retorno. O tema é polêmico, ganha conotações religiosas e morais e, cá entre nós, não dá ibope nem vende anúncio, a não ser, é claro, o dos laboratórios. Muito pouco, dentro do universo financeiro das revistas especializadas, para correr o risco de ofender outros anunciantes. Além disso, é um tema que interessa direta, embora não exclusivamente, às mulheres. Principalmente às mais pobres.

Mundo ideal

E, como direitos femininos dificilmente estão na ordem do dia da TV ou dos jornais, vai ser difícil uma mobilização para mostrar que o acesso aos métodos anticoncepcionais, mais do que uma opção religiosa ou política, é um direito das mulheres.

Mas, qualquer campanha de divulgação vai acabar caindo no vazio se não houver uma grande conscientização, começando pela imprensa.

Em princípio, as camadas marginalizadas não têm nem acesso à televisão. E, se têm, acabam vendo um mundo ideal onde até a pobreza é romantizada. Cabe à imprensa abrir o debate. Se a imprensa fizer o seu papel e conseguir sensibilizar os autores de novela (o grande veículo da unidade nacional), logo o controle da natalidade deixa de ser um tabu, entra nas conversas do dia-a-dia e vai ser tratado com a seriedade que merece. Se a imprensa mostrar que controle da natalidade é um problema de toda a sociedade, talvez as mulheres mais necessitadas – as mais pobres, e, portanto, sem acesso à informação – vão acabar descobrindo que têm uma saída para o círculo vicioso da gravidez indesejada, falta de trabalho e miséria.

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Jornalista

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