Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > SEXTA-FEIRA, 23/11

Um terço dos senadores tem empresas de comunicação

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 23/11/2007 na edição 460

Leia abaixo a seleção de sexta-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Sexta-feira, 23 de novembro de 2007


CONCESSÕES
Andrea Vianna


23 senadores aparecem como sócios de emissoras de rádio e TV


‘A aproximação do julgamento do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que está licenciado da presidência do Senado e poderá ter o mandato cassado por acusação de usar laranjas na compra de duas rádios em Alagoas, reacende a discussão sobre a proibição a parlamentares de obter e manter concessões de emissoras de rádio e TV. Dos 81 senadores, 23 deles – quase um terço do total – aparecem como proprietários de empresas do gênero.


Entre esses 23 parlamentares, uma pesquisa do Estado no Sistema de Acompanhamento de Controle Societário (Siacco), do Ministério das Comunicações, mostra que pelo menos 17 têm parentes na sociedade e na direção do negócio – filhos, irmãos, mulheres ou ex-mulheres, entre outros.


Entregar a parentes o comando das emissoras, tal como fez Renan, mesmo quando a transferência não passa de mera formalidade, é a maneira como os senadores driblam o artigo 54 da Constituição e o artigo 4º do Código de Ética do Senado. É uma forma, como explica o ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), de o parlamentar ‘fazer de conta’ que não manda no veículo de comunicação.


No caso Renan, o relatório do senador Jefferson Péres (PDT-AM), aprovado pelo Conselho de Ética por 11 votos a 3, mostra que, depois de ter montado uma sociedade oculta com o usineiro João Lyra, o presidente licenciado do Senado entregou o Sistema Costa Dourada de Radiodifusão Ltda. ao filho José Renan Vasconcelos Calheiros Filho.


RECADASTRAMENTO


Como o ministério só começou o recadastramento de todas as emissoras em agosto, o Estado checou os dados do Siacco e constatou que o senador João Raimundo Colombo (DEM-SC) e a ex-mulher, Maria Angélica Ribeiro Colombo, são os únicos que formalizaram a baixa de sócios-proprietários. Antes, eles apareciam nos registros como donos da Rádio Araucária AM, de Lages (SC).


O senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), mesmo não sendo formalmente proprietário da Inter TV, antiga Televisão Cabugi Ltda., tem várias gerações de familiares no comando da influente emissora, que é repetidora da Globo no Rio Grande do Norte.


A quantidade de senadores donos de veículos de comunicação é um dos trunfos de Renan para tentar ser absolvido em plenário. A sessão estava inicialmente prevista para ontem, mas um impasse entre governo e oposição, envolvendo a votação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) adiou o julgamento.


‘A discussão é necessária não apenas pelo aspecto da moralidade, mas pelo pragmatismo. Os senadores influenciam os meios de comunicação e ganham privilégios na disputa eleitoral em desfavor dos adversários não concessionários’, avalia Péres. ‘Não importa se proprietário ou gestor, a emissora coloca o político em situação de privilégio’, concluiu.


Marco Aurélio diz que a norma constitucional, ao contrário do futebol, não aceita drible. Para ele, o artigo 54 da Constituição busca evitar que deputados ou senadores se beneficiem dos cargos políticos para obter contratos com a administração pública, como as concessões de rádio e TV. ‘Mas não é o que ocorre’, admite. ‘Alguns usam interpostas pessoas em seu nome e a questão acaba no campo do faz-de-conta. Faz-de-conta que não tenho nada com isso. Colocam uma pessoa próxima, de sua confiança, um familiar, para ocultar a relação com o veículo. Só ingênuo aceita essa realidade.’


O líder do PSB, senador Renato Casagrande (ES), diz que o Congresso precisa discutir essas ‘inconstitucionalidades’ e sugere que familiares de deputados e senadores sejam proibidos de participar da sociedade de emissoras de rádio e TV.


O professor Dalmo Dallari, emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), lembra que o objetivo do artigo 54 da Constituição era justamente impedir a influência do parlamentar sobre os meios de comunicação. ‘Ao controlá-los, eles ditam a pauta e podem mesmo ocultar o que não é do consentimento do seu grupo político. A regra é indispensável para garantir a autenticidade do processo democrático’, afirma o jurista.


O artigo 54 deixa bem claro que deputados e senadores, depois de empossados, não podem ser ‘proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada’. O descumprimento da regra implica, de acordo com o artigo 55, ‘perda do mandato’.


O Código de Ética do Senado proíbe os senadores, no artigo 4º, de ‘dirigir ou gerir empresas, órgãos e meios de comunicação’, assim considerados aqueles que executem serviços de rádio e televisão.


Péres recorreu ao dispositivo no parecer em que considerou quebra de decoro não apenas o expediente utilizado por Renan – o uso de laranjas -, mas também a propriedade de emissoras de radiodifusão.


PEDIDO ENCALHADO


A teoria jurídica, a Constituição e o Código de Ética do Senado funcionam, na prática, de outro jeito.


O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) já havia tentado levar a discussão ao plenário desde que a polêmica sobre os parlamentares proprietários de meios de comunicação foi levantada, em reportagem do Estado, em julho do ano passado. A disposição, porém, esfriou graças à falta de interesse dos senadores em discutir assunto tão arraigado nos hábitos e costumes do Congresso.


Por meio de um requerimento, Suplicy solicitou ao presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, há um ano e meio, que o colegiado discutisse e fizesse uma interpretação ‘teleológica’ do artigo 54 da Constituição. Ele queria que os senadores indicassem, com clareza, o espírito da norma quanto à proibição imposta aos parlamentares.


‘Com o julgamento próximo do senador Renan, o debate cresceu. Renan pode ser punido, neste caso, por algo que até que ponto outros colegas não fazem?’, questiona o parlamentar petista.


O requerimento de Suplicy para fazer avançar a discussão sobre o tema estacionou na comissão. Ainda falta o senador Marco Maciel (DEM-PE), presidente da CCJ, designar um relator para a matéria – demanda que está pendente desde o dia 6 de julho de 2006.


FRASES


Jefferson Péres


Senador (PDT-AM)


‘Não importa se proprietário ou gestor, a emissora coloca o político em situação de privilégio’


Marco Aurélio Mello


Ministro do STF


‘Colocam uma pessoa próxima, de sua confiança, para ocultar a relação com o veículo. Só ingênuo aceita essa realidade’


Eduardo Suplicy


Senador (PT-SP)


‘Com o julgamento próximo do senador Renan, o debate cresceu. Renan pode ser punido, neste caso, por algo que até que ponto outros colegas não fazem?’


Dalmo Dallari


Professor da Faculdade de Direito da USP


‘Eles podem mesmo ocultar o que não é do consentimento do seu grupo político’’


 


Políticos mais antigos têm os maiores grupos


‘Os senadores com mais tempo de política são, em geral, os que têm as maiores empresas de comunicação. Dois dos maiores grupos do Nordeste, por exemplo, pertencem a José Sarney (PMDB-AP), que está na política há 52 anos, 16 deles no Senado, e a Edison Lobão (PMDB-MA), que completa neste ano duas décadas de Casa.


O Grupo Gazeta, de Alagoas, é da família do senador Fernando Collor (PTB), que foi presidente de 1990 a 1992. Collor está licenciado, mas deixou sua vaga para o primo Euclydes Mello (PRB), que era diretor-presidente do Grupo Gazeta.


O senador tucano João Tenório (AL), amigo dos Collor e do presidente licenciado da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), já foi sócio no Grupo Gazeta e hoje é dono do Grupo Pajuçara, que tem uma retransmissora da TV Record e duas rádios, em Maceió e Arapiraca. ‘Tenho só 10% na sociedade’, diz.


A líder do governo no Congresso, senadora Roseana Sarney (PMDB-MA), é sócia-proprietária da Rádio e TV Mirante. Por meio de sua assessoria, ela avisou que nunca exerceu cargo de direção e não ‘tem nada a ver com os demais negócios de comunicação (da família) no interior do Estado’.


‘COISA INÚTIL’


Lobão disse que não é mais dono da Rádio Guajajara de Barra do Corda. ‘Não valia nada, era uma coisa inútil, econômica e financeiramente. Só dava prejuízo, e eu vendi há uns dez anos. Nem consta mais do meu Imposto de Renda.’ A rádio foi vendida para Edison Lobão Filho. O senador também insistiu em que não tem ‘nenhuma relação’ com a emissora de TV, a Difusora do Maranhão. ‘Nunca foi minha, é só do meu filho.’


A maioria dos senadores ouvidos pelo Estado desdenha do valor do negócio e do poder de comunicação de suas rádios e TVs. Eles dizem que são empresas herdadas de parentes – também políticos -, alegam que nunca as dirigiram e contam que está tudo entregue a familiares. Não mencionam que, na maioria dos casos, foram brindados pelo Executivo com a distribuição de rádios e TVs porque eram senadores ou deputados.


José Agripino Maia (DEM-RN) diz ganhou suas rádios e TV de ‘herança’. Ele aparece como sócio de uma rádio de Currais Novos e outra de Mossoró, além da TV e Rádio FM Tropical Comunicação, retransmissora da Record, em Natal.


Jayme Campos (MT), secretário-geral do DEM e ex-governador, não figura na relação do Ministério das Comunicações como sócio da Rádio Industrial de Várzea Grande, mas na declaração de bens entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) constam 500 cotas do capital social da emissora.


A rádio está em nome do irmão, o ex-senador e conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso Júlio José de Campos. Tanto Jayme como o irmão foram prefeitos de Várzea Grande.’


 


Senadores negam irregularidade


‘O senador Mão Santa (PMDB-PI) disse por meio de sua assessoria que, apesar de ser sócio da Rádio Igaraçu e ter o filho na diretoria, a empresa ‘é um bem da família, fruto da divisão com os parentes, uma concessão antiga’. Ele garantiu que nunca se envolveu na sua direção e ‘o filho é quem toca o negócio’.


Maria do Carmo (DEM-SE) admite que foi sócia da rádio de Propriá e continua sócia-proprietária da TV Aracaju. Mas sua assessoria informou que ela ‘se desligou de todas as atividades empresariais’ na TV desde o primeiro mandato, em 1999. A rádio, acrescentou, foi vendida e não pertence mais à família.


O senador Euclydes Mello (PRB-AL) disse que cumpriu a lei e se afastou da direção do Grupo Gazeta em 2002, quando entrou para a política.


O império de comunicação do senador Antonio Carlos Magalhães, morto este ano, não tem mais no comando o filho, ACM Júnior (DEM-BA), ainda que ele continue como sócio-proprietário. ‘Saí em 2001 da direção’, disse. César Borges (PR-BA) informou que em 2003 e 2000 se desligou da direção das Rádios Rio Novo e Aimoré.


Efraim Morais (DEM-PB), segundo sua assessoria, adquiriu a Rádio Vale do Sabugy ‘antes de ser parlamentar’ . Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) aparece entre os cotistas da Inter TV, mas disse que ‘nunca foi sócio’ e o negócio foi vendido ao empresário Fernando Carvalho.


Romero Jucá (PMDB-RR) vendeu a participação na Serra Negra Radiodifusão de Pernambuco, que adquirira ‘quando fazia política naquele Estado’, nos anos 80, e disse, por sua assessoria, que a TV Caburaí (RR) não é dele, mas do filho Rodrigo de Holanda Jucá.


Tasso Jereissati (PSDB-CE) confirmou ser dono da Rádio e TV Jangadeiro, mas disse que ‘nunca teve função executiva’ nelas. A assessora de Wellington Salgado (PMDB-MG) informou que ‘ele se desligou da direção de todos negócios quando entrou para a política’.


Tomaram a mesma providência, segundo assessores, João Vicente Claudino (PI) e Mozarildo Cavalcanti (RR), do PTB, Jayme Campos (DEM-MT) e os peemedebistas Neuto de Conto (SC), Renan Calheiros (AL), José Maranhão (PB) e Gilvan Borges (AP). Raimundo Colombo (DEM-SC) foi sócio da Rádio Araucária até dezembro de 2005. Sua ex-mulher, Maria Angélica Ribeiro Colombo, deixou a rádio este ano.’


 


CELEBRIDADES
Valéria França


Liz Hurley: tietagem e 15 minutos para fotos


‘‘Não é para chamá-la de Liz e, sim, de Elizabeth Hurley’, avisa um dos assessores da atriz inglesa que esteve ontem em São Paulo para lançar sua coleção de moda praia no Brasil. O palco escolhido foi a Daslu, na Vila Olímpia, zona sul da capital, que organizou um coquetel fechado para as clientes no fim da tarde.


Muitas estavam lá só para ver a ex-namorada de Hugh Grant. ‘Venho a todos os eventos da loja, não poderia perder justamente este’, disse Marcia Maria Abujamra Nader, cliente assídua da casa, que estava acompanhada da mãe. ‘Uma de minhas filhas até chegou perto dela’, comemorou Lucita Vilela Machado, farmacêutica, que acaba de se mudar do interior de São Paulo para a capital. ‘Ela não disse nada, mas é linda’, completou a filha Carolina, de 13 anos.


Quebrando expectativas das convidadas, a bela não deu muita chance para tietagem. Surgiu no meio do salão para fotos, linda e sorridente, por apenas 15 minutos. Posou com a proprietária da casa, Eliana Tranchesi, e seu braço direito, Donata Meirelles, e, depois, com suas roupas de verão. Mas não abriu a boca. A maior parte do tempo ficou escondida atrás de dois assessores, numa salinha ao lado do bar. De vez em quando, dava algumas espiadelas.


Liz vestia roupas de sua grife: calça branca e túnica de crepe de seda de oncinha com decote em V, arrematado com galão prateado. Em estampas diferentes ou em tecido liso, a túnica é um modelo muito usado na coleção da atriz como saída de praia, mas sempre com acabamentos requintados. Os biquínis seguem a tradição européia – com calcinhas grandes, apesar de finas nas laterais. O preço é salgado: R$ 1.200 em média.’


 


Mireya Navarro


Los Angeles: agora até paparazzi cover perseguem artistas


‘NEW YORK TIMES – Na semana passada, numa tarde de caça escassa na Robertson Boulevard, em Los Angeles, um pequeno grupo de paparazzi se juntou em frente de um restaurante para fotografar Phoebe Price. Enquanto a pouco conhecida atriz posava na calçada como se pisasse num tapete vermelho, o grupo por trás das câmeras compôs uma foto mais interessante – incluiu vários fotógrafos de agências fotográficas, um cozinheiro espanhol ocasional e um turista do norte da Califórnia que se postou na frente do grupo disparando fotos com uma câmera descartável.


Pouco depois da saída de Phoebe Price, um outro turno de fotógrafos profissionais e amadores percorria a rua. Entre eles, Claudia Leverett, universitária de 32 anos que se transformou em paparazzo ocasional ao fotografar em julho, por acaso, Dustin Hoofman saindo do restaurante Ivy, enquanto Kimberly Stewart – filha de Rod Stewart, modelo e atriz de TV – entrava. ‘Ganhei US$ 780 por 13 fotos que tirei em menos de dez minutos.’


A demanda por fotos de famosos tem resultado num crescimento explosivo no número dos perseguidores de famosos. Cada vez mais, o termo paparazzi abrange, além de fotógrafos, um adolescente com uma câmera na mão, um oportunista com telefone celular e até o garçom, que antes apenas dava dicas.


Essa mistura tem intensificado uma atmosfera já agressiva e alterado o ambiente tanto dos paparazzi predadores como de suas presas – as celebridades. ‘Os famosos não se sentem nem um pouco seguros’, diz William Hodgman, da promotoria de Los Angeles.’


 


CINEMA
Luiz Carlos Merten


A volta de Jesse James, num western fúnebre


‘Em 1939, um ano mítico de Hollywood, quando foram produzidos clássicos como No Tempo das Diligências, …E o Vento Levou e O Mágico de Oz, Henry King realizou sua célebre biografia de Jesse James, esculpindo a persona do bandido que, como Robin Hood, roubava dos ricos para dar aos pobres e mantinha a aura de um Sul aristocrático, cujos ideais defendia, a despeito da derrota na Guerra Civil. Jesse James termina com o assassinato do herói pelo covarde Robert Ford. No ano seguinte, Fritz Lang deu seqüência à saga com O Retorno de Frank James e, desde então, o cinema contou a história muitas vezes. Jesse James Contra os Daltons, A Verdadeira História de Jesse James, Jesse James e a Filha de Frankenstein – Hollywood nunca conheceu limites na exploração do mito. Mas nem o grande Nicholas Ray, ao contar a verdadeira história, foi tão denso e profético como o neozelandês Andrew Dominik em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, que estréia hoje.


Tietes e cinéfilos vão cerrar fileiras em torno de Brad Pitt, numa interpretação tão marcante que o júri do recente Festival de Veneza, presidido por Zhang Yimou, não hesitou em lhe atribuir o prêmio de melhor ator do evento – bastante merecido, por sinal, embora o irmão de Ben Affleck, Casey, na pele do assassino covarde, esteja igualmente irrepreensível. A história começa com a solidão do herói diante do próprio mito. Jesse vive nesta pequena cidade o que parece uma existência medíocre. O mito é maior que ele, e Jesse o cultiva. Temeroso de ser morto pelos antigos integrantes do seu bando, ele se antecipa na caçada e tenta eliminá-los. Não é, nem de longe, um herói irretocável – mata, a sangue frio, o sujeito que demora para abrir um cofre, durante um assalto; tortura brutalmente uma criança que, pode-se ver, não possui a informação que ele procura.


Como o título indica, Jesse será morto pelo covarde Robert Ford e a lenda celebrou o frio assassinato, cometido pelas costas. Só que a relação entre ambos é muito mais complicada do que a banal oposição entre o bem e o mal, ou entre o juiz e seu algoz. Jesse é perseguido, e morto, por ser mito. Robert Ford, ao eliminá-lo, busca virar, ele próprio, outro mito que se encarrega de também divulgar, representando, mais de 800 vezes, no teatro, a cena da morte. O que Robert não entende – e é o que faz a riqueza do filme – é como, ao eliminar o bandido, ele desperta o ódio da massa anônima que queria ver Jesse James punido.


Toda a genialidade do filme de Andrew Dominik está na ligação visceral entre Jesse e Ford, entre a celebridade e o fã que termina precisando destruir o objeto de sua adoração para afirmar a própria identidade (e isso vai ocorrer com ele mesmo, como tantas vezes na crônica do ‘Wild West’). Jesse James morreu em 1882, aos 34 anos, numa época em que a civilização começava a dar as cartas no Oeste selvagem e toda uma concepção de mundo passava a mudar. É este ato final que Dominik escolheu filmar, por ver nele uma forma, não de desmistificar o homem maior que a vida, mas de trazer para o presente do século 21 uma discussão que é hoje essencial – a da imagem, numa sociedade que a glorifica.


Por conta dessa reflexão, ele deu ao filme o seu formato particular. Desde os anos 60, o western começou a mudar, graças à visão crepuscular de diretores como Sam Peckinpah, em obras de referência como Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch) e Pat Garrett e Billy the Kid, embora um veterano como John Ford já tivesse iniciado aquela década enterrando a tradição com O Homem Que Matou o Facínora. O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford é lento até quase o limite da exasperação e ainda tem a narrativa em off – recurso quase sempre explicativo, mas que aqui fornece uma espécie de comentário, como o do coro grego, exterior (mas intrínseco) à tragédia. No centro dessa ode fúnebre, estão os atores – Brad Pitt e Casey Affleck. É um raro e grande filme.


Serviço


O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (160 min) – Ação.14 anos. Cotação: Ótimo’


 


CONSCIÊNCIA NEGRA
Francisco Quinteiro Pires


A foto, o banner e a polêmica: será que é o Mario?


‘O consultor de literatura do Museu AfroBrasil, Oswaldo de Camargo, afirmou que, independentemente da autenticidade da foto do escritor Mario de Andrade (1893-1945), estampada em banner da campanha do Dia da Consciência Negra, promovida desde o começo do mês, pelo governo do Estado, ‘o que parece estar incomodando é saber que o Mario de Andrade é afrodescendente’.


A polêmica em torno da veracidade da fotografia usada na campanha veio à tona na última quarta-feira. O retrato controverso foi escolhido, porque ‘ressalta os traços negróides’ do escritor paulista, explica Oswaldo de Camargo. ‘Nunca vi uma fotografia em que a herança africana do Mario ficasse tão evidente’, ele diz.


No dia 7 deste mês, o secretário estadual de Cultura, Carlos Augusto Calil, viu pela primeira vez a fotografia, extraída em 1989 por Oswaldo de Camargo do arquivo do jornal O Estado de S.Paulo, onde trabalhou por quase 40 anos. Os banners já estavam confeccionados no dia 7. Em seguida, Calil procurou a professora de literatura da USP Telê Ancona Lopez, organizadora do acervo do escritor, para comprovar se o fotografado era mesmo o autor de Macunaíma e Contos Novos.


Calil, que tem ‘certeza absoluta de que não é o Mario’, manifesta a vontade de que a autenticidade seja logo comprovada. ‘Me admira que alguém confunda o fotografado com o Mario de Andrade’, ele diz.


Segundo o secretário estadual de Cultura, não faz sentido discutir se o autor de Paulicéia Desvairada é mesmo negro. ‘Discutir em cima de teses e não de constatações é tapar o sol com a peneira’, diz Calil. ‘O fato é que ele tinha traços negros e, se é para discutir isso, tem de ser com base em uma fotografia real’, continua.


Depois de consultar pesquisadores e comparar fotografias no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), na USP, a professora Telê Ancona garante que o retrato não é de Mario de Andrade. ‘Os olhos que aparecem nessa foto são estrábicos, as maçãs do rosto são salientes, as sobrancelhas e as orelhas têm formatos diferentes’, diz Telê. A professora do IEB fala da hipótese de que o retrato seja de Mario Andrada, jogador de futebol contemporâneo ao escritor, que o chama de xará em um dos poemas de Paulicéia Desvairada.


A mesma opinião é compartilhada pelo crítico literário Antonio Candido. ‘Não é o Mario de Andrade, eu o conheci pessoalmente’, ele diz. Para Candido, polêmica é fazer ‘caso com uma coisa sem importância’.


Carlos Augusto de Andrade, sobrinho do escritor, é categórico ao negar a legitimidade do retrato. ‘Não tem nada a ver, aquele tipo de óculos meu tio nunca usou, seu nariz não era adunco e os olhos não são daquele jeito’, ele diz.


O sobrinho do escritor disse que a controvérsia revela ‘uma pisada na bola pelo governo’. ‘É muito esquisito aparecer a foto do bolso de alguém e ser usada numa campanha oficial, quando existem várias fotos de fonte segura. Por que não foram no IEB ou procuraram gente viva que conviveu com o Mario?’, ele questiona.


Ele diz que a ação de ressaltar a matriz africana de Mario de Andrade é uma atitude totalmente irrelevante. ‘Ser negro ou não, tanto no caso do Machado de Assis como do Mario de Andrade, não afeta a genialidade literária dos dois escritores’, ele afirma.


Não é a primeira vez que essa fotografia provoca discussões, lembra Telê Ancona Lopez. Em exposição de 1993, realizada pelo Sesc-SP, para comemorar o centenário de nascimento do musicólogo, ela questionara a autenticidade da fotografia. ‘Desde então, não faz sentido essa foto continuar a circular dessa forma.’


Procurado pelo Estado, o secretário estadual de Cultura, João Sayad, disse que vai procurar o IEB para analisar a autenticidade da fotografia. O banner com a imagem polêmica fica exposto no Centro Cultural São Paulo até o fim deste mês.’


 


TV DIGITAL
Gerusa Marques


Governo tenta baratear conversores


‘O governo voltou a estudar a possibilidade de conceder benefícios fiscais para que o conversor da TV digital, também chamado set top box, possa ser produzido a preços competitivos em todo o País, e não só na Zona Franca de Manaus. A preocupação é garantir que a população possa ter acesso a um conversor barato para usufruir dos benefícios da TV digital, como sinais sem chuviscos e maior qualidade da imagem.


Os ministros que participam do Comitê de Desenvolvimento da TV digital estão empenhados em encontrar uma solução, e essa é uma das opções, informou uma fonte.O governo não descarta a possibilidade de importar conversores, mas, para isso, teria de reduzir impostos de importação.


O governo entende que não dá para aceitar um conversor mais caro que R$ 200. No início do mês, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, chegou a dizer que havia uma campanha ‘insidiosa, na tentativa de evitar que a TV digital seja um sucesso no País’.


Na ocasião, o ministro criticou a indústria de televisores que, segundo ele, colocaria no mercado brasileiro uma caixinha conversora dos sinais digitais a um preço de R$ 700, considerado muito alto. Ele admitiu um preço de até R$ 500 para as caixinhas mais complexas, que permitem algumas funções de internet, como acessar e-mails.


O set top box é usado para converter o sinal digital em analógico, permitindo que o telespectador continue a utilizar o televisor que tem em casa. A caixinha vai promover uma melhora na qualidade de imagem, mas para ter imagem e som com tecnologia digital e em alta definição é preciso que o televisor seja digital. O sinal analógico continuará a ser emitido até 2016.


A idéia de se estender os benefícios fiscais da Zona Franca para todo o País, no caso dos conversores, já foi defendida por Hélio Costa no ano passado. Na época, no entanto, prevaleceu a posição do então ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan, que queria os benefícios restritos a Manaus.


QUEDA


Técnicos do setor avaliam que a extensão dos benefícios poderia baixar pela metade o preço de conversores que vêm sendo produzidos fora da Zona Franca. Na quarta-feira, a Positivo Informática, empresa do Paraná, anunciou que vai fabricar conversores a R$ 499.


O conversor da Positivo é um dos poucos produzidos em Manaus. A empresa contratou a Teikon como fabricante terceirizada e, com o aumento da demanda, planeja transferir a produção para a recém-criada Positivo Informática da Amazônia.


A maioria dos fabricantes decidiu importar o equipamento. Segundo Walter Duran, diretor de Tecnologia da Philips na América Latina, isso explica o preço atual de seu produto. ‘Quando começarmos a produzir em Manaus, no primeiro semestre do ano que vem, o custo deve cair’, disse.


A empresa anunciou um conversor fabricado na China que custa R$ 1.099, com saída digital, no formato HDMI. A Semp Toshiba também lançou dois conversores, que custam R$ 799 e R$ 1.090. O da Gradiente sai por R$ 799 e o da Sony, que só tem saída digital, tem preço de R$ 999. As três empresas estão importando o equipamento.


A TV digital estréia em dezembro, na cidade de São Paulo. Em meados do próximo ano, chegará a Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Nas demais capitais, a previsão é de que o novo sistema seja implantado até o início de 2009.


COLABOROU RENATO CRUZ’


 


Renato Cruz


Conversor de televisão chega primeiro à Rua Santa Ifigênia


‘Paulo Santos, de 36 anos, é um telespectador privilegiado. Desde a quarta-feira da semana passada ele assiste a TV digital aberta brasileira antes mesmo da estréia, marcada para 2 de dezembro. O analista de sistemas comprou seu conversor, também chamado set-top box, na Rua Santa Ifigênia, que concentra lojas de eletrônicos no centro de São Paulo. O grande varejo começa a receber nos próximos dias o conversor de TV digital.


Santos pagou R$ 950 pelo equipamento. A marca é Zinwell, empresa taiwanesa que também fabrica os equipamentos vendidos pela Semp Toshiba. ‘Minha mulher ficou brava de eu ter gastado tudo isso no conversor’, afirmou Santos. ‘Mas depois ela achou fantástica a imagem.’ As emissoras estão em fase de teste, mas já existe bastante coisa no ar. A Rede Globo transmitiu na quarta-feira o jogo da seleção brasileira em alta definição, a partir do Morumbi.


A TV digital tem imagem melhor que a do DVD. A imagem é formada por 480 linhas na televisão analógica, enquanto a de alta definição chega a 1.080 linhas. A TV digital também tem tela mais larga, no formato widescreen, que a TV convencional.


Antes de comprar o equipamento, na quarta, o analista de sistemas havia visitado a Santa Ifigênia no sábado. Não encontrou o conversor, mas deixou encomendado. Quando a loja recebeu o conversor, durante a semana, ligou para ele, avisando-o para ir buscar.


‘O equipamento é superbom’, disse Santos. Ele ligou o conversor numa televisão de 40 polegadas, com tela de cristal líquido, da Sony. O modelo dele, que não é tão novo, não tem entrada digital, chamada de HDMI. Ele usou um cabo de alta definição, mas analógico, conhecido como vídeo componente.


Santos consegue assistir às novelas Duas Caras, da Globo, e Dance Dance Dance, da Bandeirantes, em alta definição, mesmo durante os testes. A última Tela Quente, da Globo, foi transmitida em alta definição e com duas opções de áudio: dublado em português e original em inglês. ‘Não tinha legendas’, disse o analista de sistemas.


‘Agora ficou ruim ver a TV normal’, disse Santos. Ele disse que o contraste é grande quando assiste aos programas que estão em definição normal. O analista de sistemas é assinante da TVA que, apesar de digital, não tem os canais abertos em alta definição.


A empresa de TV paga espera oferecer conversores de alta definição para seus clientes a partir de janeiro. Quem comprou as caixas de alta definição da TVA na promoção da Copa do Mundo terá o equipamento trocado sem custos. A empresa vai adotar uma plataforma tecnológica nova.


Santos não se considera um consumidor ávido de novidades de tecnológica. ‘O videogame aqui de casa ainda é o Playstation 2’, afirmou. A versão mais nova do jogo eletrônico já é a três. Ele ligou o conversor na antena UHF coletiva do prédio. ‘Sei que o preço vai cair, mas valeu a pena.’’


 


TELEVISÃO
Keila Jimenez


Mais Você derrapa: Atração tenta de tudo para salvar ibope


‘A coisa não anda fácil para o Mais Você. Mesmo com as reformulações e a chegada de um novo diretor, o Boninho, o programa não conseguiu melhorar sua audiência. Anteontem, a atração de Ana Maria Braga perdeu em audiência para o Fala Brasil da Record, por 9 pontos de ibope, ante 6 pontos da Globo. O horário do embate foi das 7h55 às 8h50, segundo medição na Grande São Paulo.


A atração também havia derrapado em audiência na terça-feira. O mesmo Fala Brasil registrou 8 pontos de média, ante 6 pontos da Globo no horário.


E olha que o Mais Você anda atirando para todos os lados atrás de ibope. Na quarta-feira, chocou muita gente levando ao ar uma dançarina de pole dance (dança do poste) com pouca roupa, em cena que mais lembrava um strip-tease. Ontem apostou em um bate-papo com Galvão Bueno – que comeu às 8 horas da manhã um casadinho de berinjela – e num debate acalorado sobre os limites que os pais devem impor aos jovens.


Detalhe curioso: na Record, no mesmo horário, no Hoje em Dia exibia a mesma pauta, um debate sobre como educar os jovens. Mistérios de produção.’


 


BALÉ
O Estado de S. Paulo


Morre Béjart, coreógrafo do aqui e agora


‘Morreu ontem em Lausanne, Suíça, o coreógrafo e bailarino francês Maurice Béjart, aos 80 anos. Ele tinha sido hospitalizado no dia 16, pela segunda vez, para um tratamento renal e cardíaco. Deixou cerca de 250 balés.


Apesar da saúde frágil, Béjart supervisionava cotidianamente as atividades de sua companhia, especialmente o novíssimo balé A Volta ao Mundo em 80 Minutos (Tour du Monde en 80 Minutes), que deverá estrear no dia 20 de dezembro em première mundial em Lausanne, depois vai a Paris, em fevereiro, e segue para turnê mundial.


Nascido no dia 1º de janeiro de 1927 em Marselha, França, Maurice Berger (que mais tarde adotaria, em tributo a Molière, o sobrenome da esposa deste, Armande Béjart) era filho do filósofo Gaston Berger. Estudou filosofia, mas abandonou os estudos para se dedicar à dança, descoberta quando tinha 14 anos por conselho do seu médico, ‘para fortificar seu corpo franzino’.


Seguiu-se uma formação clássica em Londres e Paris e ele assinou sua primeira coreografia em 1952. Em 1955, iniciou sua revolução ao montar Symphonie pour un Homme Seul (1955), com os pais da música concreta, Pierre Henry e Pierre Schaeffer. A música se tornava física, sensual, mas houve resistência da dança tradicional e Béjart achou melhor se auto-exilar em Bruxelas, onde montou com impacto sua Sagração da Primavera, no Théâtre Royal de la Monnaie (TRM).


Um ano mais tarde, fundou a companhia Balés do Século 20 (Les Ballets du XXème Siècle). Suas coreografias, montadas em um ritmo rápido na capital belga antes de partirem em turnê pelo mundo, tornaram-se rapidamente sucesso. Entre as realizações, estão Bolero (1960), La IXème Symphonie de Beethoven (1964), Romeu e Julieta (1966), Missa pelos Tempos Presentes (1967) e Malraux (1986). J.C. Viola montou no Brasil, com grande sucesso, Nijinsky, o Palhaço de Deus (1971). Em outubro de 2003, ele rendeu homenagem a Fellini no balé Ciao Federico.


Sua influência é imensa. Foi mestre e colaborador da alemã Pina Bausch e das brasileiras Laura Proença e Marcia Haydée. ‘Dança é a combinação de tempo com espaço: a música é o tempo e o movimento ocupa o espaço’, disse ele. Foi apaixonado pelo bailarino Jorge Donn, que morreu de aids, e flertou sempre com as expressões populares – era grande admirador de Freddie Mercury, cantor do Queen.


Béjart veio algumas vezes ao Brasil, a partir de 1963. ‘Você sabe que fiz um balé em 1957 para minha companhia, a então Ballet Théâtre de Paris, com música de Villa-Lobos?’, disse ele ao Estado, em 1997. ‘Chamava-se L’Étranger.’ Mantinha uma tradição: doava a uma instituição que cuidava de pacientes com aids, em cada país que visitava, uma parte da sua renda pessoal nos espetáculos.


Em Barroco Bel Canto, balé concebido especialmente para o Brasil, o coreógrafo usou figurinos criados por Gianni Versace e inspirados nas cores dos pássaros da Amazônia. ‘Esse é um balé para ser apresentado no Teatro de Manaus’, sugeriu.


Abriu seu balé em Lausanne, na Suíça, em 1987, e depois também abriu escolas em Dacar e Bruxelas. O imperador japonês Hiroito lhe deu a comenda da Ordem do Sol Levante (1986), o rei belga Balduíno o nomeou Grand Officier de la Couronne, e a Academia Francesa de Belas Artes o admitiu em 1994.


‘Estou sempre mudando, porque só se pára quando se morre. A evolução, a mudança, isso é o natural da vida. Mas não se pode esquecer que existe também uma constante de estabilidade, sem a qual as transformações não podem ocorrer. Sei que a palavra Béjart é uma marca hoje, mas na verdade não sei quem sou. Porque sou aquele jovem de 20 anos que era bailarino e também aquele outro jovem de 32 anos que fez A Sagração da Primavera e o coreógrafo de 70 anos com mais de 200 obras encenadas. Tudo o que sei é o que sou agora às 16h20 deste sábado, nesta tarde no Ritz. Em uma hora, tudo pode mudar’, disse o coreógrafo ao Estado.’


 


 


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Folha de S. Paulo


Sexta-feira, 23 de novembro de 2007


REFÉNS
Folha de S. Paulo


Sem-terra fazem jornalistas reféns por 50 minutos


‘Integrantes do MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra) mantiveram, ontem, três profissionais de imprensa reféns por cerca de 50 minutos em um acampamento em Cascavel (PR).


Os jornalistas acompanhavam oficiais de Justiça que foram à fazenda Bom Sucesso para intimar as lideranças a deixarem a frente da fazenda, onde estão acampados há cinco dias, conforme determinação da Justiça.


‘Quando os oficias saíram eu fiquei pra colher mais dados, e a menina da CATVE [Cascavel TV Educativa] estava atrás de mim pegando informações [junto com um cinegrafista]. Eles se reuniram em um grupinho, fecharam o portão e disseram que ninguém mais iria sair do local’, disse o repórter Jonas Sotter, da rádio CBN Cascavel.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Expressões


‘‘O tucanoduto’, postou desde logo Josias de Souza, na Folha Online. Não, ‘o esquema conhecido como valerioduto mineiro’, saiu a Globo, mudando depois, na manchete do ‘JN’, para ‘o valerioduto do PSDB mineiro’. Por outro lado, deu o UOL na home, ‘PSDB tenta afastar a expressão mensalão’. Isso, conseguiu.


Seja o que for, ‘denúncia contra Azeredo contamina congresso do PSDB’, no enunciado da Reuters Brasil. ‘Foi a estrela’ do evento que pretendia ‘demarcar as ‘diferenças’ entre PSDB e PT na seara ética’, segundo o blog. E nem como caixa dois colou: ‘foi muito além’ o procurador-geral, ele que ‘nem menciona as arcas paralelas e trata de crimes como peculato, quadrilha’.


O presidente tucano a ser empossado hoje, no posto que foi de Azeredo, acredita na ‘inocência’. Geraldo Alckmin acha que ele ‘não teve benefício de natureza pessoal’. E por aí defenderam quase todos, fora FHC. Mas ele ‘usou o mesmo argumento que o presidente Lula, dívida de campanha’, como observou até o ‘JN’.


UM E OUTRO


No meio da tarde, Folha Online, Veja On-line, iG, nos enunciados das manchetes, citavam ministro e senador. Outros, como Globo Online e o portal G1, da Globo, citavam apenas o ministro e, em letras menores, o senador tucano. Sites tipo Vermelho traziam Azeredo e nada do ministro.


‘CONSELHEIRO’


Nos primeiros despachos ao exterior, de Bloomberg, Reuters, AP, o foco todo foi no ‘conselheiro’ ou ‘ligação parlamentar’ de Lula, como descreviam Walfrido Mares Guia, ‘acusado de desviar fundos públicos quase dez anos atrás’. Nas reportagens, breves menções a Azeredo.


PALESTINA?


A AFP despachou que o chanceler Celso Amorim vai à conferência de paz de George W. Bush. E arriscou que o convite inusitado se deve ao fato de ter ‘uma das maiores comunidades de imigrantes palestinos’. O ‘Washington Post’ explicou melhor, dizendo que foram os árabes que ‘pressionaram’ por mais países, daí o Brasil e outros.


O evento depende de Arábia Saudita e Síria aceitarem o convite, afirma o ‘WP’. Já a ‘Economist’ deu capa para Bush, ‘Mr. Palestine’, e opinou que só o anúncio por ele da aceitação da Palestina como nação, com as fronteiras pré-1967 e capital em Jerusalém, salva o evento do fiasco.


CUBA E O PORTO


O ‘Granma’ deu ontem, na manchete, que ‘Chávez se reuniu com Fidel e Raúl’.


E a ‘Economist’ só tem olhos para Raúl, o herdeiro, em texto que antevê um ‘adeus ao embargo’ com ‘um democrata na Casa Branca’. O maior indício seria que a Dubai Ports, dos Emirados Árabes Unidos, fechou e vai modernizar o porto de Mariel, ‘para o mercado americano’.


SATÉLITE E O MAR


Já o estatal chinês ‘Diário do Povo’ destacou ontem que ‘Brasil e Argentina vão desenvolver satélite juntos’.


Segundo o Itamaraty, com o propósito de ‘monitorar’ os recursos naturais no oceano Atlântico, ‘especialmente’ para a exploração mineral. Assinado pelos organizações espaciais dos dois, o acordo também visa ‘contribuir para a independência tecnológica’.


REFÚGIO DE RICO


Google e Yahoo postaram o despacho ‘Starbucks obtém êxito como refúgio para os ricos do Brasil’. Na reportagem sobre um ano da cadeia de café no país, o destaque de que os ‘brasileiros que enchem as lojas, com café a US$ 3,40, vêem Starbucks como um clube exclusivo’, onde ‘o nível social é bastante alto’ e se ‘valoriza a cultura americana’.


ESTATAL…


Repercutiu por Dow Jones, Bloomberg e outras que o governo federal quer estatal -ou a Telebrás- para levar banda larga a 150 mil escolas. Negócio de US$ 5,6 bilhões.


OU MICROSOFT


E repercutiu pela chinesa Xinhua que a Microsoft vai abraçar projetos de internet das universidades públicas do Estado de São Paulo -como serviços públicos e outros.’


 


ITÁLIA
Folha de S. Paulo


Berlusconi tinha agentes na TV pública


‘O público italiano soube mais detalhes ontem da extensão do controle exercido por Silvio Berlusconi sobre os meios de comunicação do país, depois da descoberta da infiltração de agentes de Berlusconi na televisão pública RAI, na época em que ele chefiava o governo anterior, de centro-direita.


De acordo com escutas telefônicas feitas em 2004 e 2005 e divulgadas pelo jornal ‘La Reppublica’, pessoas próximas a Berlusconi que ocupavam cargos de direção na RAI falavam com seus pares da Mediaset -o grupo audiovisual pertencente à família Berlusconi- antes de tomar decisões editoriais.


Nas eleições regionais de abril de 2005, em que a coalizão de centro-direita no poder perdeu seis das oito regiões que controlava, o então diretor-geral da RAI, Flavio Cattaneo, tentou atrasar ao máximo o anúncio dos resultados, segundo o ‘La Repubblica’. Cattaneo desmentiu a acusação em carta aberta, e o grupo Mediaset anunciou que vai à Justiça contra o jornal.


O controle exercido pelo poder político sobre a RAI não é novidade. Mas, se as informações veiculadas pelo ‘La Repubblica’ forem confirmadas, este controle terá atingido seu apogeu durante o governo de Berlusconi (2001-2006). A Mediaset e a RAI detêm 90% da audiência televisiva na Itália e mais de três quartos dos recursos do setor. A RAI emprega 11.500 pessoas.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Record faz jornal para concorrer com ‘SP TV’


‘A Record lança no próximo dia 3 o telejornal ‘Balanço Geral’. O programa será exibido apenas na Grande São Paulo, das 12h às 12h45. Será um teste da emissora do bispo Edir Macedo para concorrer no Ibope contra o ‘SP TV – 1ª Edição’, da Globo, voltado para um jornalismo dito comunitário.


O telejornal será apresentado por Luciana Liviero, que divide o matinal ‘Fala Brasil’ (versão popular do ‘Bom Dia Brasil’) com Marcos Hummel.


O ‘Balanço Geral’ ocupará 20 minutos do ‘Hoje Em Dia’ e o espaço do ‘Debate Bola’. Oficialmente, a mesa-redonda local de Milton Neves sairá do ar apenas durante o recesso do futebol brasileiro. Deverá retornar em meados de janeiro.


A Folha apurou que, dependendo de seu desempenho no Ibope, o ‘Balanço Geral’ poderá se fixar na faixa das 12h às 12h45. Se não der certo, deverá sair do ar quando o ‘Debate Bola’ voltar das ‘férias’.


Na Record, a expectativa é que o telejornal repita o bom desempenho do ‘Fala Brasil’, que anteontem bateu a Globo (‘Mais Você’) por nove pontos a seis. Ainda na quarta, o ‘Debate Bola’ deu cinco pontos, metade do ‘SP TV – 1ª Edição’.


O ‘Balanço Geral’ será a segunda tentativa da Record de emplacar um jornal local no meio do dia em pouco mais de um ano. Em agosto de 2006, estreou, por volta das 14h, o ‘SP Record – 1ª Edição’, que durou poucos meses.


JOGRAL A dez dias da estréia oficial da TV digital em São Paulo, as redes finalmente bateram o martelo: a cerimônia será mesmo na Sala São Paulo, na noite do dia 2, e cada emissora indicará um apresentador de telejornal para atual com mestre-de-cerimônias. As TVs não transmitirão o evento _apenas um vídeo de cinco minutos com imagens históricas de todas as redes.


REDE O Ministério das Comunicações autorizou ontem a Rede 21, a PlayTV, a retransmitir seus sinais na cidade de Bagé (RS). A emissora pertence ao grupo Bandeirantes e é parcialmente explorada pela Gamecorp, que tem um dos filhos do presidente Lula como sócio. A cessão de canais retransmissores a emissoras de São Paulo, no entanto, é comum.


POUCAS PALAVRAS A última cena de ‘O Sistema’, boa série que a Globo vem exibindo às sextas, será embalada pela música ‘The End’, dos Beatles. A canção combina com o mistério que será desvendado, no ar dia 7.


MUTAÇÃO 1 Depois de registrar uma das menores audiências de sua história na TV, a seleção brasileira se recuperou contra o Uruguai, anteontem. Marcou 42 pontos na Globo e 4 na Band.


MUTAÇÃO 2 O destaque da quarta-feira foram os 16 pontos de ‘Caminhos do Coração’, que agora dá maior espaço aos mutantes. A novela da Record concorreu diretamente contra o jogo do Brasil. Em outros tempos, nenhum programa conseguiria tanto contra a seleção.’


 


BALÉ
Adriana Pavlova


Morre coreógrafo que revolucionou a dança clássica


‘Uma das grandes referências da dança do século 20, o coreógrafo francês Maurice Béjart morreu ontem, aos 80 anos, em Lausanne, cidade suíça onde escolheu viver e trabalhar com sua companhia nas últimas duas décadas.


O artista, que se projetou mundialmente ao revigorar a dança clássica com audácia, mas sem deixar de lado a técnica do balé, vinha enfrentando problemas cardíacos e renais. Na semana passada, Béjart fora internado no hospital universitário de Lausanne pela segunda vez em um mês, alegando muito cansaço.


Mesmo doente e acamado, ele passou os últimos dias envolvido com os detalhes daquela que será sua derradeira criação para a companhia que leva o seu nome -a Béjart Ballet Lausanne, fundada por ele na Suíça, depois de ter dirigido o Balé do Século 20, em Bruxelas, de 1960 a 1987.


O espetáculo ‘A Volta ao Mundo em 80 Dias’ tem estréia marcada para o próximo dia 20 de dezembro, em Lausanne, seguindo em fevereiro para Paris, a primeira parada de uma turnê mundial.


‘Estamos muito chateados mas o show vai continuar’, disse o porta-voz da companhia, Roxanne Aybek, confirmando a première do balé.


Pseudônimo


Nascido em Marselha em 1927, filho de um filósofo, Maurice Berger começou a dançar ainda rapaz, por indicações médicas. Não demorou muito para que se apaixonasse e decidisse tornar as sapatilhas um projeto profissional.


Ao mudar-se para Paris, para aprofundar-se nos estudos do balé clássico, ele também escolheu o pseudônimo que o projetaria em todo mundo. Béjart foi uma homenagem a Molière, cuja esposa se chamava Armande Béjart.


Em cinco décadas de criação, o coreógrafo, dono de profundos olhos azuis, montou um acervo de cerca de cerca de 250 coreografias, que espelharam em muito suas paixões e interesses, como o esoterismo, o amor por culturas diversas e misturas artísticas. Um caldeirão cultural que tem como mérito ter conseguido atrair uma platéia das mais ecléticas, em todo o mundo.


Entre os hits coreográficos que deixou inscritos na dança do século passado, estão ‘Bolero’, com música de Ravel dançado por bailarinos homens, e a sua versão para ‘A Sagração da Primavera’. Além de criações para as companhias que fundou ao longo da vida, fez trabalhos com grandes nomes da dança, como Suzanne Farrell, Sylvie Guillem, Jorge Donn e Rudolf Nureyev.


Béjart e suas companhias estiveram no Brasil diversas vezes, a partir da década de 70. Em 2000, o Ballet de Lausanne apresentou uma coletânea de diferentes peças do artista, entre eles ‘A Rota da Seda’, um exemplar de todo o ecletismo do coreógrafo. Para contar a história de fabricantes de seda que desbravaram o mundo, ele usou 40 bailarinos em cena, dançando músicas bizantinas, turcas,iranianas, indianas, mongóis e chinesas, Vivaldi e sons eletrônicos.


Pouco depois, em 2003, o país assistiu à turnê de ‘Madre Tereza e as Crianças do Mundo’, na qual Béjart uniu seu talento ao da brasileira Márcia Haydée. A bailarina era a estrela do espetáculo de estréia da Compagnie M, outra criação do coreógrafo, desta vez com jovens talentos de diferentes partes do mundo.


Logo depois do anúncio da morte do coreógrafo, a ministra da Cultura da França, Christine Albanel, fez um pronunciamento. ‘Perdemos um dos maiores coreógrafos do nosso tempo, um dos mais famosos e um dos mais admirados’, disse.


Na próxima segunda-feira, haverá uma homenagem pública a Béjart em Lausanne. Convertido ao islamismo, o coreógrafo havia pedido que seu corpo fosse cremado.’


 


MONSTRO
Carlos Heitor Cony


Otto Maria Carpeaux


‘FOI COM pavor que me aproximei de Otto Maria Carpeaux, no início dos anos 60, quando entrei para o ‘Correio da Manhã’, onde fui inaugurar o que então se chamava de ‘copy desk’, e ele era o principal editorialista do jornal.


Já haviam sido publicados os primeiros volumes de sua monumental ‘História da Literatura Ocidental’, eu havia lido a ‘Cinza do Purgatório, Origens e Fins’ e ‘Livros na Mesa’. Considerava o seu prefácio à edição brasileira de ‘Os Irmãos Karamazov’ tão esclarecedor e importante quanto o próprio texto de Dostoiévski.


Esse monstro ali estava, andando de mesa em mesa, fumando sem parar, esperando a reunião das 18h em que se discutiria a linha do editorial e dos tópicos que compunham a página de opinião, a famosa página 6 do velho ‘Correio’.


Pressionados pelo regime político vigente naquela ocasião, pedimos demissão mais ou menos ao mesmo tempo. Sem jornal para escrever, aceitávamos convites de estudantes de diversas universidades espalhadas pelo Brasil e assim formamos uma dupla. Durante três anos fizemos palestras em faculdades, igrejas e clubes recreativos. Impressionante como Carpeaux conseguia, usando um mínimo de palavras, dar o seu recado.


Ao final de cada palestra, havia debates, os estudantes faziam as perguntas, eu respondia com milhões de palavras e não era entendido. Carpeaux pensava um pouco, dizia cinco, seis, dez palavras -e estava tudo ali. Decididamente, um monstro. Nem percebiam o seu folclórico defeito de dicção que, na intimidade, era até escandaloso.


A verba dos estudantes era limitada, em muitas cidades dividíamos o mesmo quarto de hotel. Nunca tive um companheiro mais educado e cortês.


Luz apagada, fumando o último cigarro, eu notava que ele se concentrava antes de dormir. Rezava? Talvez. Sempre suspeitei que Carpeaux tinha um fundo religioso, embora criticasse todas as religiões. Depois, somando outros detalhes de sua personalidade, tentei esboçar uma teoria para explicar esse tipo de concentração a que ele se entregava não apenas na hora de dormir, mas em momentos específicos de seu dia.


Lá no ‘Correio da Manhã’, todos ficávamos intrigados com a mania que ele tinha de pegar um papel e nele colocar nomes e números numa ordem que, aparentemente, parecia uma lista de jogo do bicho.


Feita a lista, olhava em torno para ver se alguém o observava e discretamente jogava o papel rasgado na cesta. Um colega deu-se ao trabalho de apanhar os fragmentos e recompor a lista. Lá estavam, com a sua inconfundível letra gótica, pequenos blocos de cinco ou seis letras e números, coisa esotérica. Todos os dias fazia a mesma coisa.


Quando teve o primeiro enfarte e ficou internado no hospital, ele pedia à dona Helena, sua mulher, que lhe perguntasse determinadas datas e acontecimentos, aleatoriamente, como numa roleta. Nada respondia, mas ficava concentrado, buscando na memória o que lhe fora indagado.


Juntando esses elementos, comecei a perceber (e outros colegas também já tinham chegado à mesma conclusão) de que Carpeaux possuía algum processo mnemônico, aprendido em Cracóvia, em Viena, em Antuérpia, sei lá onde, um macete de ‘scholar’ com o qual, através de chaves e códigos, penetrava em todos os campos do saber humano.


Para ele, era importante saber quantos compassos de uma velha canção medieval foram aproveitados por Wagner na abertura de ‘Os Mestres Cantores’. Como o atleta que dedica momentos de seu dia para esquentar os músculos, ele praticava esse tipo de atletismo mental, pronto para o que desse ou viesse. Daí o meu espanto quando, em 1966, produzindo o documentário ‘Otto Maria Carpeaux – O Velho e o Novo’, dirigido por Maurício Gomes Leite, fomos a seu apartamento na rua Paula Freitas, em Copacabana.


Sua estante de livros era modesta, igual a de um estudante em início de curso superior. Sua discoteca era diminuta. Filho de um advogado que tocava violino, Carpeaux preferia ler partituras. Perguntei-lhe por quê. Ele respondeu que lendo a pauta era mais fácil de guardar do que ouvindo -o que nos remete definitivamente para o imenso universo mental que cultivava com suas chaves enigmáticas e códigos de cabala. Um monstro.’


 


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