Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & ABORTO

Uma aposta no escuro

Por Luciano Martins Costa em 11/10/2010 na edição 610

Da igreja, das religiões em geral, espera-se sempre que sejam conservadoras, uma vez que supostamente cuidam de preservar dogmas e tradições, contra o permanente assédio da modernidade.


Onde essas instituições se impõem, a sociedade estanca ou regride, como se pode observar nos países dominados pelo fanatismo dos aiatolás, ou, por exemplo, em Portugal sob o regime salazarista. Onde as religiões atuam em equilíbrio com as outras forças sociais, a sociedade avança sem sustos.


É de se esperar, portanto, que também atuem na sociedade outras instituições que se colocam no lado oposto dessa gangorra, ou seja, aquelas que perscrutam a contemporaneidade e apontam os caminhos da evolução social.


Supostamente, a mídia se instala no campo oposto ao das religiões.


Pelo fato de se dirigir teoricamente a toda a diversidade ideológica que compõe a sociedade, a imprensa se tornou importante nos tempos modernos principalmente por respeitar esse pluralismo, ainda que seus controladores possuam sua própria visão de mundo.


Uma visão de mundo mais abrangente só pode ser considerada como tal quando reconhece o direito ao contraditório. Para que se torne efetiva, a comunicação dessa visão precisa ser também abrangente, ampliadora de perspectivas e aberta a discutir o novo.


Declarações radicais


A imprensa brasileira parece ter abdicado dessa missão, nestes dias de verdadeira conflagração política.


Ao dar curso, estimular e de certa forma justificar um debate medieval sobre questões sociais importantes, a mídia faz uma aposta perigosa.


Questões como a regulamentação do aborto pertencem ao ramo da saúde pública, mas não podem avançar sem contemplar o campo da ética. Mas nenhuma instituição tem o monopólio da ética, e por essa razão o debate precisa ser ampliado e retirado do ambiente restrito das crenças esotéricas.


A imprensa, uma das instituições – junto com a universidade e outras – que teoricamente promovem a aproximação da sociedade com a contemporaneidade, deve, sim, abrigar esse e outros debates. Mas limitar-se a dar repercussão a declarações radicais, na suposição de que a saturação do tema prejudica uma das partes que disputam o poder, é apostar no obscurantismo.


E quando faltam luzes a uma sociedade, a imprensa é uma das primeiras a perder.


 


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Todos os comentários

  1. Comentou em 12/10/2010 Roberto Ribeiro

    O argumento levantado por Herman é interessante, mas não me parece correto. Se a questão do aborto fosse só uma questão de classe, aconteceria como outras questões de saúde. Os ricos têm médicos particulares, os ‘remediados’ têm planos de saúde e resta o SUS para os pobres. Também com a escola pública, o transporte, etc. é assim. Então seria fácil liberar o aborto, pois os procedimentos iriam acontecer pelo SUS, como acontecem centenas de outros procedimentos cirúrgicos. Os pobres entrariam na fila para o procedimento e seriam tão mal tratados como hoje o são para outros tratamentos. Não, também não acho que esta seja uma questão tão simples.

  2. Comentou em 12/10/2010 Alan Ferreira

    O Estado tem que se manter neutro em questões de fé porque não foi para catequizar que o criamos; para isso já existem as igrejas. O governo impondo dogmas religiosos equivale a um engenheiro distribuindo receitas médicas. Não importa que a maioria da população anseie por isso; fato é que ele não tem nem preparo nem legitimidade para tal. É irresponsabilidade de nossa imprensa forjar um casamento da roça entre Igreja e Estado. Nem por brincadeira!

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