Sábado, 30 de Maio de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº852

ENTRE ASPAS > DEBATE NA BAND

Uma cobertura cheia de dedos

Por Alberto Dines em 10/08/2010 na edição 602

O primeiro debate entre os presidenciáveis foi chocho, chato, morno – por causa do horário, da extensão, das exigências legais cada vez mais restritivas, dos acertos entre os partidos e da falta de energia da emissora-anfitriã (Rede Bandeirantes) para impor um modelo televisivo mais dinâmico.


A repercussão foi ainda mais lamentável, diletante, desenxabida. Para começar: em seguida ao debate, na madrugada da sexta-feira (6/8), os portais de notícias ofereceram uma cobertura lamentável. Seguiram um confronto político como se fosse uma partida de futebol – lance por lance. Como ainda não dispunham das referências dos jornais diários e não contam com um quadro de comentaristas qualificados para analisar os fatos 24 horas por dia, simplesmente omitiram-se. Se é assim que pretendem esmagar os jornais impressos, podem desistir: vão perder de goleada.


A tentativa do UOL de apurar quem se saiu melhor foi bruscamente abortada. A votação evaporou-se subitamente. Para não desagradar os perdedores.


Assepsia opinativa


Depois da deserção na hora do acontecimento, vieram os maneirismos e os rapapés no dia seguinte. Os comentaristas de rádio, tevê e internet estavam cheios de dedos, constrangidos, sem jeito de expressar o que sentiram para não serem acusados de favorecer candidaturas. Na verdade, não queriam ser patrulhados. Por isso, juntaram-se para elogiar Plínio de Arruda Sampaio, o simpático candidato do PSOL – mais solto porque nada tem a perder – sem se importar com suas desnecessárias grosserias pessoais que distribuiu entre os pares.


No sábado (7), quando os jornalões finalmente começaram a comentar os desempenhos, o debate já era coisa do passado. Prejudicados por este súbito acesso de bom-mocismo foram os eleitores que esperavam dos jornais opiniões aferidoras, técnicas, abalizadas.


Dirão alguns que este tipo de ‘distanciamento’ – ainda que hipócrita – é mais aceitável do que ataques arrasadores. Falso dilema: assumir as responsabilidades críticas não é sinônimo de avacalhação. O público quer da mídia os elementos básicos para formar seus próprios juízos. Muitas vezes na direção oposta.


Opinar não transgride as normas de conduta jornalística, sobretudo quando se trata de colunistas, comentaristas ou analistas cuja obrigação é justamente acionar o veio crítico da sociedade.


O que os leitores abominam é o engajamento, o fanatismo e, principalmente, a falta de diversidade nos veículos e na mídia em geral.


Com os jornalões oferecendo agora esta pletora de opinionistas seria conveniente liberá-los para expressar opiniões de forma civilizada, urbana. A assepsia opinativa que se seguiu ao primeiro debate é enganosa e perigosa. Parece isenção, mas é subtração pois retira dos meios de comunicação sua função maior que é o estímulo à formação de juízos.


Observar sem ferir


A eleição será no dia 3 de outubro, há ainda cinco debates pela frente; registrar agora um reparo desfavorável porém respeitoso ajuda o processo, ajuda o candidato e ajuda o eleitor.


Dois jornalistas, altamente credenciados, mostraram que é possível criticar o desempenho de um candidato num debate sem atacá-lo impiedosamente ou confrontar suas idéias:


** Juan Arias, correspondente no Brasil do espanhol El País, não tem escondido em seus despachos e análises uma empatia com o presidente Lula e, evidentemente, com a candidata escolhida para sucedê-lo. Mas na edição de sábado (7/8), o veterano jornalista foi claro, incisivo, correto – e muito crítico:




‘[Dilma Roussef] revelou sua inexperiência e seu nervosismo com titubeios, tropeços de linguagem, repetições e o suor no rosto. Serra, ao contrário, que já disputou dezenas de eleições legislativas e locais, dominou os assuntos, sentindo-se à vontade’ (ver ‘Tibio arranque en Brasil de los debates electorales‘).


** José Roberto de Toledo, mais jovem do que Arias, porém não menos tarimbado em matéria de cobertura política, está desenvolvendo um excelente trabalho estatístico para o Estado de S.Paulo e na segunda-feira (9/8) ofereceu uma valiosa contribuição para desarmar esta falsa isenção adotada pela mídia:




‘Debate não é luta de boxe. A idéia de que um candidato só ganha quando leva o oponente à lona projeta o desejo mórbido de ver um deles deitado em uma poça de sangue. Ninguém vira eleição com um golpe só, nem aprende a debater do dia para a noite. A vitória de um candidato é sempre por votos, nunca por nocaute’ (ver ‘O debate e o nocaute‘).


Desinibam-se, senhoras e senhores opinionistas! Aprendam a observar sem ferir. A crítica é uma apreciação, parte inalienável do exercício jornalístico. Aprendam a discernir. Este é um hábito contagioso. Não se omitam, mas não exorbitem. [Texto finalizado às 19h25 de 9/8/2010]

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/08/2010 Benedito Jr

    Esse tal José Roberto de Toledo não é aquele mesmo que disse que as pesquisas que apontavam crescimento da candidata do PT eram viciadas porque ativavam ‘redes neurais’ dos eleitores ao apresentar o nome dela antes da pergunta sobre o voto? E o Dines ainda vem me elogiar o ‘excelente trabalho estatístico’ desse senhor? Estou sem palavras..

    Um artigo cheio de obviedades e truísmos, com a profundidade de um pires, pode de longe parecer um oásis dado o absoluto deserto de idéias e compostura de nossa mídia, mas não é suficiente para recuperar a imagem de um analista que recorrentemente fala estultices sem o menor pudor em seu espaço. Esse sujeito, com o devido respeito, entende tanto de estatística e pesquisa qualitativa quanto eu de microbiologia marinha.

    Em qualquer outro país com tradição de seriedade de imprensa, o elogio de Dines seria considerado uma peça de ironia fina, embora talvez com certa crueldade, afinal o referido jornalista já estaria procurando outro emprego depois de ofender a inteligência dos leitores de seu periódico com suas teorias neurológicas. Mas, para espanto e tristeza nacional, Dines falou sério quando elogiou Toledo. Talvez algum dia no futuro quando nossos filhos e netos possam reler as notas deste Observatório, eles compreenderão porque esse elogio é o atestado da própria miséria de nosso jornalismo político contemporâneo.

  2. Comentou em 16/08/2010 Benedito Jr

    Esse tal José Roberto de Toledo não é aquele mesmo que disse que as pesquisas que apontavam crescimento da candidata do PT eram viciadas porque ativavam ‘redes neurais’ dos eleitores ao apresentar o nome dela antes da pergunta sobre o voto? E o Dines ainda vem me elogiar o ‘excelente trabalho estatístico’ desse senhor? Estou sem palavras..

    Um artigo cheio de obviedades e truísmos, com a profundidade de um pires, pode de longe parecer um oásis dado o absoluto deserto de idéias e compostura de nossa mídia, mas não é suficiente para recuperar a imagem de um analista que recorrentemente fala estultices sem o menor pudor em seu espaço. Esse sujeito, com o devido respeito, entende tanto de estatística e pesquisa qualitativa quanto eu de microbiologia marinha.

    Em qualquer outro país com tradição de seriedade de imprensa, o elogio de Dines seria considerado uma peça de ironia fina, embora talvez com certa crueldade, afinal o referido jornalista já estaria procurando outro emprego depois de ofender a inteligência dos leitores de seu periódico com suas teorias neurológicas. Mas, para espanto e tristeza nacional, Dines falou sério quando elogiou Toledo. Talvez algum dia no futuro quando nossos filhos e netos possam reler as notas deste Observatório, eles compreenderão porque esse elogio é o atestado da própria miséria de nosso jornalismo político contemporâneo.

  3. Comentou em 12/08/2010 Emerson Mathias

    Caro Dines, essa ‘assepsia’ que voce apontou na cobertura jornalistica do debate será a mesma que teremos nos materiais didaticos que foram saudados aqui como uma ‘revolução’ por parte das empresas de midia. Segue o trecho do seu artigo com referencia a essa assepsia:’A assepsia opinativa que se seguiu ao primeiro debate é enganosa e perigosa. Parece isenção, mas é subtração pois retira dos meios de comunicação sua função maior que é o estímulo à formação de juízos.’ FICA a pergunta: é possivel acreditar numa analise critica da midia sobre as eleicoes e nao desconfiar dessa mesma midia na produção de material didatico? O seu ghost writer nos deve explicações sobre aquele artigo panfletario que causou surpresa e estranhamento a todos os leitores do OI que aqui se manifestaram. Ou devemos aceitar que saõ coisas distintas e não se fala mais nisso? (Em tempo, o Plinio mandou bem)

  4. Comentou em 10/08/2010 AILTON amaral

    Dines, tem coisas que mudam de acordo com as exigências sociais. Essa questão do debate é uma delas, quando as convenções entre candidatos tornam os embates mornos, pode ser somente uma forma da sociedade reagir, alias, os candidatos só fizeram o que as pesquisas mandaram. outro fator a ser observado, que vc coloca com um tom de critica, foi a participação do candidato do psol, que teve coragem muito superior a todos os que lá estavam, talvez não simplesmente por não ter nada a perder, mas por não ter nada a esconder, quem conhece um pouco de política nacional conhece o velhinho q estava la. Os desvios de atuação da candidata do governo e do candidato tucano, não são uma coisa nova, eles não tem realmente um projeto para esse pais, infelizmente. Mas querem se manter no poder a qualquer custo. gostando ou não, tem alem de três candidatos nessa disputa, a mídia faz questão de esconder esses outros, porque não querem colocar a disputa em um nível que deveria ser, de democracia, de imparcialidade e de cidadania.
    Mas isso é coisa para democracias maduras, alias, que não existem nesse planeta, mas quem sabe em alguns séculos alcancemos essa patamar;

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