Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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JORNAL DE DEBATES >

Uma história que não comoveu a mídia

Por Ligia Martins de Almeida em 10/02/2009 na edição 524

‘Americano reencontra o filho depois de 5 anos’ é o título da matéria do Estado de S.Paulo publicada na terça-feira (10/2), contando a história judicial envolvendo uma brasileira e um norte-americano:




‘Quase cinco anos depois, o americano David Goldman conseguiu ontem [segunda, 9/2], na presença do deputado americano pelo Partido Republicano Chris Smith, rever seu filho S.R.G, de 8 anos, que a mãe brasileira, Bruna Bianchi Carneiro Riberio, trouxe para o Brasil em julho de 2004. Desde então, Goldman briga judicialmente para rever a guarda do filho, reivindicando o cumprimento da Convenção de Haia, pela qual os países signatários, como o Brasil, se obrigam a repatriar para o país onde vivia a criança `seqüestrada por um dos pais´. (…) Bruna veio de férias com o filho para o Rio e não voltou para os Estados Unidos. Ela moveu uma ação na Justiça carioca de guarda do menor e outra de separação litigiosa. Paralelamente, se envolveu com o advogado João Paulo Lins e Silva, de quem ficou grávida. Ela morreu ao dar a luz a uma filha do casal, em agosto. Em ação na Justiça, Lins e Silva requisita o reconhecimento de sua paternidade afetiva. Se o pedido for aceito, o nome de Goldman será substituído pelo do advogado na certidão de nascimento do menino’. (Estado de S.Paulo, 10//02/2009)


Essa é a história contada em novembro de 2008 pela revista piauí, a única publicação brasileira que tratou do assunto [ver aqui a reprodução da matéria]. História que – embora silenciada no Brasil – tem repercutido nos Estados Unidos e foi resumida assim pelo programa Today Show, da rede de TV NBC:




‘David está lutando a batalha de sua vida contra duas poderosas e influentes famílias, os Ribeiro e os Lins e Silva, que têm feito tudo o que podem para evitar que ele encontre Sean. Ele exauriu virtualmente todas as opções legais disponíveis para ele tanto nos Estados Unidos como no Brasil a um grande custo emocional e financeiro. Depois da súbita e trágica morte de Bruna em 22 de agosto (2008) acreditava-se que David finalmente seria capaz de ver Sean e trazê-lo para casa. Infelizmente, ele está agora no meio de outra batalha pela custódia, desta vez com o novo marido de Bruna, João Paulo Lins e Silva.’


Normas do bom jornalismo


O caso, ignorado pela imprensa brasileira, rendeu matérias em vários jornais e emissoras de TV americanos e a NBC, no seu texto, diz que o silêncio aqui, se deve a gag orders (ordens de mordaça, ou silêncio) impostas à imprensa brasileira. Um blog, mantido por amigos de David, faz uma intensa campanha pedindo que os compatriotas do pai em luta assinem petições pedindo a volta do menino e até um deputado de Nova Jersey, onde o caso está sendo julgado, se ofereceu para acompanhar David em uma visita ao Brasil. Enquanto os norte-americanos são convocados a colaborar numa campanha pela volta do menino, por aqui, só uma revista falou do caso.


A revista piauí – acusada por uma leitora (em comentário publicado neste Observatório) de parcial e irresponsável – percebeu a chance de fazer uma bela matéria, com todos os elementos dramáticos que fazem o sucesso de uma boa novela: famílias influentes, pessoas bonitas e uma criança no meio da disputa. A revista tinha obrigação de ouvir o outro lado, seguindo as normas do bom jornalismo. Se tentou e não conseguiu, poderia ter dado um PS dizendo que os Lins e Silva se negam a falar do assunto.


Exceções, só em caso de risco


Mas, melhor fazer uma matéria contando um lado da história do que se submeter, como fez o único jornal a tocar no assunto, a contar o milagre sem revelar o santo. Foi o que aconteceu com a Folha de S.Paulo em sua edição de 27 de novembro de 2008 (‘Juiz impede americano de ver filho no Brasil’):




‘A Justiça do Rio decidiu ontem que o americano Paul não poderá visitar seu filho Andrew, 8, de quem está separado contra a sua vontade há quatro anos (os nomes são fictícios). Segundo o juiz Ricardo Lafayette Campos, da 2ª Vara da Família do Rio de Janeiro, não seria do `melhor interesse do menor a repentina e abrupta visitação do seu pai biológico´, considerando o fato da recente perda da mãe.


A Folha revelou na última terça que a criança foi trazida ilegalmente para o Brasil em 2004 pela mãe, uma empresária carioca da moda que morreu no final do mês passado. O último marido dela, que é de uma conhecida família de advogados, não permite que o pai de Andrew visite o filho. Ele já conseguiu uma decisão liminar pela guarda do garoto e solicita que o nome do pai biológico seja apagado da certidão de nascimento do menino.


Paul veio ao Brasil no último dia 7 e, sem poder ver o filho, recorreu à Justiça carioca na última terça-feira. Com a decisão negativa, embarcou ainda ontem de volta para os EUA.


Especialistas consultados pela Folha afirmam que nunca viram uma decisão como a da Justiça do Rio. No entanto, eles ressaltam que, como o processo corre em segredo de Justiça, não poderiam comentar especificamente sobre esse caso. `Não se pode impedir o pai de ver o seu filho. O que às vezes acontece, como exceção, é permitir uma visita monitorada, mas nunca negar o direito de visita´, diz Rodrigo da Cunha Pereira, presidente do IBDFam (Instituto Brasileiro de Direito de Família). De acordo com ele, as exceções são para o caso de o pai ser drogado, alcoólatra, violento ou ter abusado da criança – situações em que o filho seria exposto a um risco. No entanto, segundo o advogado de Paul, Ricardo Zamariola, no processo não aparecem tais acusações contra o americano.’


Mordaça desconhecida do público


A ‘parcialidade’ da revista piauí e o fato de a Folha dar a matéria sem o nome real dos envolvidos nos fazem perguntar se a NBC tem razão quando diz que o norte-americano está lutando contra ‘famílias poderosas e influentes’. Serão tão influentes a ponto de conseguir que um assunto que costuma comover a mídia seja completamente ignorado? Serão tão influentes que um pedido deles é suficiente para sufocar o fascínio que a mídia costuma ter por escândalos envolvendo os ricos e famosos? Ou será que a lei da mordaça, mencionada pela NBC, realmente está valendo?


Como felizmente vivemos tempos de imprensa sem censura, a única explicação possível é que a imprensa perdeu de vez a sensibilidade para descobrir bons assuntos e fazer belas reportagens, como a da revista piauí. A NBC exagerou ao falar da lei da mordaça, atribuindo o silêncio da mídia a ordens impostas de fora. Mas esqueceu de mencionar uma mordaça muito mais freqüente na imprensa: a que é imposta por donos de jornais, quando seus amigos pedem discrição sobre um assunto. Essa mordaça, que não chega ao conhecimento do público, é bem conhecida de repórteres e redatores, obrigados, como aconteceu com os que assinaram a matéria da Folha de S.Paulo, a dar nomes fictícios aos envolvidos no caso do menino Sean.


Foi preciso uma visita na companhia de um congressista americano para que finalmente David conseguisse ver o filho e merecesse espaço nos jornais. Agora que o caso vai ser analisado na esfera federal, a mídia, com toda certeza, dará mais espaço ao assunto. Quem sabe mostrando não apenas o lado humano do caso, mas tentando explicar como funciona a Justiça que faz com que, durante cinco anos, um pai não consiga ver o seu filho.

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