Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > COBERTURA ELEITORAL

Uma pauta em 15 perguntas

Por Washington Araujo em 21/10/2010 na edição 612

Pois bem, se a imprensa quisesse… não precisaria ficar se exercitando qual hamster passeando em sua roda-gigante dentro de sua minúscula gaiola. E também não teria que ficar repetido à exaustão que ‘tudo está indefinido’, que somente com ‘a abertura das urnas’ saberemos alguma coisa (?), que ‘as pesquisas mostram números ligeiramente alteradíssimos’, que ‘os votos do PV não são do PV, são de Marina’ ou outra variante afirmando que ‘os votos de Marina não são de Marina, são do PV’.


É um festival de coisa morna, que, longe de queimar a língua, no máximo lhe faz sentir quão desagradável é a coisa morna, seja leite morno, seja escândalo morno, seja opinião morna, seja notícia morna. A cobertura da imprensa destas eleições presidenciais se alterna entre o frio e o morno e qualquer calorzinho existente parece nascer do lado partidário da imprensa, aquela que mais se autoproclama isenta, independente, acima das ideologias, acima das eternas rusgas entre governo e oposição. 


Mas, se a imprensa quisesse, teria muito trabalho por realizar. Bastaria ver as muitas matérias interrompidas abruptamente, as notícias sem continuidade, as manchetes anunciando que ontem pela manhã, por volta das 5h45, o mundo acabou. Seria preciso, tão somente, responder, se possível ainda antes do dia 31 de outubro, a questões como as que enuncio a seguir.


Outra ponta


1. Por que o avanço do tema aborto cruzava o Brasil como se planasse em céu de brigadeiro e, logo após ‘a publicação do relato de uma ex-aluna da mulher de Serra dando conta de que ela (Monica), em sala de aula, revelou já ter praticado um aborto’, eis que o tema desaparece do noticiário com tal velocidade que até falar da construção da Transamazônica, nos momentos mais dolorosos do governo Médici, pareceria notícia com muito mais cheiro de novidade para este segundo turno que a tal difundida questão do aborto?


2. Tendo o tema descriminalização do aborto se levantado como onda de 11 metros, com a informação de que Monica Serra, mulher do candidato à presidência José Serra (PSDB), teria feito um aborto durante o período em que o tucano viveu exilado no Chile – e procedendo de ‘gente com ficha limpa’, da bailarina e ex-aluna de Monica Serra na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Sheila Canevacci Ribeiro – fica a interrogação: cadê o jornalismo investigativo buscando ouvir ao menos mais 5 ou 6 alunas da professora Monica, ex-colegas de Sheila Ribeiro sobre o assunto?


3. Por que uma simples nota da Assessoria do PSDB negando o aborto da mulher de seu presidenciável ao invés de deixar a onda se acabar na praia não produziu o que se esperaria de um jornalismo minimamente independente: aumentar o esforço investigativo em torno do caso? Afinal, não era ela que há algumas semanas panfletava em Nova Iguaçu (RJ) bradando que Dilma Rousseff (PT) ‘é a favor de matar criancinhas’?


4. Por que partiu de um líder católico, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo da antes pacata Guarulhos (SP), a encomenda de impressionantes 20 milhões de panfletos, com assinatura de sua entidade-mor, a CNBB, com ataques claros e diretos à candidata da continuidade governista Dilma Rousseff?


5. E se em nota a própria CNBB afasta dos lábios sacerdotais o cálice amargo encontrado em Guarulhos, quem teria autorizado a impressão de sua chancela?


6. Como Dom Bergonzini conseguiu levantar tanto dinheiro para ação tão meritória e tão distante de ser considerada alinhada com as mensagens que há 2.000 anos sopram dos Evangelhos de Lucas, João, Mateus e Marcos?


7. E se não era dinheiro resultante de dízimos e doações de sua própria diocese, de onde viria tão elevada quantia – algo entre R$ 600 mil a R$ 800 mil –, de que casa bancária e de que ‘conta partidária’ teria sido debitada?


8. E na outra ponta: em que conta da diocese de Guarulhos teria ido parar a dinheirama?


Análise econômica


9. Paulo Preto, personagem de outro escândalo levemente noticiado no principal telejornal da tevê brasileira, estaria envolvido com a gráfica demandada por Dom Bergonzini?


10. Quais as ações tanto da Justiça Eleitoral quanto de sua mais operosa agente do Direito, esta que parece trabalhar em três turnos sem qualquer intervalo – a procuradora eleitoral Sandra Cureau –, referentes à impressão desses 20 milhões de folhetos?


11. Por que o governador José Serra considerou ‘irrelevante’ o fato de a dona da gráfica de Guarulhos ser, segundo o jornal Folha de S.Paulo, além de filiada ao PSDB desde 1991, irmã do coordenador de infraestrutura de sua campanha, Sérgio Kobayashi? Não seria o caso de buscar do PSDB ‘algo mais sólido e consistente’ que o banal ‘irrelevante’? 


12. Por que um dos lados sempre acusa o outro de grossas inverdades, campanhas subterrâneas de desqualificação, e quando apresenta a ficha corrida de elementos gestores de uma ou de outra campanha, recebe, como resposta padrão, adjetivos ou frases curtas como ‘irrelevante’, ‘factóide’, ‘não vai dar em nada’ (sic) e fica por isso mesmo, dando-se por saciado o interesse jornalístico?


13. Por que o outro lado, por mais que refute as acusações, apresente dados, relatos circunstanciados, nome e sobrenomes de meliantes, passa a ser visto pela grande imprensa como ‘informação não confiável’, ‘não publicável’, ou daquelas que abastecem o extenso rol das ‘informações jornalísticas a serem sonegadas’?


14. Por que chefes da editoria de Economia & Finanças dos principais jornais e revistas do país não produzem estudos jornalísticos sobre as conseqüências para o Brasil de um salário mínimo que venha a ser rapidamente catapultado para R$ 600? Quais as implicações para as contas públicas? Como tal aumento impactaria as contas da sempre combalida e deficitária Previdência?


15. Por que a grande imprensa não convoca economistas de renome e lhes oferece espaço adequado em seus veículos para publicar suas análises sobre o impacto de um aumento de 10% a todos os aposentados do Brasil, logo no primeiro trimestre de 2011? Estaria dentro dos princípios que norteiam a celebrada Lei da Responsabilidade Fiscal?


Promessas, promessas


São pautas para professor de jornalismo algum colocar defeito. Quem, em sã consciência, não teria interesse de ver a equação da informação fechar de forma redonda e completa? Se 5% do louvável esforço da grande imprensa para divulgar o chamado Erenicegate fosse aplicado a responder ao menos 5 das questões acima poderíamos considerar que temos no Brasil uma cobertura eleitoral com nota média acima de 5. Portanto, avaliação regular.


E olha que deixei completamente ao relento a esquizofrênica pauta brandida por presidenciável desejoso de asfaltar formidáveis 4.000 quilômetros da rodovia Transamazônica ligando o estado da Paraíba ao estado do Amazonas. 


E nem mencionei o surto de amnésia midiática para a missa realizada em Canindé (CE), quando o celebrante praticamente foi desacatado pelo futuro ex-parlamentar Tasso Jereissati aos brados de ‘padre petista’. E tudo isso na presença do ex-governador José Serra. O evento cearense tinha ineditismo, raridade, relevância, importância e senso de oportunidade. Mesmo assim deixou de existir para ‘os senhores telespectadores’ e para o decrescente número de leitores da imprensa escrita.


Deixo também às vicissitudes do tempo, chova ou faça sol, a idéia de se construir uma ponte unindo Recife a Fernando de Noronha (545 km), ou a opção mais em conta e não menos exótica e espalhafatosa da construção dessa mesma ponte agora ligando Fernando de Noronha a Natal (340 km). Promessas assim só servem para uma coisa: engrossar o folclore político e populista do Brasil.

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Mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/10/2010 Marcelo Ramos

    Prezado Diego Mascarenhas, eu diria que o cinismo da Cantanhede e da Folha não é fantástico, mas ontológico e inesgotyável, visto que habita todos os recantos físicos e espirituais desse veículo e nunca se esgota. A Folha hoje só sobrevive de anúncios de seu público e de um público que ainda não ‘acordou’ para a vida. Mas jornalismo, ali, não existe; só existe campanha eleitoral, e do mais baixo nível.

  2. Comentou em 21/10/2010 Diego MASCArenhas

    Alem de não responderem aa pauta delineada pelo colunista do Observatorio, a grande imprensa quer cacifar em cima da bolinha de papel na cabeça do José Serra como sendo atentado à democracia brasileira e seu autor nada menos que o presidente Lula. A artigo da Eliane Catanhede hoje na FSP é de um cinismo fantástico, todo satisfeito por culpar a campanha de Dilma pela reação à truculencia dos seguranças tucanos no Rio de Janeiro. Na falta de fatos forte para colocar Serra como vítima na reta final da campanha vale até bolinha de papel. Sugiro que ele ande em carro blindado pelas ruas brasileiras e então os jornalistas poderiam responder essas 15 pergunta já que nao teria mais com que se preocupar!!

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