Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > CASO JOÃO HÉLIO

Uma vida em sete quilômetros

Por Gilson Caroni Filho em 27/02/2007 na edição 422

Os 7 km que marcaram o calvário de João Hélio, morto ao ser arrastado pelo lado de fora do carro em que estava, revela mais que uma violência epidêmica. Evidencia vazio de sentido e ausência de projeto – tema que a parcela conservadora da sociedade e seus colossos midiáticos não pretendem discutir.

Viver é procurar um sentido para nossos desejos e realizá-los no trajeto.Os sete quilômetros que marcaram o calvário de João Hélio Fernandes, seis anos, morto ao ser arrastado pelo lado de fora do carro em que estava, revela mais que uma violência epidêmica. Evidencia vazio de sentido e ausência de projeto. Um país que, por seus fracionamentos internos, não logrou constituir uma comunidade de pessoas que compartilham destino comum, mostra sua face mais bruta.

O bárbaro assassinato do garoto foi habilmente instrumentalizado pela parcela conservadora da sociedade brasileira e seus colossos midiáticos. Não se pretende debater causas ou promover o pensamento crítico a respeito das complexas bases sociais onde estão assentadas as verdadeiras raízes da violência. Isso, segundo a bílis vomitada na imprensa, é discussão periférica, discurso dos que pregam a inércia ante a ação criminosa.

O que está em curso é um projeto de linchamento, uma vingança classista que, paradoxalmente, clama, ao mesmo tempo, pela Lei de Talião e por uma legislação penal mais severa. Não peçam sensatez nesse momento.Não mencionem a necessidade de implementação de políticas públicas de inclusão. O que vale para os dispositivos agenciados é a desnaturação do ‘outro’ de classe. Algo que o revele como anomalia a ser eliminada. Custe o que custar, doa a quem doer.

Legislação penal mais rigorosa e sistemas prisionais mais punitivos não são apenas demandas simplórias.São,antes de tudo, plataformas de uma ideologia que pretende ocultar o aspecto central do problema: nossa sociedade é estruturalmente violenta e antidemocrática. E é assim que funcionam seus mecanismos fundamentais de reprodução.

Defensores de direitos humanos são apresentados, na estrutura narrativa da grande mídia, como românticos que produzem platitudes a partir de esquemas sociológicos abstratos.Pessoas que ainda não compreenderam que cidadania não requer sujeitos de direito, mas consumidores pacificados pela punição da malta que, sem poder, partilha o imaginário consumista.

O sociólogo Luiz Eduardo Soares, em réplica aos que consideram o Estatuto da Criança e do Adolescente pouco severo indaga: ‘qual severidade melhor serviria á sociedade brasileira? Aquela que é adjetiva, que faz profissão de fé na retórica da intolerância, da dureza policial, do vigor punitivo, mas que na prática concorre para a reprodução da irracionalidade institucionalizada?’

Melhor homenagem

Afinal, o que desejamos? Consolidar avanços ou reforçar descasos? As manifestações conservadoras não deixam dúvida. Discussões sobre desigualdade e exclusão não estão na ordem do dia.

A matéria de capa da revista Época (edição 457, de 19/02/2007) não poderia ser mais didática. O sugestivo título ‘As lições da Colômbia para o Brasil’ remete ao modelo desejado. O texto da jornalista Ruth Aquino não deixa dúvida quanto aos propósitos editoriais da publicação. ‘Como argumentar que no Brasil falta dinheiro para a segurança, se o PIB da Colômbia equivale ao do Estado do Paraná (US$98 bilhões) e o PIB do Brasil é oito vezes maior,US$ 796 bilhões’. E a marcha batida ao uribismo vai até a última linha.

O que não se revela ao leitor é que a política de ‘segurança democrática’ desvia recursos humanos e econômicos que poderiam estar sendo aplicados em soluções de longo prazo, fato que contrariaria os interesses dos grupos de maior poder econômico.Também não são mencionadas as relações estreitas do governo com grupos paramilitares, responsáveis pelo tráfico de cocaína e ataques aos direitos humanos. É omitido ao longo da reportagem que o presidente Uribe ignora com freqüência recomendações da Comissão de Direitos Humanos da ONU e do Gabinete do Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas em Bogotá. Será esse o projeto de país das Organizações Globo? Um Estado que tem em seu entorno o tráfico e o extermínio?

Talvez devêssemos aprofundar o debate a partir das palavras do saudoso Hélio Pellegrino. ‘ Somos humanos na medida de renúncias decisivas, de recalques e exílios amargos, de perdas e danos que ferem de morte nossas exigências ordinárias'( Édipo e Liberdade, 1989). Ou partimos daí ou nos deixaremos levar pela recorrente folhetinização de tragédias.

A melhor homenagem que se pode prestar a memória de João Hélio é não fazer de sua tragédia pretexto para o fascismo de sempre.

******

Professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/03/2007 Ivan Berger

    Já esperava que as seguidas alusões que tenho feito ao Manual do Perfeito Idiota Latino Americano não seriam facilmente digeridas por quem tem o seu DNA.Como tinha certeza de que seria alvo do velho e manjado joguinho de inversão de papéis,típico de quem tem idéias curtas e argumentação recheada de lugares comuns e citações desencontradas.Também faz parte do pacote a rejeição sistemática e veemente às idéias e posições divergentes,bem como a desqualificação e execração dos que ousam pensar diferente,o que já se tornou até rotina em relação a Dines.É essa a concepção deles de debate,diálogo.Quanto a menção ironica a minha fama de jornalista,quem é mesmo que está debochando ? Ah,sim,aquele doutor famosíssimo…

  2. Comentou em 03/03/2007 Ivan Berger

    Já esperava que as seguidas alusões que tenho feito ao Manual do Perfeito Idiota Latino Americano não seriam facilmente digeridas por quem tem o seu DNA.Como tinha certeza de que seria alvo do velho e manjado joguinho de inversão de papéis,típico de quem tem idéias curtas e argumentação recheada de lugares comuns e citações desencontradas.Também faz parte do pacote a rejeição sistemática e veemente às idéias e posições divergentes,bem como a desqualificação e execração dos que ousam pensar diferente,o que já se tornou até rotina em relação a Dines.É essa a concepção deles de debate,diálogo.Quanto a menção ironica a minha fama de jornalista,quem é mesmo que está debochando ? Ah,sim,aquele doutor famosíssimo…

  3. Comentou em 01/03/2007 Abelardo Araujo

    Gostaria de fazer uma retificação: O jornalista Berger não transcreve trecho de Orwell, faz, sim, uma aluzão ao autor de 1984 e revolução dos Bichos. Mas vejam quem ele cita. A direita literária latino-americana. Llosa é um excelente escritor, mas todos sabemos como vê a América Latina e sua atuação política no Peru. Graças a alternativas como ele, os peruanos se jogaram nos braços de Fujimori a quem certamente Ivan Berger não julga um perfeito idiota, mas um estadista de primeira linha. É sensato o santo homem.

  4. Comentou em 01/03/2007 Roberto Afonso

    O problema está em prender garotos de 16 (quem sabe depois passa a ser 14, 12, 10 8, enfim, nascer na jaula???) ou criar ações emergentes pra cuidar dessas pessoas esquecidas nas piores condições de vida???Querem plantar ódio e colher flor??? Lamento muito o que ocorreu com aquela criança no rio! Mais quantas crianças estão em uma situação extrema nesses espaços? Quantos morreram de morte lenta e detestável por falta de estruturas básicas de sobrevivência? o povo só enxerga as coisas quando toda essa violência atinge a classe media branca desse país. Ai se nacionaliza o problema… Mais ai? Qual combate a violência se deve ser priorizada? A carceragem de crianças, ou a problemática étnica de segregação a qual o rio está submetido, as disparidades referentes a condição socioeconômica desse grupo? Concordo com os que acreditam que não tem que se matar bandido, tem que evitar seu nascimento… Como??? vc poderá sugerir isso aqui também!
    PAZ

  5. Comentou em 01/03/2007 Moacir de Silva Castro

    Qualquer pessoa que tenha o mínimo de capacidade cognitiva pode perceber que as situações que vivenciamos hoje de violência juvenil são problemas políticos e devem ser atacadas na sua gênese, ou seja, atacar as consequências é ‘chover no molhado’ devido a baixa eficácia.

  6. Comentou em 01/03/2007 Diogo Figueiredo

    Quem acredita que mais anos de prisão ou redução da idade penal ressocializam nada sabe sobre as condições carcerárias do país. Se não acreditam e ainda assim defendem mais encarceramento, querem um zoológico humano. Se estivermos lidando com sociopatas( existem no mundo inteiro), não há sistema que dê jeito, a não ser a internação em manicômio judiciário. Mas acho que alguns aqui querem a destuição do infrator como se fosse não-humano. Nesse momento se igualam a ele.

  7. Comentou em 01/03/2007 Apolonio Silva

    Senhores, lamento muito não compreender seu espírito democrático, que pretende de antemão cunhar de ‘fascista’, de ‘direitista’, de ‘desumano’, de amiguinho dos ‘militares de 64’ (essa foi demais…) aqueles que discordam de vossa opinião, mas a minha é que a legislação deve ser endurecida. Para mim é óbvio. Se isto é democrático não sei. Deveria haver uma consulta popular para saber o que as pessoas, o que a sociedade como um todo pensa sobre este assunto e assim teríamos uma decisão ‘democrática’ ao gosto de quem tanto escreve sobre democracia por aqui. Qual seria o resultado? Seria o resultado que a sociedade brasileira escolheu…não sei qual!!! Mas minha posição seria essa. E podem vir com essa ladainha repetitiva ao extremo com todos esses rótulos gastos porque o que está posto está posto, e nenhuma manobra desse tipo, nenhuma gritaria, intimidatória, moralista, poderia ser utilizada numa comparação direta com vários países que estão tomando medidas contra a violência. Não somos o único país no mundo, não somos reféns de problemas exclusivos, somos uma sociedade com problemas típicos. Podemos aprender muito com comparações de resultados e políticas de outros países. Está posto: é o discurso imobilista que prefere ver a fila andar e acha que convence todo mundo (e se reveste de democrático!), contra a possibilidade (mínima!) de alterações que deram bons resultados.

  8. Comentou em 01/03/2007 Carlos Affonso Almeida

    O site está sendo vítima de um ataque especulativo de autoristarismo. Viva Venício, LAM e Gilson Caroni Filho! Não só pelo que escrevem como pelas reações coléricas que provocam nos que odeiam a democracia e, talvez, a humanidade.

  9. Comentou em 28/02/2007 Cláudia Raphael

    É interessante o raciocínio do senhor Apolônio. A solução estaria na transposição mecânica de instituições que nada têm a ver com a nossa realidade. Mais interessante é a leitura que ele fez do artigo e dos comentários. Ninguém disse que a culpa era dos pais. Dissemos que numa sociedade a criminalidade não ocorre apenas por má índole. Talvez ele não tenha pensado sobre isso quando os playboys de Brasília mataram um índio pataxó. Ninguém viu a mídia empenhada em mobilizar a sociedade contra os criminosos do andar de cima. Até hoje, há chacinas nas periferias e o nosso físico propõe o quê? Exemplos bem sucedidos do exterior? Como acabar com palafitas e favelas? Uma experiência muito bem sucedida na Europa se chamou reforma agrária? Será que o Sr. Apolônio endossa tal medida aqui ou é um dos que chamam os líderes do MST de baderneiros. Não ao fascismo, sr. Apolônio. Não mesmo. Rasgue sua Veja e veja.

  10. Comentou em 28/02/2007 Alveni Lisboa

    Excelente! Fazia tempo que não lia um texto tão bem articulado e sensato. Chega dessa hipocrisia de tomar medidas punitivas, quando a solução é a prevenção. As pessoas que posicionam-se contra, provavelmente não conhecem a realidade penal brasileira e, muito menos, o contexto violento no qual os jovens estão inseridos (seja ele pobre ou rico, mesmo que o índice seja maior nos jovens das periferias, os ricos também vivem um clima violento)

  11. Comentou em 27/02/2007 Caio Salles

    Professor, o bem à coletividade produzido por seus artigos são incontestáveis. Pena que não escreva com mais assiduidade para o Observatório. Na campanha eleitoral, sua participação foi decisiva. Novamente em momento delicado da vida nacional, sua ponderação é importantíssima. Quero ver quem vai contra-argumentar? Qual o lenga-lenga que será empregado? Nossa mídia precisa ser fiscalizada e não com afagos, mas com a pegada forte de um cidadão que não tem medo de incomodar os fascistas que não se conformam com a perda de prestígio político

  12. Comentou em 27/02/2007 Guilherme Souza

    A revista Época já não faz mais parte das minhas leituras e não preciso dizer porque. Tudo o que você disse é realmente o que acontece. A pimenta arde nos olhos da gente também, e como arde

  13. Comentou em 27/02/2007 Aline Hoskens

    A mídia não pode pautar a segurança pública. Quem esses senhores imaginam que são? A soma dos três poderes? O professor Gilson Caroni põe o pingo no i com precisão. O que dirão nossos fascistóides de plantão?

  14. Comentou em 27/02/2007 Aline Hoskens

    A mídia não pode pautar a segurança pública. Quem esses senhores imaginam que são? A soma dos três poderes? O professor Gilson Caroni põe o pingo no i com precisão. O que dirão nossos fascistóides de plantão?

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