Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > IMPRENSA & CRISE POLÍTICA

Uma pesquisa oportunista

Por Luciano Martins Costa em 18/03/2015 na edição 842

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 18/3/15 

Os principais diários de circulação nacional trazem na quarta-feira (18/3) duas reportagens valiosas para a análise da crise política. Numa delas, a Folha de S. Paulo apresenta um levantamento da popularidade da presidente da República, onde ela, evidentemente, aparece com alta taxa de reprovação. No outro assunto, tanto a Folha como o Estado de S. Paulo e o Globo citam um documento supostamente reservado, com uma análise extremamente negativa sobre a política de comunicação do governo federal.

A pesquisa Datafolha não pode ser considerada apenas em seus aspectos estatísticos. Aliás, embora o jornal dê toda ênfase aos números – que apontam o mais baixo índice de aprovação de um governante desde o fim do mandato de Fernando Collor de Mello –, o que importa aqui é a circunstância em que foram colhidas as opiniões. Os pesquisadores do instituto saíram às ruas precisamente nos dias 16 e 17, logo após as manifestações de protesto contra o governo – estimuladas pela imprensa –, o que, com certeza, condiciona um grande número de respostas.

Interessante observar também que o levantamento inclui perguntas sobre a situação econômica, que revelam igualmente um aumento do pessimismo, curiosamente numa circunstância em que o noticiário aponta perspectivas mais otimistas sobre a economia (ver aqui, aqui e aqui).

Evidentemente, as respostas sobre a avaliação da presidente sofrem forte influência das manifestações e da cobertura intensamente negativa feita pela imprensa no período. Da mesma forma, é ocioso afirmar que, no clima conflagrado, a perspectiva dos consultados sobre a situação econômica tenderia a ser a pior possível.

Para os observadores da imprensa, a quarta-feira produz um exemplo de como funciona o círculo de convencimento da mídia tradicional. Como se sabe, a Folha de S. Paulo estimulou a participação dos leitores nas manifestações do domingo, dia 15, oferecendo espaço em seu portal, o UOL, para fotos e vídeos dos protestos. A iniciativa foi copiada por outros jornais e portais da internet. Em seguida, o Datafolha sai a campo para referendar, com uma pesquisa oportunista, o que seria o ânimo da população com relação ao governo e à economia do país.

A comunicação errática

O outro assunto destacado pelos jornais – um estudo interno do Planalto sobre a crise política – é o reverso do quadro. Esse quadro mostra, de um lado, uma imprensa partidarizada agindo de maneira extremamente eficiente no processo de demonizar o grupo político que ocupa o Planalto e, do outro, um governo incapaz de produzir uma estratégia de comunicação minimamente funcional.

O próprio vazamento do estudo, apontado como um “informe interno”, revela a incapacidade do Executivo de sequer manter em território restrito documentos de seu interesse. Trata-se de um relatório não assinado (ver aqui), portanto anônimo e, por isso, possivelmente apócrifo.

O que fez com que os três principais diários de circulação nacional o aceitassem como um documento oficial? Evidentemente, o que dá credibilidade ao texto é sua fonte, ou seja, quem vazou o documento é reconhecido como alguém ligado ao governo.

A situação lembra um episódio ocorrido durante o governo do ex-presidente Lula da Silva, quando a Folha de S. Paulo publicou uma nota dizendo que havia um “espião” no Planalto vazando informações para a imprensa. Ora, conforme se revelou posteriormente, o “espião” era um funcionário de confiança da Secretaria de Comunicação, que havia feito carreira na própria Folha, e que se dedicava, em suas relações sociais, a contar anedotas sobre reuniões ministeriais e sobre o próprio presidente Lula.

Não é de hoje, portanto, que os governos do Partido dos Trabalhadores se veem em situação desconfortável diante da chamada opinião pública, por conta de uma comunicação amadorística, sem rumo e, quase sempre, vulnerável às manipulações da mídia tradicional. Nos três mandatos sucessivos da aliança que governa o país desde 2003, são raros os momentos em que a Secom deu demonstrações de ter uma estratégia coerente com o que se espera de um governo com o perfil petista.

O relatório que a imprensa reproduz diz que o Brasil vive “caos político”, conforme destaca o Estado de S. Paulo em manchete, e afirma que o governo produz uma comunicação “errática”.

Não se pode afirmar que se trata de um documento válido, ou se é parte de conspirações internas entre assessores da presidente. Mas a surra que o Planalto está sofrendo na disputa pelo apoio da população mostra que o autor do texto sabe do que está falando.

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