Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA MINEIRA

Unanimidade e pensamento único

Por Daniel Florêncio em 16/01/2007 na edição 416

Minas passa por um momento único. Várias forças se uniram em torno de um nome em prol do desenvolvimento do estado, com a expectativa de uma maior relevância no cenário nacional. A reeleição do governador Aécio Neves, com quase 80% dos votos válidos, é sinal de que a população também apóia esse projeto. Aécio Neves é unanimidade em Minas Gerais. E seus interesses não são segredo para ninguém: ao seu nome ser mencionado em qualquer canto do país, logo vem o comentário: ‘Vai ser o próximo presidente!’

É inegável o olhar progressista de Aécio. Seu governo e sua equipe são responsáveis por algumas das mais importantes obras realizadas no estado nos últimos tempos. É difícil não reconhecer a importância que a Linha Verde terá para o desenvolvimento da capital, ligando o centro ao aeroporto de Confins, que antes se encontrava quase abandonado. A transferência do centro administrativo do estado da Praça da Liberdade para a periferia, no antigo hipódromo Serra-Verde, só pode ser vista com bons olhos, descentralizando a administração e desenvolvendo áreas que precisam de atenção. A Estrada Real, iniciativa que vem revitalizando o turismo em Minas Gerais…

Analisando tantas outras obras, iniciativas e projetos, o governador Aécio Neves mostra que tem um olhar diferenciado em relação à administração pública. Sua visão progressista, ao final de seu segundo mandato, certamente colocará Minas em um patamar diferente do que encontrou quando foi eleito governador pela primeira vez.

A não-crítica e a homogeneidade

Porém, o crescimento e a relevância de Minas Gerais no cenário nacional não estão apenas ligados a uma visão progressista e desenvolvimentista de seu governador. O Brasil aparenta já ter fortalecido muitas de suas instituições democráticas, porém algumas ainda estão em processo de se tornarem mais eficazes. A imprensa em particular, e a mídia em geral, são dois deles.

A importância dos meios de comunicação na representação de uma sociedade é imensurável, e sua independência fator fundamental para o surgimento do livre pensamento, crítica, debate e para a divulgação de idéias e cultura. Assim, seu crescimento, sua maior relevância e significância resultariam no crescimento e maior relevância e significância da sociedade em que estão inseridos.

Em Minas, no entanto, o conluio de forças em torno do governador inclui também os meios de comunicação. Erroneamente, a crença dessas forças é de que para que o projeto de poder de Aécio e a maior relevância mineira no cenário nacional (leia-se, Aécio eleito presidente da República) se farão através da unanimidade, do pensamento único, da não-crítica e da homogeneidade. Tal situação gera um cenário de desconforto entre os profissionais da mídia, mais especificamente os de jornalismo, pois, havendo o interesse dos empresários de mídia em impulsionar a imagem do governador, corre em paralelo uma censura velada. Nunca se sabe qual o limite do pensamento e da crítica, se é que pode haver alguma em relação ao governador.

Um erro estratégico

Se o interesse dessas forças é realmente alavancar Minas e Aécio para a presidência da República, não deveria esse processo ser realizado fortalecendo-se as instituições democráticas em Minas – dentre elas, a mídia e a imprensa – ao invés de promover apenas o nome do governador? Ao se prestar a esse papel, a já pobre e minguada mídia mineira, sem nenhuma relevância nacional, coloca-se em uma posição de vulnerabilidade, criando laços orgânicos com uma administração na expectativa de ganhos futuros. Prestam-se ao ridículo quando se constata uma melhor cobertura do estado por parte de jornais de outros estados, como a Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S.Paulo, que designam repórteres para cobrir Minas Gerais.

Esse é o grande erro estratégico do projeto nacional de Aécio e dos que o apóiam. Desqualificando e minando a capacidade de pensamento e crítica dos profissionais da mídia e jornalistas para criar unanimidade, eles minimizam o papel desses veículos no cenário nacional, impedem que ganhem relevância nos país, pois relevância e importância se dão com o exercício do pensamento plural – e o pensamento plural não é permitido na imprensa mineira. Uma imprensa forte é tão ou mais importante do que chegar do aeroporto internacional ao centro em 25 minutos.

Quando chegar o momento do confronto, de medir forças, a unanimidade construída que Aécio tem em Minas será pouco frente o poder e influência da mídia e da imprensa paulista e carioca, que jogarão segundo os interesses de seus próprios estados. E a imprensa mineira, mais uma vez, não irá para além das montanhas.

O governador de Minas, apesar de ser visto como administrador jovem, competente, moderno e progressista, ao criar essa unanimidade mina o poder de pensamento e crítica de um pilar fundamental da democracia – a imprensa (no caso, a mineira) –, e age como os velhos lobos da Velha República.

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