Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Vão-se os dedos, ficam os anéis

Por José Isaías Venera em 15/03/2016 na edição 894

Vamos inverter o ditado popular: “Vão-se os dedos, ficam os anéis.” Quando a pauta é uma velha conhecida, a corrupção, mudam os personagens, mas a prática continua. Mas será mesmo? Se a inversão funciona, o problema é estrutural? Se for, todas as partes que compõem a estrutura estão envolvidas. Basta olhar um pouco mais atento para ver que o governo é como a ponta de um iceberg, escondendo o grosso da estrutura que vem se expandido desde que o Brasil é Brasil.

A imprensa não fica de fora – basta retomarmos o velho debate sobre a autonomia relativa do jornalista em que este se vê subordinado a uma rotina de produção, no veículo de comunicação, transformada em norma. Isto deixa o debate sobre a noção de liberdade com um ar de romantismo que ninguém mais leva muito à sério, não deixando de ser apenas um princípio para legitimar o jornalismo e compor a identidade do jornalista. A esse processo, Nelson Traquina chama de ethos, que vai forjar um modo de agir, de ser e de vivenciar o jornalismo. Mas o veículo é uma empresa que tem interesses políticos e econômicos e age também para interferir na partilha do Estado. Em alguns casos, esses interesses ficam mais explícitos, em outros, aparecem em forma de erro.

Um exemplo do momento é a “gafe”, como corriqueiramente se fala, da jornalista da GloboNews, Renata Lo Prete, durante a apresentação do Jornal das Dez, na terça-feira (8/03), ao se referir duas vezes a Dilma Rousseff como ex-presidente. Não à toa, e para precisar, atos falhos vêm revelar conteúdos que deveriam ficar sob sigilo. Na psicanálise esse lugar em sigilo é o inconsciente. No jornalismo, pode-se dizer que é o lugar ideológico, em que seu conteúdo verdadeiro deve ser mantido sob sigilo aos olhos do seu público, como, por exemplo, na falta de equidade ao noticiar casos de corrupção.

O ato falho vem como um erro, o que escapa dessa intenção de deixar oculto o que não se pode tornar público. Depois que o jornalista Gerson Camerotti corrige o erro da apresentadora, seu reconhecimento foi ainda mais revelador: “Estou confundindo as bolas.” A confusão foi de não conseguir deixar sob sigilo o que se deseja ao notificar tais fatos e sob determinado ponto de vista.

Mas, tudo isso vem compor um grande espetáculo para mediar as relações sociais. Vejamos os fatos. A semana mal começou e, após a condução coercitiva levando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para depor na 24ª fase da Operação Lava Jato, o que mais se viu nas redes sociais, com repercussão na grande imprensa, foi a convocação para a manifestação contra o governo da presidenta Dilma Rousseff no domingo (13/03).

Ficamos com a percepção de que as funções, às vezes, parecem invertidas. A grande imprensa, em alguns casos, age como se fosse assessora da oposição, já que não tem fatos para construir uma notícia, apenas divulgar o que está agendado. Não foi assim, por exemplo, que se fez com os recentes shows da banda Rolling Stones no Brasil? É a chamada mídia espontânea. É certo que no caso da banda o espontâneo vem como um plus, uma divulgação a mais do que já foi pago.

Os passos para mudar os dedos dos anéis

Nos protestos de 15/03 do ano passado o comportamento da grande imprensa foi o mesmo. O filósofo Vladimir Safatle, à época, chegou a afirmar que era “uma verdadeira notícia antes do fato. Depois de todo este trabalho, não tinha como dar errado”.

Primeiro, uma suposta delação premiada (que em breve deve ser confirmada) do senador Delcídio Amaral que vaza do segredo de justiça e ganha destaque na revista IstoÉ (03/03). Em parte podemos concordar com o argumento de Eugênio Bucci, de que é tarefa da imprensa tornar público o que é de interesse da sociedade. O problema nesta análise, com todo respeito ao Bucci – referência para todos nós –, é que as ocorrências seletivas esgotam os pilares do jornalismo, da objetividade e da imparcialidade.

No dia seguinte (4/03), a Polícia Federal realiza busca e apreensão e condução coercitiva levando Lula para depor. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello, na ocasião se manifestou: “Condução coerciva? O que é isso? Eu não compreendi. Só se conduz coercivamente, ou, como se diz antigamente, debaixo de vara, o cidadão que resiste e não comparece para depor.”

Nem mesmo Franz Kafka, em O processo, teria chegado tão longe com seu personagem Josef K., que acorda certa manhã e vê dois policiais que estão ali para cumprir uma ordem de prisão contra ele, que será submetido a um longo processo por um crime que permanecerá desconhecido (sem considerar o final da história), tão desconhecido quanto a suposta delação premiada do senador.

A verdade é o espetáculo

Casualmente, a suposta delação em sigilo e a operação vazam para a imprensa – sendo que do ponto de vista do jornalismo foi resultado de um trabalho de investigação, cumprindo assim a tarefa de defender os interesses da sociedade.

A manhã do dia 4/03 já começa com o evento agendado pela imprensa. Parte dos espectadores não foram pegos de surpresa e ficaram com a impressão de que nem a cobertura da morte do papa João Paulo II, em 2 de abril de 2005 – considerada entre as maiores coberturas da história do jornalismo –, cujo agendamento se justificava pela previsibilidade dos fatos, ganhou tanto espaço no noticiário brasileiro.

Não demorou muito e o acontecimento repercutiu internacionalmente. The Wall Street Journal, BBC, The Guardian, El País, Le Figaro e Clarín já davam visibilidade para a condução coercitiva de Lula.

As condições pelas quais se deu a operação, batizada de Aletheia (que em grego significa “busca da verdade”), resultaram numa sucessão de quebra de ritos – expresso pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello –, fazendo da própria noção de verdade uma invenção do juiz Sérgio Moro com a parceria da imprensa – mas é certo que a mídia está no seu papel, no que compete, a princípio, a ela.

A verdade é o espetáculo. Mas entre uma e outras manchetes sobre o caso, podiam-se ler algumas particularidades. Na Folha online de 5 de março: “Eduardo Cunha respira com foco de operação em Lula e Dilma”. Se, de um lado, o que se tem é um suposto depoimento, de outro sobram provas concretas – como documentos bancários de contas correntes no exterior, documentos referentes à Petrobras e documentos relativos à CPI etc. –, mas estas não são evidências à altura de um acontecimento ao estilo kafkiano.

Lula é o sintoma social

A pergunta vem como uma ironia: como a Rede Globo sabia da ação da operação Lava Jato contra Lula? Ironia que esconde uma alienação frente ao que já se sabe de antemão: não se trata de fazer justiça, mas sim, de disputa do campo político. A corrupção é um pretexto – já que ela é estrutural. Aqui, caberia a fala atribuída à Cristo: “Atire a primeira pedra quem nunca pecou.” O que não significa ser conivente com o desvio do dinheiro público, diferente de uma posição justiceira que, daí sim, literalmente, segue essa máxima: caso contrário, Cunha não estaria ainda na presidência do Congresso Nacional livre de panelaços e passeatas; Aécio já teria sido indiciado pelo Caso Furnas e FHC não estaria imune à justiça desde 1997, com a compra de votos no Congresso para garantir a sua reeleição.

Por fim, todos sabem que não é a corrupção que está na disputa. Sabem que o problema é outro, mas é como se a verdade fosse dura demais para ser mostrada – lembremos do que Édipo fez com seus olhos depois que o oráculo de Delfos revelou a verdade incestuosa. A escolha de boa parte da sociedade têm sido não ver que a operação Lava Jato é seletiva, assim como a grande imprensa na escolha do que entra na grande vitrine do espetáculo. É essa falta de equidade na condução do processo que faz do próprio objeto de denúncia uma verdade inventada.

Parecia que o país tinha parado para ver o circo midiático pegar fogo. Se Lula é o sintoma social, é também o objeto fóbico que produz cólera. Coloquemos esse raciocínio na ordem do discurso de Lacan quando afirmou que foi Marx, e não Freud, quem primeiro descobriu o sintoma. O sintoma como consequência do excedente produzido pela força de trabalho e expropriado, o que na clínica psicanalítica aparece como mais-de-gozar, na médica que os objetos apontados (ou as queixas) pelos analisantes como causadores do mal-estar são apenas metáforas de um objeto faltante que só se revela enquanto ausente.

Lacan é categórico nas suas incursões marxianas: o proletário é o sintoma do capitalismo. O que isto quer dizer? Que ele não faz laço social e por isso é sintoma social. Agora, quando inserimos nesta lógica o lulismo, parece que algo não funciona bem. Os oito anos de Lula presidente e o primeiro mandato de Dilma Rousseff foram suficientes para erradicar a fome no país; para criar milhões e milhões de novos postos de trabalho; ampliar, sobretudo, a presença de pobres e negros nas universidades etc. Não seria este um gesto para fazer laço social? Paradoxalmente, Lula e o PT deram mais oxigênio ao capitalismo, afastando a possibilidade de uma revolução como única alternativa de mudança estrutural para colocar em prática a utopia de esquerda de acabar com a exploração do homem pelo homem.

Dialética da barbárie

Ao contrário disso, colunistas conhecidos que integram este grande espetáculo midiático nem ao mesmo conseguem omitir o desejo de ver a história se repetir no golpe militar. Na coluna de política do O Globo do sábado (5/03), Ricardo Noblat nos dá pistas disso já pelo título: “A crise ganhou um novo componente. Ele veste farda e pilota também”. Às portas do golpe midiático-civil-militar de 1964, O Globo, em 20/03/1964, estampa a manchete “São Paulo de pé em defesa da democracia” ao cobrir a “marcha da família” que pedia intervenção militar. Em 2013, no editorial de 31/08, O Globo assume: “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”. Como temos visto, as palavras omitem o desejo de quem as pronuncia, mas precisamos analisá-las como projeção do desejo, assim como no discurso atual do Noblat.

Não se reduz o sintoma capitalista sem reduzir a desigualdade social. O grau zero dessa desigualdade é a eliminação da diferença de classe (seria o próprio fim das classes sociais). O sentimento que acomete o país não é pela corrupção – ela não é pauta nova na cena política e empresarial. O que acomete o país é o desejo de negar o direito de humanidade, de inclusão, de participação na vida social. Se este raciocínio procede, Lula é a metáfora do que não se quer: reduzir o sintoma social. Pode-se entender melhor por que o ódio a qualquer discurso que não faça apologia ao capital. Aqui cabe a tese de Walter Benjamin retomada pelo filósofo Giorgio Agamben: “Deus não morreu. Ele tornou-se dinheiro.”

Certa vez, em análise, Suzanne Hommel narrou para Lacan um sonho que teve em que acordava sempre às 5 horas, e acrescentou: “Era às 5 horas que a Gestapo vinha procurar os judeus em suas casas.” Lacan, então, levantou-se imediatamente da sua poltrona e faz um carinho no rosto de sua analisanda para, em seguida, falar: “Eu entendi: geste à peau.” Se o sintoma é uma narrativa que se constrói sobre um evento, Lacan ao evocar “gesto para a pele” no lugar de Gestapo, fez da barbárie sofrida por Suzanne um gesto dialético de restituição da humanidade onde parecia não mais existir.

Barbárie é reduzir o outro à condição de animal, retirando-lhe a palavra, o direito à fala, o direito de se enlaçar numa narrativa que traga dignidade à sua vida. Quando isso acontece, é preciso um gesto que restitua o sujeito na condição de humano, de restabelecer os sentidos, ou seja, criar uma nova marcação no imaginário, como no passar, por meio de um trocadilho de palavras, do significante – Gestapo – para outro – geste à peau, fazendo Suzanne 40 anos depois ainda lembrar do gesto de Lacan em seu rosto.

Se trouxéssemos esta experiência clínica – presente no documentário Um encontro com Lacan e revisitada por Conrado Ramos em palestra ao Instituto Fox – para o campo social, teríamos no lugar da analisanda de Lacan todos aqueles que se posicionariam no lugar de resto do sistema. Chamemos o sistema, a alma do que se imagina ser o capitalismo, como o grande Outro. O que colocaria, então, esse grande Outro em risco é a sobra, o resto, o que não faz laço social com a ordem do sistema, mas que reivindica seu direito na partilha. Por esta via, pode-se entender o ódio daqueles que se identificam demasiadamente com o grande Outro ao insultar, por exemplo, nordestinos (basta lembrarmos das falas de ódio na última eleição para presidente), negros e pobres contemplados pelos programas sociais etc. Aqui não se fala do pobre, negro, nordestino em si, mas de como os sujeitos estão implicados com os discursos e com os eventos e fazem de suas falas e fala do grande Outro.

A volta do sintoma

Não há real, mas processos de identificação, de tal forma que se poderia ter um sujeito economicamente bem-sucedido que se coloca no mesmo gesto de Lacan, de trazer dignidade aos que não fazem laço social (como os judeus impedidos de fazer laço social com o nazismo).

Nesse mesmo sentido, proletariado não quer dizer operário, ou classe dos trabalhadores, mas uma posição de resto frente ao discurso dominante. Se o ódio é porque o resto da soma está sendo sublimado, elevado à condição de dignidade, Lula é o objeto fóbico, o representante da representação (do resto da soma) do que não deixa o grande Outro se efetivar por completo. Não à toa, vem ganhando volume a crença de que o capitalismo depende da redução de impostos (há até os discursos mais caricatos, de que seria preciso eliminar todos os impostos).

Poderíamos dizer sem receio que Lula é o objeto fóbico hoje da grande mídia. Também seu objeto fálico – basta ver a histeria de pudor depois da divulgação do vídeo da deputada Jandira Feghali em que aparece ao fundo Lula evocando um palavrão. A título de exemplo, para falar de fobia, pensemos no cavalo para o pequeno Hans, que Freud chamava de compensação e Lacan de metáfora. O cavalo funciona apenas como a representação de outra coisa (compensando a repressão sexual). Por isso, por estar no lugar de outra coisa, o objeto fóbico é plástico, podendo se deslocar de um para outro (metáfora). Mas enquanto objeto que representa sempre outra coisa que não ele mesmo, seus traços já bastam para causar fobia, como ouvir o relinchar ou ver a imagem de parte de um cavalo numa revista etc. – processo que Lacan, por sua vez, chama de metonímia. Ora, Lula não representa ele mesmo, nem seus atos empíricos, mas sim, outra coisa que causa cólera nos sujeitos demasiadamente identificados com o sistema que favorece poucos em detrimento da maioria. Basta ouvir sua voz, ver sua barba, ou até mesmo a ausência de um de seus dedos (processos metonímicos) para o sintoma retornar com toda violência.

Nada mais revelador do que a linha de apoio da coluna de Reinaldo Azevedo na Veja.com um dia depois da condução coercitiva de Lula: “Pelo visto, líder petista quer sangue nas ruas para ver se continua vivo, como um vampiro. Não é o caso de ceder à provocação dos zumbis.” Revela seu desejo de eliminar o objeto fóbico sob pena de não salvar o sistema a quem é servil.

O que significa eliminar o mal pela raiz? Deixar que o resto que não faz laço social no capitalismo morra sem que se torne sintoma para os que estão identificados com o sistema?

***

José Isaías Venera é jornalista e professor universitário

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