Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ENTRE ASPAS >

Vera Rosa

01/12/2005 na edição 357


‘Dois anos e onze meses depois de subir a rampa do Palácio do Planalto carregando os sonhos da geração de 1968, José Dirceu de Oliveira e Silva sai da cena política cassado e com uma obsessão: provar que foi injustiçado pela Câmara.


Agora, vai escrever um livro contando os bastidores dos 30 meses em que foi ministro-chefe da Casa Civil – o mais poderoso do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Promete revelações, principalmente contra desafetos. ‘Só eu sei o que passei’, diz o ex-deputado.


Sem abandonar o estilo de guerrilheiro, que durante 120 dias tentou salvar o seu mandato, ele é taxativo: ‘Não vou me dobrar.’ Dirceu ficou magoado com Lula – que só resolveu ajudá-lo nos últimos dias de agonia -, mas garante que as estocadas do livro não vão acertá-lo. ‘Vou continuar defendendo o PT e o presidente Lula’, afirma.


Sua história começará a ser narrada na próxima semana ao jornalista Fernando Morais. O livro será escrito na primeira pessoa. Dirceu vai se submeter a interrogatório diário de oito horas, durante dez dias.


No início de 2006, antes do lançamento do livro – previsto para abril -, o ex-ministro pretende viajar para os Estados Unidos. Emissários da secretária de Estado americano, Condoleezza Rice, com quem Dirceu mantém bom relacionamento, chegaram a convidá-lo para passar uma temporada em Washington e fazer palestras sobre a situação do Brasil.


Se aceitar o convite, o ex-deputado petista ficará hospedado na casa do amigo Bill, integrante do Partido Republicano. Planeja estudar inglês e permanecer na capital americana por um período que pode ir de 20 dias a dois meses.


O ex-ministro, ex-deputado e ex-presidente do PT não quer, porém, se afastar do Brasil por muito tempo. Mesmo cassado, jura que trabalhará pela reeleição do presidente Lula, mas com condição: desde que o presidente se comprometa a mudar a política econômica num eventual segundo mandato.


‘Fomos prisioneiros de uma visão muito ortodoxa e isso não pode continuar’, opinou Dirceu. ‘Essa política de juros altos precisa ser revista para tornar viáveis os investimentos.’ ‘Quero ser militante e ter papel suprapartidário.’ Em conversas reservadas, ele tem defendido a fusão, a longo prazo, do PT, PSB e PC do B.’



Maria Lima


‘‘Não vou me dobrar, não vou cair’, desafia Dirceu antes da votação’, copyright O Globo, 1/12/05


‘Na última chance de convencer os deputados a votarem contra sua cassação, o deputado José Dirceu (PT-SP) fez ontem em plenário o seu mais emocionado desabafo, às vezes em tom de despedida, pedindo justiça mas não misericórdia. Ele se definiu com um sobrevivente e confessou ter chegado a um ponto de verdadeira agonia, de inferno e de degola política.


Disse que queria amanhecer hoje como o cidadão que prestou contas à Câmara. Contestou as acusações de envolvimento no escândalo do mensalão, refutou qualquer relação com o empresário Marcos Valério de Souza e com os bancos Rural e BMG e debitou na conta do PT o erro de ter buscado os empréstimos por meio das empresas de Valério.


‘Saberei receber qualquer que seja o resultado’


Dirceu disse que nos 30 meses em que esteve no governo não prevaricou, não se omitiu e nem participou de qualquer ato de corrupção. Disse que tem as mãos limpas e que sempre combateu a corrupção por onde passou. Apelou para os deputados, dizendo que não queria clemência nem misericórdia, mas justiça, e que seria uma violência encerrar uma vida pública de 40 anos, sem provas, e ficar até 2016 no exílio político. Disse ainda que, ao julgá-lo, a Casa estava fazendo um auto-julgamento.


– Falo isso com serenidade e tranqüilidade. Saberei receber qualquer que seja o resultado. Eu não vou me dobrar, não vou cair. Vou continuar na minha luta simples para provar minha inocência. Vou refazer minha vida em cinco, dez anos. Mas que cada deputado e deputada se ponha em meu lugar. Vou ficar dez anos fora da vida pública, até 2016. Vou estar com 70 anos. É bem verdade que com o avanço da medicina terei mais 30 anos de vida – disse Dirceu.


O deputado disse que está disposto a continuar lutando em todos os foros para provar sua inocência, mas que fazia questão de ser inocentado pela Câmara:


– Estou disposto a continuar respondendo a qualquer acusação em qualquer instância, mas onde eu quero ser inocentado é nesta Casa, pois honrei o mandato que o povo de São Paulo me deu.


Muito aplaudido pelos aliados, Dirceu admitiu, por fim, que foi extremamente doloroso deixar o governo Lula. Todo o tempo ele defendeu o governo. Sobre o PT, disse que seu partido pode ter cometido erros, mas tem mais créditos do que débitos:


– Servi ao governo do presidente Lula por 30 meses com honra, orgulho e paixão. E digo aqui hoje: a pior coisa foi ter de deixar o governo.


Em diversos trechos do discurso, Dirceu disse que repelia as acusações, muitas das quais considera infundadas e alimentadas pela imprensa, e que estava sendo julgado por motivos políticos. Disse que nenhum tribunal aceitaria a perda de mandato de um parlamentar por motivos políticos, pois isso seria um fato estranho à democracia e às leis.


– Não posso ser cassado por minha história, pela minha biografia ou pela minha personalidade. Não sou réu confesso. Jamais assumi a culpa do que não fiz. Cometi muitos erros políticos e pago caro por eles, mas erros políticos, não ilícitos. Quero repetir: tenho as mãos limpas.


Emocionado, mas firme em seu discurso de improviso, que durou 41 minutos, Dirceu disse que era um sobrevivente, e que poderia ter sido assassinado durante a ditadura.


– Sou um sobrevivente, não tenho valor pessoal próprio ou qualidades pessoais próprias. Mas aprendi com a vida. Por razões de vida não caí em combate, não virei um desaparecido político. Cheguei em São Paulo com 14 anos e consegui um emprego, não virei delinqüente.


Petista nega novamente ter participado de negociações


Rebatendo cada acusação, ele disse que jamais tratou com Valério ou com qualquer empresário assuntos que não pudessem ser abordados em público.


– Não participei de negociações financeiras com o publicitário Duda Mendonça nem com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto.


No início de seu discurso, disse que a Câmara se transformaria num tribunal de exceção se seu mandato fosse cassado sem provas de quebra de decoro.


– Degola política existia na República Velha, mas não podemos permitir que isso aconteça aqui. Se houvesse alguma prova contra mim, aceitaria a discussão da perda do mandato, mas não há nada que possa caracterizar a quebra de decoro parlamentar.


Ele acusou a imprensa de ser partidária e disse que não seria justo perder o mandato por causa de sua personalidade.


– Não posso ser cassado por não ter atendido telefonemas e por não ter marcado audiências; isso seria uma violência contra os meus 40 anos de vida pública’, ressaltou.’



César Benjamin


‘Pisavam nos astros, distraídos… ‘, copyright Folha de S. Paulo, 30/11/05


‘Leio na coluna de Eliane Cantanhêde, publicada em 25 de novembro, que ‘Brasília está em pé de guerra’. Sinto, mais uma vez, o abismo que separa, de um lado, o caráter épico do nosso noticiário político, recheado de metáforas militares -ofensiva, defensiva, mobilização, fogo cruzado, recuo, contra-ataque-, e, de outro lado, a absoluta desimportância da política brasileira atual, quando julgada à luz dos grandes problemas nacionais.


A Amazônia queima, as escolas continuam a despejar nas ruas legiões de analfabetos funcionais, o Brasil perde posições no mundo (já fomos a oitava, somos hoje a décima quarta economia industrial). Mas há meses, na capital da República, não se faz outra coisa senão um imenso acerto de contas entre grupos que disputam e compartilham o poder. A política brasileira ficou insuportavelmente pequena. Os políticos, cada vez mais, fazem teatro e governam a si próprios. O Brasil está à deriva.


Um governo deve ser julgado não só pelo que faz, mas pela agenda de questões que propõe e transmite ao país. Debateu-se muito, no segundo governo Vargas, a criação da Petrobras e do BNDE (hoje BNDES). O Plano de Metas e a construção de Brasília produziram grande polêmica, sob JK. Jango foi derrubado pelas reformas de base que se propunha fazer.


O grande debate que o governo do PT legou à nação, e que nos paralisará por mais um ano, é se Lula e José Dirceu conheciam o ‘mensalão’.


Eles juram que não. Os esquemas eram coisa do doutor Delúbio. Não tenho como desmentir essa afirmação. Porém, se Delúbio captava o dinheiro sozinho, por sua conta e risco, então tinha de decidir sozinho como gastá-lo. Pois ninguém pode ser chamado a opinar sobre o uso de recursos cuja existência desconhece.


O que Lula e Dirceu estão dizendo é que nunca foram informados sobre essas dezenas ou centenas de milhões de reais que transitavam pela instituição que dirigiam, ou imaginavam dirigir. Nunca desconfiaram que esses milhões existiam. Talvez seja uma boa estratégia de defesa nos tribunais. Porém, convenhamos: é humilhante.


Há inúmeras confissões, vindas de gente que não se conhecia, todas ligadas, de uma forma ou de outra, ao próprio PT. Elas falam de acontecimentos separados no espaço e no tempo, mas complementares e coerentes entre si. Há verossimilhança entre essas confissões e fatos já apurados. Há rastreamento de contas bancárias. Mas Lula e Dirceu insistem que não há provas. O artifício é o mesmo usado por Paulo Maluf: negação infinita, associada à exigência, sempre renovada, de um nível cada vez mais alto de prova, até a prova absoluta, que se sabe, de antemão, jamais será obtida.


Nenhuma afirmação que se refira a fatos pode situar-se além de qualquer dúvida, pois a realidade nunca pode ser completamente exaurida. É uma limitação da nossa condição humana e de como se organiza o universo em que vivemos. Verdade plena e incontroversa só existe, se existir, no mundo abstrato da lógica, que nós inventamos com a imaginação.


A versão de que os líderes do PT eram apenas gente distraída se insere em uma seqüência de argumentos pueris usados pelos intelectuais lulistas.


Eles repetem acusações genéricas contra a imprensa, que servem para sustentar um raciocínio circular: se nada for denunciado, é porque o governo é honesto; se houver alguma denúncia, é porque a imprensa burguesa é um antro de conspirações. Reivindicam assim, implicitamente, que a esquerda ocupe uma posição intocável, acima da opinião pública e da lei.


Na defesa do governo Lula destacam, antes de tudo, o que ele não fez: não privatizou a Petrobrás, não assinou o tratado da Alca e assim por diante. Trata-se de um critério infinitamente elástico e, por isso, ilegítimo: sempre haverá algo ruim que um governo (ou uma pessoa) não fez. Fernando Henrique também não privatizou a Petrobrás, o governo Bush não invadiu a Venezuela e Fernandinho Beira-Mar não matou Dana de Teffé.


Discursam sobre a luta do bem contra o mal, anunciando coisas escatológicas se o PT perder o poder. Usam a mesma argumentação, ao avesso, que os tucanos usaram durante anos contra o próprio PT: se eles vencerem, será o caos. Não é verdade. Será apenas a continuidade do que aí está, pois PT e PSDB têm o mesmo projeto para o Brasil; a falsa polarização serve muitíssimo bem aos dois lados. A mancebia, sabemos hoje, chegou ao ponto de ambos os grupos compartilharem os mesmos esquemas de corrupção.


(Foi Leibniz quem enunciou o princípio da unidade dos indiscerníveis, que tem a simplicidade das verdades profundas: se não podemos estabelecer diferenças entre duas coisas quaisquer, devemos admitir que elas são uma só.)


Estamos assistindo ao ocaso de uma operação política iniciada há cerca de 15 anos, quando Lula e José Dirceu começaram a esvaziar o potencial militante do PT para transformar o partido em uma máquina eleitoral tão formidável quanto inofensiva. Lula precisava disso para realizar o seu sonho: chegar ao poder apoiado pelas elites, e não contra elas, como finalmente ocorreu em 2002.


Nesse processo, Dirceu mostrou habilidade negociadora, capacidade de liderança e disposição para o trabalho, além de falta de escrúpulos. Cercou-se de ‘operadores’ e, até recentemente, nunca deixou margem a dúvidas sobre quem exercia o comando. Sua atuação encontrou campo fértil entre milhares de pessoas que passaram a ver nesse projeto uma oportunidade de ascensão social por meio da política. Dirigir o PT, nos últimos anos, foi gerenciar ambições. Lula e Dirceu se especializaram nisso e consolidaram a burocracia petista.


Não ficarei feliz se José Dirceu vier a ser cassado. Por ele mesmo, que não é uma pessoa medíocre e, até onde posso ver, não enriqueceu; pela nossa geração; pelos sonhos que um dia sonhamos juntos. Mas reconheço que esse desenlace, se ocorrer, terá sido uma conseqüência das opções que fez e da trajetória que escolheu. Uma trajetória baseada na truculência, na esperteza e no marketing, armas históricas dos nossos adversários, que desassociaram a luta pelo poder e a luta coletiva, consciente, compartilhada, pela transformação da sociedade em que vivemos.


Quando me opus a esse caminho fui chamado, pejorativamente, de idealista. Fazer esse jogo, dizia-se, era essencial para chegar lá. Anos depois, quando eles finalmente triunfaram, já não queriam nem podiam transformar mais nada. A vida os transformara em outra coisa, e a teia de compromissos já era grande demais. Como eu defendia, o êxito dessa estratégia era, ao mesmo tempo, o fracasso da nossa proposta.


Lula e Dirceu lançaram a esquerda brasileira na maior crise da sua história, esvaziando-a de utopia. Luto para que a esquerda sobreviva a essa tragédia e, se possível, aprenda com ela. Burrice e hipocrisia podem ser um lenitivo para almas ingênuas, mas só preparam novas derrotas. É preciso pensar com seriedade e encarar a verdade. César Benjamin é editor e autor de ‘A opção brasileira’ (Contraponto, 1998, nona edição) e ‘Bom combate’ (Contraponto, 2004)’



Gerson Camarotti, Cristiane Jungblut e Ilimar Franco


‘Planalto abandona ex-ministro à própria sorte’, copyright O Globo, 1/12/05


‘Apesar dos apelos de dirigentes petistas, o Palácio do Planalto deixou o deputado José Dirceu (PT-SP) à própria sorte no dia decisivo do ex-chefe da Casa Civil. A ordem do presidente Lula, para que não houvesse ação de governo em favor de Dirceu, foi cumprida à risca pelos inquilinos do Planalto. O temor no núcleo do governo era de que uma eventual operação tivesse um reflexo negativo para o próprio Lula.


Isso não evitou, porém, gestos isolados de ministros e assessores do governo amigos de Dirceu, que trabalharam nos bastidores em favor do petista. Agiram nos bastidores, pedindo apoio, os ministros Luiz Dulci (Secretaria Geral), Luiz Marinho (trabalho), Walfrido Mares Guia (Turismo) e o vice-presidente José Alencar.


Wagner: pedido de cassação baseado em suposições


Mesmo em viagem à Argentina e depois a Curitiba, o presidente Lula se manteve informado do desenrolar do caso, inclusive da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Amigo de Dirceu e defensor de sua absolvição no processo contra o ex-chefe da Casa Civil, o ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, negou qualquer ação do Planalto em favor do ex-ministro, mas reiterou que não havia provas contra ele:


– Sou a favor do direito de defesa do deputado José Dirceu. Mas não estou interferindo na decisão da Câmara. No entanto, considero inconsistente um pedido de cassação baseado em suposições. Confio na decisão dos deputados, e o voto secreto é da consciência de cada parlamentar – disse Wagner.


Ao longo do dia, Wagner manteve contato com deputados que estavam na tropa de choque de Dirceu, como Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) e Sigmaringa Seixas (PT-SP), e com políticos de fora de Brasília, que lhe telefonaram pedindo informações. Nessas conversas, Wagner dizia que o Planalto não tinha como interferir, mas ressaltava que Dirceu tinha muitos amigos na Câmara e que eles sim estavam atuando em favor do deputado.’



Fábio Zanini e Kennedy Alencar


‘Planalto e Severino procuram salvar Dirceu ‘, copyright Folha de S. Paulo, 1/12/05


‘A ação de aliados do governo para tentar salvar o mandato de José Dirceu (PT-SP) envolveu ontem o Palácio do Planalto, ex-ministros e até o ex-presidente da Câmara dos Deputados Severino Cavalcanti (PP-PE). No PMDB, o deputado federal Jader Barbalho (PA) tentava arregimentar 30 votos pró-Dirceu ou tirar peemedebistas da sessão de votação.


O presidente do PSB, Eduardo Campos (PE), ex-ministro de Ciência e Tecnologia, também buscou ajudar o ex-ministro. Com trânsito no PSDB e no PDT, pediu apoios pontuais a Dirceu.


Os ministros Jaques Wagner (Relações Institucionais) e Dilma Rousseff (Casa Civil) ajudaram nos bastidores. O primeiro contribuiu para a tentativa do PT de esvaziar a sessão de votação, falando com líderes aliados. A segunda deixou claro a interlocutores que torce por sua salvação.


Por meio de sua assessoria, porém, Jaques Wagner disse que o Planalto não atuou ontem nem a favor nem contra a cassação de Dirceu. Para Wagner, as articulações de congressistas são motivadas por ‘decisões individuais’.


Dos defensores de Dirceu, Severino foi o mais assumido. O ex-presidente da Câmara, que renunciou em setembro acusado de corrupção, circulou ontem por corredores e fez muito lobby. ‘Estou falando com deputados do meu partido para se colocarem no lugar do ex-ministro José Dirceu e dizer se gostariam de ser cassados sem direito a ampla defesa.’


A tendência majoritária na bancada pepista é votar pela absolvição de Dirceu. O PP vem aproveitando a crise para ser um aliado fiel do Planalto e se credenciar para coligações com o PT em 2006. Foi assim na eleição de Aldo Rebelo (PC do B-SP) para substituir Severino, em setembro, quando despejou votos no governista.


O apoio ocorreu simultaneamente a uma importante nomeação ontem, pedida há tempos, o posto de presidente do Departamento Nacional de Trânsito. A nomeação teve participação decisiva de Severino. ‘Eu vinha trabalhando por isso fazia tempo.’


Avaliação do Planalto


Quatros meses atrás, Lula e auxiliares avaliavam que entregar a cabeça de Dirceu arrefeceria a crise desencadeada pela entrevista de Roberto Jefferson à Folha, dada no início de junho. Hoje a avaliação no Planalto é que pouco adiantaria sacrificá-lo. Na CPI dos Bingos, auxiliares próximos a Lula e ao ministro Antonio Palocci (Fazenda) foram e são alvos. Ontem à noite, a avaliação do Planalto era que Dirceu tinha alguma chance de escapar da cassação.’



O Estado de S. Paulo


‘Abandonado pelo Planalto, Dirceu,ex-homem forte do PT, é cassado ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 1/12/05


‘Por 293 votos a favor e 192 contra, a Câmara cassou ontem o mandato de José Dirceu (PT-SP). Houve 8 abstenções, 1 voto nulo e 1 em branco. Com a decisão anunciada hoje de madrugada, Dirceu tornou-se o primeiro petista a ser cassado. Com a pena imposta por seus pares, os direitos políticos de Dirceu foram suspensos até 2015, quando já estará com 70 anos, conta apresentada pelo próprio ex-ministro da Casa Civil no discurso de defesa. Mariângela Duarte (PT-SP) assumirá sua vaga.


Quando o último voto foi lido, restavam quase só petistas no plenário. Todos eles muito acabrunhados. Dirceu foi acusado pelo deputado Júlio Delgado (PSB-MG), relator do processo por quebra de decoro no Conselho de Ética, de ser o mentor do mensalão, de mesada ao petistas e aliados para que votassem a favor de projetos de interesse do Planalto.


O petista negou o mensalão no seu discurso de defesa. Foi dramático. Disse que não queria nem misericórdia nem clemência, mas Justiça. Seus colegas foram inclementes. Tiraram-lhe o mandato.


No discurso de 42 minutos no plenário, Dirceu disse que teve seu direito à defesa prejudicado. O relator do processo, Júlio Delgado contestou: ‘O deputado disse reiteradas vezes que está sendo perseguido e será cassado sem provas.


As atitudes de seus advogados contradizem esse discurso, pois estão há mais de dois meses atuando no Judiciário para excluir provas que coletamos.’ Por decisão do STF, os dados sigilosos obtidos com a CPI dos Correios foram retirados do relatório.


Para Delgado, mesmo assim as provas contra Dirceu eram muitas. ‘Há ainda uma fartura de provas de relações promíscuas, favorecimentos indevidos, abuso da máquina pública. Permanecem em nosso relatório provas robustas que autorizam o juízo condenatório.’ Ele afirmou que a relação entre Dirceu e Marcos Valério era mais que de amizade, era ‘de interesses comuns’.


Ele também citou Ângela Saragoça, ex-mulher de Dirceu, que recorreu ao ex-ministro no começo do segundo semestre de 2003, pois estaria passando por dificuldades financeiras, e precisava de ajuda. ‘Ela conheceu Valério, conseguiu emprego no BMG, conseguiu um empréstimo atípico no Banco Rural e conseguiu vender seu apartamento em São Paulo a um sócio de Valério.’


O relator citou repasses para a campanha do PTB e o testemunho do presidente do PL, ex-deputado Valdemar Costa Neto, quanto ao acordo para a coligação entre PT e PL. ‘O acordo representou o repasse de R$ 10 milhões e foi celebrado na presença de Dirceu.


‘ Depois, lembrou o publicitário Duda Mendonça, que disse ter recebido oficialmente R$ 1,5 milhão da campanha de Lula em 2002, e R$ 10,5 milhões no exterior, como pagamento vindo de caixa 2.


‘Dirceu, ninguém pede a perda de seu mandato por sua história e seu passado. Mas justamente porque, com suas atitudes como chefe da Casa Civil, V.Exa. tenha negado o passado e a história.’


Segundo o relator, foi o presidente Lula quem disse que Dirceu foi o responsável por construir a base aliada, ‘que infelizmente manchou e promiscuiu a imagem do Legislativo, comprometeu esta legislatura numa relação ruim’.


Em apoio a Dirceu falaram Ricardo Berzoini (SP), presidente do PT, Inaldo Leitão (PL-PB), e Vicente Cascione (PTB-SP). Berzoini pediu sua absolvição, argumentando que não havia nenhum prova cabal contra ele.


Cascione disse que não é amigo de Dirceu e foi seu adversário em todas as eleições que disputou. Mas afirmou que confiava em Dirceu e votar por sua cassação seria uma ignomínia.


Leitão fez um apelo pela preservação de seu mandato.’


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