Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > SEGUNDA-FEIRA, 5/1

Veto israelense à mídia gera revolta e criatividade

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 06/01/2009 na edição 519

Leia abaixo a seleção de segunda-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


 


GAZA
Marcelo Ninio


Veto israelense motiva apelos de jornalistas à criatividade


‘A cena é no mínimo insólita: espremidos em uma pequena colina, diante de uma bucólica paisagem que inclui campos verdejantes, vacas e cavalos, dezenas de jornalistas acompanham de longe uma concentração urbana de onde sobem colunas de fumaça e ecoam explosões em breves intervalos.


O veto imposto por Israel à entrada da imprensa na faixa de Gaza tem forçado a multidão de jornalistas de todo o mundo que chegou ao país a abusar da criatividade para cobrir os confrontos de longe.


Para os acostumados a acompanhar conflitos de perto, a situação é motivo de revolta e frustração.


‘É absurdo’, diz Ben Wederman, veterano correspondente da CNN no Oriente Médio, que passa horas na colina aguardando o chamado para entrar no ar. ‘Não dá para acreditar no argumento israelense de que a proibição é por motivos de segurança. Me parece óbvio que o objetivo é limitar a cobertura.’


Wederman, assim como a maioria dos jornalistas que invadiram o sul de Israel na última semana, tem recorrido a colaboradores que estão em Gaza para fazer um relato com o mínimo de veracidade do que está ocorrendo. É também o que faz a reportagem da Folha, que tem conversado por telefone com moradores de Gaza para colher detalhes da ofensiva.


Wael Alqarra, que trabalha em uma organização humanitária em Gaza, contou ontem que os ataques israelenses aumentaram ainda mais a sensação de claustrofobia. ‘Não saímos de casa há uma semana. No máximo vamos até a esquina, quando o mercado está aberto’, disse.


Ironicamente, enquanto o veto israelense impede que as grandes redes de notícias como a CNN informem o que acontece ao mundo, em Gaza a presença de três jornalistas da rede Al Jazeera, que já estavam no território quando a ofensiva começou, mantém a população local informada.


‘Temos todos os outros canais, mas nenhum se compara à Al Jazeera’, diz Wael.’


 


 


TELEVISÃO
Laura Mattos


Chumbo grosso


‘Dias Gomes costumava dizer a colegas autores da Globo: ‘Nem adianta criar pobre, a Globo não sabe fazer. Você coloca um barraco no texto, e eles já transformam em mansão’.


Marcílio Moraes, ex-novelista da Globo, hoje na Record, usa a história para ilustrar uma mudança na TV, que desde o sucesso do filme ‘Cidade de Deus’ (2002), em sua opinião, percebeu que tematizar a periferia pode ser um bom negócio.


Entra no ar hoje, às 23h15, na Record, mais um produto derivado da onda ‘favela movie’. Com um investimento alto para os padrões brasileiros, de R$ 500 mil para cada um de seus 16 episódios semanais -em média, o dobro do custo de um capítulo de novela na Globo-, o seriado ‘A Lei e o Crime’, de Moraes, leva de novo os holofotes da TV a morros cariocas.


‘A televisão teve de romper com a antiga estética global, em que era inconcebível mostrar a favela da forma realista. Quando aparecia, a periferia vinha com assepsia, clarinha, bonitinha’, afirma o escritor.


Mas foi exatamente a Globo a primeira a ‘aprender a fazer pobre’ na dramaturgia. A rede levou ao ar em 2000 o especial ‘Palace 2’, de Fernando Meirelles, que serviu de teste para ‘Cidade de Deus’, indicado a quatro Oscars. Depois veiculou um ‘filhote’ do filme, a série ‘Cidade dos Homens’, sobre a vida de dois garotos da favela carioca. Exibiu ainda ‘Antônia’, também da produtora de Meirelles, a O2, com mulheres negras da periferia paulistana como protagonistas, e ‘O Paí, Ó’, com personagens do cortiço do Pelourinho, em Salvador.


À Folha, em 2008, Meirelles falou sobre a tendência. ‘Antes havia o chavão de que ‘pobre não gosta de ver pobre’. ‘Cidade de Deus’ fez grande bilheteria, ‘Carandiru’ o superou, ‘Tropa de Elite’ virou esse fenômeno. Aí, caiu a ficha, né, ‘poin’!’


Enquanto na Globo a periferia era ‘experimentada’ nos seriados, a Record e Marcílio Moraes foram pioneiros em colocar a favela no centro de uma telenovela -o que a Globo fez depois, com ‘Duas Caras’. ‘Vidas Opostas’ (2006/07), primeira trama do autor na Record, foi gravada em uma favela, a Tavares Bastos, e teve sucesso no Ibope ao mostrar cenas -especialmente as violentas- do cotidiano dos morros.


‘Está havendo uma maior inserção das classes C,D e E no consumo. Como a TV é movida por publicidade, isso passou a influenciar empresários das redes, que se abriram a obras que mostrem a periferia’, analisa.


Moraes e o diretor Alexandre Avancini voltam à Tavares Bastos no primeiro seriado da nova fase da dramaturgia na Record. ‘A Lei e o Crime’ não só deriva do ‘favela movie’ como segue a tendência de investimento em policiais, na rabeira do fenômeno ‘Tropa de Elite’ -fora ‘9MM’, exibido pela Fox, sobre a polícia de São Paulo, a Globo também tem um projeto nessa linha.


Um dos protagonistas de ‘A Lei e o Crime’ é um policial interpretado por Caio Junqueira, astro de ‘Tropa de Elite’. Ele quer se vingar do cunhado (Ângelo Paes Leme), que matou seu pai e virou traficante.


‘O que quero mostrar agora é essa fronteira pouco clara entre a lei e o crime, que nos morros existem várias ‘leis’ a partir da ausência da lei do Estado.’


Moraes diz que sua série não é filhote de ‘Tropa’ -cuja adaptação para uma série é o ‘sonho de consumo’ da Globo e da Record. ‘No filme, o espectador se identifica com o capitão Nascimento e, logo, com a postura de que ‘bandido bom é bandido morto’. Estou criando a história para que o público não se identifique nem com o traficante nem com o policial vingativo. Quero que sejam vistos de forma crítica.’


Resta saber, a partir de hoje, se ‘A Lei…’ dará ou não argumentos para José Padilha, diretor de ‘Tropa’, rebatê-lo.’


 


 


Leticia de Castro


Nova série da HBO dá vida quase normal aos vampiros


‘Histórias de amor impossível entre mocinhas e seres das trevas não são novidade na indústria do entretenimento. Do recente filme ‘Crepúsculo’, baseado na série de livros de Stephenie Meyers, ao clássico ‘Drácula’, de Bram Stocker, são muitas as paixões entre vampiros e humanos retratadas no cinema e nos livros.


E foi justamente nesse filão que a HBO americana apostou para reconquistar seu público de séries -que, depois de ‘Família Soprano’, havia migrado para outros canais.


‘True Blood’, a nova produção da emissora que estreia no Brasil no dia 18 de janeiro, conta a história da garçonete Sookie Stackhouse (Anna Paquin), moradora da pequena Bon Temps, na Lousianna (EUA), que se apaixona pelo vampiro bonitão Bill Compton (Stephen Moyer). Jovem e comportada, Sookie tem a estranha habilidade de ler os pensamentos das pessoas. Apenas o vampiro é imune ao seu dom, o que a deixa ainda mais encantada.


Para driblar o clichê das histórias de terror, o pano de fundo da série é uma nova era em que os vampiros começam a ser integrados à sociedade graças à descoberta de um sangue sintético. Vendido engarrafado em bares e supermercados, o produto é capaz de alimentar os mortos vivos evitando que eles ataquem seres humanos. Com isso, os vampiros começam a ‘sair do caixão’, assumem suas identidades, passam a lutar por direitos civis e participam de debates na TV. Mais ainda, sofrem discriminação e metem medo em muita gente.


Além da discussão política, a série tem forte apelo sexual. Em Bon Temps, sexo parece estar na mente das pessoas 24 horas por dia, conforme revelam as ‘leituras mentais’ de Sookie. E, na era do sangue sintético, transar com um vampiro já não significa necessariamente ter o pescoço mordido.


Criada por Alan Ball -vencedor do Oscar pelo roteiro de ‘Beleza Americana’ e responsável por ‘A Sete Palmos’-, ‘True Blood’ é baseada na série de livros ‘Southern Vampire Tales’, de Charlaine Harris, e já rendeu duas indicações ao Globo de Ouro: nas categorias melhor série dramática e atriz (Anna Paquin).’


 


 


Fernanda Ezabella


Nova série explora dietas radicais


‘Tatiana é branca e magérrima. Sandra é negra e gordíssima. As duas vão morar juntas e trocar todas as suas refeições, durante uma semana, numa terapia de choque dentro de uma clínica. Tudo para as câmeras de ‘Magros x Obesos’, nova série britânica do canal GNT.


‘É uma abordagem radical, mas esses extremos opostos são bem mais parecidos do que pensam’, diz o médico responsável. ‘Se elas conseguirem se ajudar a entender que sua relação com comida pode mudar, isto vai beneficiar ambas.’


Logo no primeiro café da manhã, Tatiana enfrenta um grande prato de comida indiana, sobras da janta. Já Sandra tem que se contentar com uma barrinha de cereal. No fim, a magra aprende sobre a alegria de comer, enquanto a gorda percebe que há vida fora da cozinha.


O programa também conta com uma jornalista cobaia, que já tentou todo tipo de dieta. No primeiro capítulo, ela pede dicas para modelos e encara a dieta da maçã -sim, só pode comer maçãs.


Já Gillian McKeith, que ficou famosa com a série ‘Você É o que Você Come’, surge para liderar a campanha ‘Ban Big Bums’, contra bumbuns grandes, escalando britânicas para um programa de exercícios. Prepare-se para cenas fortes de ossos, celulites, culotes e muita banha (ou a falta de).


MAGROS X OBESOS


Quando: hoje, às 21h


Onde: GNT


Classificação: não informada’


 


 


Débora Yuri


Os melhores piores


‘Enquanto um país inteiro vota nos ‘melhores’, com o objetivo de coroar ‘o melhor’, o que ele conseguiu? Reunir gente para votar nos ‘piores’. E, com essa rede subversiva de votos, bagunçar a disputa proposta por ‘American Idol’, o programa de TV mais assistido dos EUA.


‘Era preciso criar um contraponto, porque muita gente leva ‘American Idol’ a sério, e quem faz isso é ridículo. Nós apenas ventilamos ideias diferentes e damos espaço para o humor e o sarcasmo’, disse em entrevista ao Folhateen Dave Della Terza, 26, o criador do site Vote for the Worst (www.votefortheworst.com) -’Vote no pior’.


Desde 2004, o site lança campanhas pela permanência em ‘Idol’ dos candidatos não necessariamente ‘piores’, mas que irritam jurados e público ‘comum’. A ideia é manter no programa quem o programa não quer manter. Tudo começou como brincadeira, lembra Dave, que tinha 22 anos e era membro de um fórum que espinafrava o povo de ‘Survivor’.


‘Todo mundo gostava dos candidatos que cantavam mal e batiam boca com os jurados. Quando começou a terceira temporada, decidi criar um site para reunir essa turma, com a ideia de votarmos no pior a cada semana. Achava que teria só cem visitas, e não milhões.’


O Vote for the Worst e seu mentor ficaram famosos nos EUA -o rapaz chegou a ser entrevistado por David Letterman. Mas o estopim do sucesso foi um candidato emblematicamente ‘pior’, tão ruim que era bom: Sanjaya Malakar. ‘Ele trouxe o público médio até a gente. Com o Sanjaya as pessoas passaram a nos comentar em casa’, diz Dave, que odeia acima de tudo os ‘idols’ Chris Daughtry e Jordin Sparks.’


 


 


ENTREVISTAS
Álvaro Pereira Júnior


As celebridades e o jornalismo


‘QUANDO EU ERA baseado na Califórnia, e mesmo alguns anos depois de voltar para o Brasil, entrevistava celebridades a rodo. Tirando a Julia Roberts, abertamente escrota e agressiva com todo mundo, todas eram sempre pontuais e corteses. Só uma vez houve atraso. Brad Pitt chegou meia hora depois do horário e foi aos jornalistas, um a um, pedir desculpas.


Até hoje perguntam: o que você achou da Angelina Jolie? Como é a Cameron Diaz? O Leonardo di Caprio é bacana? E a Gwyneth Paltrow? Respondo que não sei.


Você fica cinco ou seis minutos diante dessas figuras. Quando chega para gravar, já está tudo armado. Luzes no esquema, maquiador ali ao lado da boneca (ou boneco), respostas protocolares… Não é fácil tentar fazer jornalismo, ou tirar impressões verdadeiras, num ambiente assim.


No começo, confesso, ainda me animava. Não durou muito para virar só trabalho. Lembro-me de um jornalista mexicano, com bigode de Salvador Dalí, vivendo em Los Angeles há anos, que detestava aquilo. ‘Eu odeio essa gente, odeio celebridades’, bradava, com cara de tédio. Lembrei-me dessa época porque estou assistindo agora, na CNN, a um especial sobre a Rússia, apresentado pela Christiane Amanpour. Imagino que a Amanpour seja ‘ídala’ de dez entre dez meninas que querem ser repórteres de TV. Tem um inglês elegantíssimo, é supercarismática, culta, manja de política internacional, cobriu guerras.


Mas… você viu essa mulher trabalhando ultimamente? Eu, que sigo a CNN direto, só lembro dela em chamadas, ou então como comentarista, no estúdio. Botar o pé na lama? Faz tempo. Aí fico com ideias de jerico. Imagino a Amanpour igual às celebridades de Hollywood. Chegando só na boa, com luz e maquiagem perfeitas e produtores que ninguém conhece ralando por ela. Começo 2009 desanimado com o jornalismo.’


 


 


 


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


 


PROPAGANDA
Andrei Netto


França começa a banir publicidade da TV pública


‘Um dos mais controversos projetos do governo de Nicolas Sarkozy, a reforma do financiamento das emissoras de TV e de rádio públicas, entra em vigor hoje na França. A nova legislação suprime a publicidade de cinco emissoras do grupo France Télévision e dá ao chefe de Estado poder de nomear o diretor-presidente. A decisão revoltou a oposição e sindicatos de jornalistas, que denunciam uma manobra para controlar a imprensa e beneficiar grupos privados.


O fim dos espaços publicitários na TV pública é uma discussão antiga no país. Nos anos 90, foi defendida pela esquerda. Em janeiro de 2008, foi incorporada pelo governo de Sarkozy.


Após 11 meses de debates, de greves e trocas de acusações, a ideia foi aprovada na Assembleia Nacional em dezembro por 293 votos a 242. Com a homologação, os cinco canais de TV – France 2, France 3, France 4, France 5 e France Ô – não poderão mais difundir comerciais das 20h às 6h. A partir de 2011, a restrição será total.


Em troca da perda de receita publicitária, avaliada em 70% do orçamento da empresa, o governo indexará à inflação o Imposto Audiovisual, que responde por 20% dos recursos do grupo, e criará duas taxas: uma variando de 1,5% a 3% sobre o crescimento do faturamento publicitário de emissoras privadas, e outra de 0,9% sobre o lucro de serviços prestados por operadoras de telefonia celular. Ainda se compromete a pagar ao grupo 450 milhões até 2011.


Governo e oposição sabem que as compensações não serão suficientes para pagar as perdas publicitárias. O orçamento do grupo France Télévision, sem publicidade, prevê um déficit de 94,6 milhões neste ano.


Além da questão financeira, o projeto abriu discussões éticas, por dar ao presidente o direito de nomear o diretor-presidente da France Télévision e da emissora pública Radio France, dona do serviço Rádio France Internacional. Em dezembro, em manifesto publicado pela revista Nouvel Observateur, 500 intelectuais e representantes políticos pediram ao governo a retirada do projeto de lei.


‘A ameaça está em dois pontos: na garantia do pluralismo, já que nosso diretor-presidente poderá ser nomeado ou demitido em 30 minutos; e em nosso orçamento, que será definido pelo governo, podendo ser aumentado ou reduzido de acordo com a passividade da programação’, diz Dominique Pradalie, delegada sindical da France 2. Líderes da oposição denunciaram o estrangulamento financeiro e a tutela das emissoras pelo governo. Diante das críticas, a ministra da Cultura, Christine Albanel, sustenta que a supressão da publicidade é uma necessidade para a France Télévision. Ao longo do último ano, Sarkozy defendeu a ideia alegando que o serviço público de informação precisa ter caráter cultural e se diferenciar das emissoras privadas.


O projeto aprovado pela Assembleia Nacional precisa do aval do Senado, mas entra em vigor mesmo assim. Isso porque, pressionado pelo governo, o diretor-presidente da France Télévision, Patrick de Carolis, propôs ao seu conselho de administração a adoção voluntária do projeto, para assegurar a transição dentro do grupo.’


 


 


TELEVISÃO
Lauro Lisboa Garcia


Maysa, glamour e drama


‘No primeiro número musical da minissérie Maysa – Quando Fala o Coração, de Manoel Carlos, que estreia hoje na TV Globo, a cantora atira um pé de sapato nos comensais falastrões de uma churrascaria exigindo atenção. Ela cantava Demais (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira). Hoje, com o aumento da falta de educação do público, mais os telefones celulares e as maquininhas fotográficas digitais, ela teria de destruir vários Canecões.


Assim era a paulistana Maysa, temperamental, passional, linda (mais ainda na fase madura), dona de sedutores olhos de ‘oceanos não-pacíficos’, como definiu o poeta Manuel Bandeira, e uma voz de fazer pedra chorar com canções como Ouça e Meu Mundo Caiu. Interpretada pela gaúcha Larissa Maciel que faz estreia na tevê, aos 30 anos, é essa Maysa intensa, autêntica, inconstante e perturbada que o público vai ver em nove capítulos.


Filho da cantora, o diretor Jayme Monjardim pediu ajuda a pessoas que conviveram com ela para recontar sua história, sem endeusá-la. ‘Além de procurar um distanciamento pelo fato de ser filho, também tive de ter esse distanciamento como diretor. Consultei essas pessoas para saber se a alma de Maysa estava lá, presente, bacana. Isso para mim era o mais importante’, diz o diretor.


Há quem questione o diretor não só pelo comprometimento familiar com a personagem, mas pelo fato de demorar tanto tempo para levar sua história à televisão. Vale lembrar, porém, que Monjardim já produziu um documentário sobre Maysa no final da década de 70, como forma de ‘terapia’, que foi levado ao ar pela TV Bandeirantes. ‘Eu era piloto comercial, quando minha mãe morreu. Um ano depois quis fazer uma homenagem, estava engasgado com aquilo, tinha um monte de coisa que eu queria botar pra fora’, lembra. Com a documentação que encontrou dela, Monjardim fez um filme em super-8, que venceu o Festival de Penedo, no Rio. A partir daí, tomou gosto por ‘contar história’ e produziu uma versão do mesmo filme em 35mm, levando-o à Bandeirantes. ‘Daí nasceu o primeiro programa de televisão que fiz de Maysa. Hoje eu não seria diretor se não tivesse feito um filme sobre ela.’


Manoel Carlos também recontou a história da cantora baseado em diários, anotações e todo o material que a própria Maysa guardava sobre sua vida, e também criou situações fictícias, mas possíveis. O fim da história todo mundo conhece (o acidente de carro na ponte Rio-Niterói que matou a cantora no dia 22 de janeiro de 1977) e é por aí que a minissérie começa, mostrando uma Maysa serena, insone, livre do álcool que comprometeu a saúde e a vida artística. Sonhava em retomar a carreira de sucesso internacional em grande estilo. Além de ser conhecida como a ‘rainha da fossa’, Maysa também teve passagem marcante pela bossa nova. No final dos anos 1970, porém, lamentava: ‘Como vou poder cantar se minha dor está envergonhada, está fora de moda? Será que vou ter de cantar a tristeza dos outros tendo tantas minhas?’


A partir da sequência que culminaria na morte, vêm as lembranças de tempos glamourosos, desde a paixão por André Matarazzo, 17 anos mais velho do que ela, o casamento, shows consagradores no Copacabana Palace e em Paris, a lua-de-mel pela Europa – em cenários deslumbrantes como os canais de Veneza e as dependências do Copa. O capítulo inicial sintetiza diversos aspectos da personalidade da cantora, que por um tempo enfrentou o dilema entre se dedicar à vida familiar e a carreira artística. Como se sabe, ela optou pela segunda. Teve a coragem de chutar para o alto a segurança de uma vida plena na alta sociedade paulistana para dedicar-se à música. Esse foi apenas um dos escândalos que protagonizou, desafiando a moral da época. Maysa teve outros romances polêmicos, caiu em muita bebedeira, mas principalmente sofreu e cantou esse sofrimento por amor como poucas.’


 


 


***


Trilha tem clássicos


‘Canções como Demais e Bronzes e Cristais, que têm trechos tocados na minissérie Maysa – Quando Fala o Coração, estão reunidas no CD duplo de mesmo nome, lançado pela Som Livre. Versátil, a voz exuberante de Maysa trina de emoção em outros clássicos em português (como Franqueza, Eu Sei Que Vou Te Amar e Bom Dia, Tristeza), espanhol, inglês e francês (a antológica Ne me Quittes Pas), num total de 27 faixas.


Ela é autora de poucas canções – como O Que, Tarde Triste, Meu Mundo Caiu, Adeus e Ouça -, mas que primam pela autenticidade de quem vivia a poesia e o drama que cantava. Era como Edith Piaf (de quem ela interpreta no CD a versão de L?Hymne a l?Amour) e Billie Holiday – daquelas raras figuras de personalidade intensa, cuja carreira artística era consequência direta da vida pessoal, como a própria Maysa comprovou por escrito.


O acabamento do projeto do CD condiz com o glamour que envolve a história da cantora. O encarte, em forma de diário, reúne fotos da minissérie, além de reproduções de desenhos e manuscritos de Maysa. As gravações são originais, bem como os arranjos e a voz insubstituível da cantora, que Jayme Monjardim fez questão de manter nos números musicais do programa.


A maquiagem, o figurino e os penteados fizeram Larissa Maciel bem parecida com a original, mas o grande cuidado que ela e o diretor tiveram, como se comprova em cena, foi evitar a imitação. Exceto na parte musical. Larissa teve de tomar aulas de canto não só para dublá-la, para interpretá-la com a mesma postura, o olhar, a intensidade, a respiração, cantando de verdade nos ensaios. O resultado é bastante convincente.


‘Nas músicas, Larissa teve de se aproximar do original. Havia a preocupação de fazê-la cantar como Maysa, para não desapontar o público, mas no aspecto da pessoa, se você pegar a Maysa verdadeira e a Larissa, a única certeza que você tem é que essa menina está vivendo essa mulher. Esse era meu medo, como fazer essa obra sem que as pessoas fiquem comparando com cada momento da Maysa’, diz Monjardim.


O CD duplo é o primeiro produto agregado à minissérie, que deve sair em DVD já em março. Os extras incluirão making of e os números musicais na íntegra. O grande atrativo, porém, serão cenas inéditas da Maysa verdadeira num programa de 22 minutos feito para a RTP (Rede de Televisão Portuguesa) em 1961. Além disso, a minissérie ganha uma versão cinematográfica de duas horas, que deverá iniciar carreira no exterior. As imagens foram registradas com a câmera digital Arriflez 21, de altíssima definição, usada, segundo Monjardim, pela primeira vez na televisão brasileira.’


 


 


Novo Globo Esporte


Cristina Padiglione


‘São Paulo volta a ter voz local no Globo Esporte a partir do próximo dia 12. Atualmente feito todo no Rio, o programa de esportes diário da Globo terá novamente uma versão feita no Rio – que, exceção ao primeiro bloco, aberto para o noticiário local, será transmitido para toda a rede nacional – e outra só para o Estado de São Paulo, onde o primeiro bloco também será aberto para o noticiário regional das retransmissoras do interior.


A reforma será endossada pela chegada de novo apresentador, Tiago Leifert, até aqui repórter do canal SporTV, e por uma série de novidades no conteúdo e no formato.


Um dado paradoxal – a considerar o estímulo que isso representa para o sedentarismo – é a inclusão de videogames de esporte na pauta do programa. Mas a meta de não perder público para a web e outras mídias parece evidente – daí o espaço aberto a games e também à participação dos repórteres de esporte da Globopontocom no Globo Esporte, via Skype. Moderno, não?


Em contrapartida, o teleprompter perde importância, como ocorre nas mesas-redondas: a ideia é estender a prosa sem perder ritmo. E dar mais espaço ao diálogo.’


 


 


O Estado de S. Paulo


Para ajustar a Saia


‘Com direito a participação in loco, no estúdio em São Paulo, a cronista do Estado Lúcia Guimarães se junta ao time do Saia Justa no mesmo canal GNT do Manhattan Connection, a partir da edição desta quarta-feira. A quinta saia-justa, acima com Betty Lago, Maitê Proença, Mônica Waldvogel e Márcia Tiburi, fará reportagens de Nova York e repercutirá para o programa os principais assuntos de comportamento que ganharam espaço por lá na semana. Na matéria de estreia, também nesta quarta, Lúcia aborda a Geração Obama e o que ela representa para os Estados Unidos. No ar às 22h30.’


 


 


Cristina Padiglione


O ônus de estrear junto com Maysa


‘Há um racha na cúpula da Record sobre a estratégia da casa em lançar um produto na mesma semana (ou quase no mesmo horário, como hoje)em que a Globo promove uma grande estreia. A ousadia do dia é botar no ar a série A Lei e o Crime, de Marcílio Moraes, pouco depois da chegada da minissérie Maysa ao plim-plim. Ainda que a maioria da plateia interessada nos dois títulos não seja a mesma, há quem aponte na coincidência um custo sem benefício: o espaço perdido pelo lançamento do canal na mídia impressa, para o programa da líder.’


 


 


 


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