Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > ELEIÇÕES 2010

Vitória do feminino?

Por Ligia Martins de Almeida em 07/10/2010 na edição 610

Encerradas a apuração para as eleições presidenciais, a imprensa faz contas e mais contas. Quer saber quantos dos votos dados ao Partido Verde, ou melhor, a Marina Silva, vão para Dilma Rousseff e quantos vão para José Serra. E Marina, que com seus quase 20 milhões de votos levou José Serra para o segundo turno, ganha uma atenção inesperada.


Mas a maior repercussão parece ter sido mesmo na Europa, onde Marina ganhou perfil nos mais importantes jornais e é saudada como a grande vencedora. Bastam, como exemplo, estas três publicações:


** Le Monde, 5/10/2010:




‘Marina Silva deve a maior parte de seu sucesso a ela mesma. Milhões de eleitores a viram como a candidata mais ‘autêntica’, a que trazia ideias novas, ainda que às vezes difíceis de serem aprovadas junto a uma maioria de brasileiros pouco instruídos. A candidata ecologista denunciou a ‘infantilização’ do eleitorado pelo governo, criticou a multiplicação de promessas feitas por seus adversários, que ela se absteve de atacar, e defendeu os valores próprios a um outro modelo de desenvolvimento. Ela superou de forma brilhante suas deficiências iniciais: a falta de experiência e de unidade do Partido Verde, a fragilidade de seus meios financeiros e a brevidade de suas aparições na televisão. Sua atitude ‘moral’ e sua determinação também reuniram um eleitorado que se recusava a dar um cheque em branco a Dilma’.


** Der Spigel, 5/10/2010:




‘A secreta vencedora das eleições presidenciais brasileiras é Marina Silva. Concorrendo ao principal cargo do Brasil, ela recebeu quase 20% dos votos, mais do que poderia ter imaginado em seus sonhos. Seus correligionários são responsáveis pelo segundo turno daqui a quatro semanas. Os eleitores de Marina decidirão se Dilma Rousseff, candidata escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou o social-democrata José Serra irão para o Palácio do Planalto no começo de janeiro.’


** El Pais, 5/10/2010




‘A candidata do Partido Verde acredita que ‘o Brasil se deu a ocasião de pensar duas vezes’ e que isso é bom. Alegre, fria e elegante, como durante toda a campanha, Marina Silva anunciou que convocaria uma sessão plenária com os grupos sociais que a apoiam para definir estratégias. A dúvida que se coloca é se o voto do PT, que segundo as pesquisas acabou indo para Silva, voltará agora em bloco para Dilma ou não. E o que José Serra pode oferecer para que Silva esqueça sua antiga e estreita relação com o próprio Lula.’


Uma coisa ou outra?


Se a imprensa escrita procura manter o distanciamento e a objetividade, discutindo o futuro, a TV se mostrou mais emotiva, pelo menos para com as mulheres, como aconteceu na Globo News no dia seguinte às eleições. Na cobertura do day after, as apresentadoras revelaram seu encantamento com Marina e não tiveram medo de dizer que ela fez um discurso (logo após a decisão pelo segundo turno) ‘emocionado e emocionante’, fazendo questão de comparar o comportamento de Marina com a seriedade de Dilma e o sorriso aberto dos tucanos.


Mas nem a Europa e nem na imprensa brasileira fez uma continha muito mais simples: quase 67% (mais exatamente 67.287.693) votos foram dados às mulheres nas eleições presidenciais brasileiras de 2010. O Brasil tem, segundo o Tribunal Superior Eleitora (TSE), 135.804.433 eleitores. Foram 101.590.153 votos válidos no último dia 3 de outubro. E, desses votos, mais de 67 milhões foram divididos entre duas mulheres.


Quando Marina, durante a campanha, dizia que o Brasil queria o feminino, poderíamos até concluir que era apenas discurso eleitoral. Mas o resultado das urnas mostrou que ela estava certa.


A dúvida agora é se Dilma Rousseff representa esse ‘feminino’ a que Marina se referiu durante a campanha. Esse tema poderia – e deveria – ser amplamente discutido e pesquisado pela imprensa, sem a interferência dos institutos de pesquisa, que saíram com a credibilidade bem arranhada das últimas eleições.


Outro resultado a ser estudado pela imprensa – sempre levando em conta a mencionada preferência pelo feminino – é o da votação das mulheres para o Senado e a Câmara dos Deputados. Roseana Sarney representa o feminino ou o clã dos Sarney? A mulher de Joaquim Roriz foi para o segundo turno no Distrito Federal por que representa o feminino ou por que ganhou os votos que seriam do marido envolvido em escândalos?


As perdedoras


O eleitor brasileiro parece ter perdido de vez o preconceito contra as mulheres – uma vez que o voto feminino (mais de 50% do eleitorado) não chega aos 67% de votos recebidos por Dilma e Marina.


O que seria bom saber é o quanto pesou o fato dessas candidatas serem mulheres e falarem pelas mulheres. Nos debates, a única que tocou no assunto foi Marina, ao dizer que conhece bem a luta das mulheres pobres para criar seus filhos. Mulheres que não têm renda suficiente para entrar nos programas de casa própria, uma das bandeiras usadas por Dilma para ganhar votos.


Mas seria bom saber também se os partidos políticos realmente apostam nas mulheres ou apenas cumprem a lei que exige a participação de 30% delas entre seus candidatos. Os resultados para governos do estado, Senado e Câmara deveriam ser estudados e publicados pela imprensa, para mostrar se alguma coisa realmente mudou ou o diferencial foi apenas o fenômeno Marina Silva e sua onda verde.


Uma coisa é certa: embora se deixe levar por fenômenos como o Tiririca, o povo, o eleitor, pelo menos não se deixou enganar por espartilhos e seios fartos. Pelo menos não se falou mais em Mulher Pera e Mulher Melão.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/10/2010 Adriano Pedra

    Interessante! Mas existem alguns tópicos. Quando Lula escolheu Dilma, ele sabia que essa era a hora certa de colocar uma mulher na disputa, não pelos valores de gênero, que a meu ver, não representam nenhum diferencial,mas pelo cenário político internacional, que estava sendo protagonizado por mulheres em sua maioria. Já Marina, entrou na campanha, sobretudo como nome forte do partido, já que saíra do PT, com grande representatividade política,unindo assim , o útil ao agradável! Intitular-se representante de gênero, pode ser arriscado quando se cai na apreciação popular! Aliás, na luta contra o preconceito, há de se concordar que este geralmente parte antes de mais nada da própria vítima! Votei em Dilma, não por ela ser mulher, mas por acreditar em seu potencial, que certamente é superior ao de Marina, no trato com a administração pública! Boa campanha não tem nada a ver com bom governo!

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