Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > SOBRE DESVIOS

Viva os hackers, vale tudo!

Por Alberto Dines em 18/09/2007 na edição 451

A pirataria é lícita? O hacker é um malfeitor ou um Robin Hood cibernético? É um democrata que socializa a tecnologia ou corsário que não respeita direitos alheios? É um anarquista moderno ou terrorista à antiga? Em outras palavras: vale tudo para acabar com o vale-tudo?


Estas perguntas foram sugeridas pela leitura de duas matérias: uma no Estado de S.Paulo (‘Os hackers que habilitaram o iPhone no Brasil’, domingo, 16/9, pág. C-5) e a outra neste Observatório (‘Notas sobre a construção de um jornalismo livre‘). Motivadas por interesses conflitantes, com entonações diferenciadas, originam-se na mesma relativização de ilegalidades e ilícitos.


O hino de louvor aos hackers nativos que ‘ganham fama e dinheiro’ por conseguirem driblar os mecanismos de proteção do iPhone americano foi entoado pelo Estadão dentro da estratégia de ‘arejar’ o noticiário sugerida pelos consultores da Opus Dei.


Estado de Direito


Ninguém se deu conta que a matéria é um incentivo à prevaricação e à pirataria. Ou melhor: em algum momento alguém parou para pensar e decidiu colocar na matéria que os ‘garotos prodígios’ podem ter problemas na Justiça. Por isso, omitiram-se o endereço e o telefone dos hackers. As preocupações legais ou morais pararam aí. Como era importante tornar a matéria mundana e charmosa, enfiaram-se os nomes de duas celebridades: Roberto Justus e Álvaro Garnero (assíduos freqüentadores da coluna social do jornal), que também contrataram o serviço dos hackers pela módica quantia de 600 reais para habilitar o aparelho que compraram nos EUA por 399 dólares.


Estão ferrados: comprar equipamentos pirateados também é crime. Pirataria passiva é como corrupção passiva.


As notas para um ‘jornalismo livre’ são fascinantes porque mostram como é fácil perverter e intoxicar o bom combate e as boas causas. A defesa do software livre e da TV digital efetivamente acessível, democratizada, são cruzadas legítimas, nada têm a ver com a entronização da figura e da atividade do hacker. Quando se quer reformar o Estado não se prega a hackeazação do Estado.


Num momento em que o mundo busca consensos, regulamentos e códigos é bom lembrar que a luta legítima contra a ‘ideologia da propriedade’ faz-se através da defesa do Estado de Direito.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/09/2007 Carlos Franco

    Prezado Dines,
    A respeito de sua matéria ‘Viva os hackers, vale tudo!’, gostaria de lembrar que a palavra ‘hacker’ designa alguém com habilidades especiais no uso da tecnologia da informação. Para o sentido que o artigo pretende passar aos leitores existe a palavra ‘cracker’.
    É incorreto, portanto, chamar de hacker alguém que faz um ‘crack’. Hackers são especialistas e não contraventores.
    Acredito ser importante insistir e resgatar o sentido correto destes termos.
    Quanto ao iPhone, talvez fosse conveniente uma pesquisa mais profunda. Pois o caso me questão não é pirataria. Há excelentes artigos na Web sobre a questão; sugiro, portanto, mais pesquisa e eventual revisão do artigo.
    Tenho certeza que houve boa intenção na matéria, mas não vejo com bons olhos a distorção que resultou da defesa de seu ponto de vista.
    Aproveitando a ocasião, gostaria de sugerir ao responsável pela área de jornalismo tecnológico de seu site uma matéria a respeito do seguinte fato: A Prefeitura do Município de SP, em seu website, obriga os internautas a usar apenas um navegador, o Internet Explorer. Esta aberração não parece ser um tema interessante, dentro da ótica da inclusão digital?
    Obrigado pela atenção,
    CF

  2. Comentou em 24/09/2007 Carlos Franco

    Prezado Dines,
    A respeito de sua matéria ‘Viva os hackers, vale tudo!’, gostaria de lembrar que a palavra ‘hacker’ designa alguém com habilidades especiais no uso da tecnologia da informação. Para o sentido que o artigo pretende passar aos leitores existe a palavra ‘cracker’.
    É incorreto, portanto, chamar de hacker alguém que faz um ‘crack’. Hackers são especialistas e não contraventores.
    Acredito ser importante insistir e resgatar o sentido correto destes termos.
    Quanto ao iPhone, talvez fosse conveniente uma pesquisa mais profunda. Pois o caso me questão não é pirataria. Há excelentes artigos na Web sobre a questão; sugiro, portanto, mais pesquisa e eventual revisão do artigo.
    Tenho certeza que houve boa intenção na matéria, mas não vejo com bons olhos a distorção que resultou da defesa de seu ponto de vista.
    Aproveitando a ocasião, gostaria de sugerir ao responsável pela área de jornalismo tecnológico de seu site uma matéria a respeito do seguinte fato: A Prefeitura do Município de SP, em seu website, obriga os internautas a usar apenas um navegador, o Internet Explorer. Esta aberração não parece ser um tema interessante, dentro da ótica da inclusão digital?
    Obrigado pela atenção,
    CF

  3. Comentou em 18/09/2007 Marco De Bona

    Exatamente, concordo com o comentário anterior.
    Além disso quero acrescentar que o tema ainda é mal discutido por muitos que não entendem muito bem o conceito. Parece-me óbvio que nem todos estão perfeitamente atualizados às tecnologias mais recentes. Inclusive e principalmente a legislação. Hoje em dia a distribuição de músicas e filmes pela Internet é tão banal e onipresente que já tornou-se impossível de ser combatida.
    Uma discussão interessante é que talvez exista um movimento um tanto quanto natural para que um desequilíbrio no mercado fonográfico seja corrigido. Ainda hoje a indústria do audiovisual, que alega ser a mais prejudicada pelos programas de condivisão de arquivos, lucra bilhões no mundo todo, e apenas alguns dos seus principais artistas são bem pagos. Os reais interessados, aqueles que produzem a arte, recebem migalhas. Tenho quase certeza que os artistas independentes, ou sem suporte de grandes gravadoras possuem hoje uma capacidade muito maior de ter seu trabalho divulgado e ganhar com isso, do que antes da Internet. Acho que se resume em defesas de interesses, que se baseiam na exploração do artista.

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