Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNALISMO AMBIENTAL > A tragédia de Mariana

A pauta de notícias ambientais não se limita à cobertura de desastres naturais

Por Taís Teixeira em 02/12/2015 na edição 879

Intoxicação ambiental, moral, psicológica, cultural, religiosa, econômica, política, social e mortal. A lama que a Samarco despejou sobre a cidade mineira de Mariana traz à tona mais que o desrespeito às leis de fiscalização: revela a podridão de um sistema que segue enraizado no capitalismo primitivo (no sentido de uso ao esgotamento máximo de todos os recursos disponíveis em prol da produção galopante, que conduz a impressionantes índices lucrativos).

O caso de Mariana revela de forma assustadora que continuamos nas amarras que baseiam o capitalismo, na linha básica onde uma ponta é capitalizada e a outra é descapitalizada e, em nome da subsistência, oferece o seu trabalho em troca de um pagamento. Como afirma o autor marxista britânico Maurice Dobb, […] a existência do comércio e do empréstimo a dinheiro, bem como a presença de uma classe especializada de comerciantes ou financistas, ainda que fossem homens de posses, não basta para constituir uma sociedade capitalista. Os homens de capital, por mais aquisitivos, não bastam – seu capital tem de ser usado na sujeição da mão-de-obra à criação de mais valia na produção.

 Esse conceito teve um desdobramento faraônico e os conglomerados econômicos envolvem outras áreas de poder que legalizam, permitem e beneficiam-se desse sistema silenciando para as atrocidades que podem ser causadas para todas as formas de vida que povoam o planeta.

Neste cenário desastroso, onde o descaso com o descarte e a finalização dos restos industriais culminaram no fato que consagra a derrota de uma máquina de gestão ineficiente na produção de valores e eficiente para a destruição dos mesmos: a morte. Mais uma vez, vidas humanas, fauna e flora foram sacrificadas pela desordem estrutural calcada no lucro desmedido que justifica atrocidades. Mortes, desaparecidos, um rio destruído, peixes condenados, quilômetros de lama venenosa, números de estados atingidos. Mortes e números. Números e mortes. Assim, forma-se o jornalismo de periferia, que só fica pelas beiradas, não aprofunda. Quem perde é a sociedade.

 Simplificação informativa

 Situações de catástrofes ambientais são influenciadas pelo jornalismo baseado na simplificação de uma conjuntura angustiante a uma tabela matemática. Como se os números conseguissem esclarecer a origem da questão que virou um problema de vida e de morte. Aos números deve ser dada somente a capacidade de expressar uma parte da dimensão das consequências de uma situação que não foi planejada. Todos nós como nação, mais uma vez, fomos submetidos à ganância multinacional que usou nosso território para produção máxima corrompendo setores para obtenção de lucros de forma desmesurada. Mas onde estão esses dados, essas informações, onde está o relato profundo da procedência que resultou nessa  destruição ambiental e perda de vidas? Apresentar números é mais fácil, dissimula a tensão real do fato e cumpre a obrigação de informar (independente do contexto e importância dessa informação). Eis que fica clara a questão da falta do jornalismo ambiental.

Na verdade, as falhas fazem parte de um erro corriqueiro principalmente na cobertura de calamidades ambientais. O tema meio ambiente já devia estar internalizado na grande mídia (não-especializada), como uma editoria fixa. Mas o que acontece é que a pauta ambiental ganha espaço quando há tragédia de grande impacto e magnitude e que é viável de ser expressa em números. Essa ideia implícita deve ser modificada, pois o meio ambiente não está desvinculado do homem. Ao contrário, tem uma ligação orgânica que oferece condições de vida (ar, água e terra), recursos para gerar economia, lazer, cultura, tecnologia e emancipação, no sentido de prosperidades materiais e imateriais. O homem, em alguma dessas esferas, percebe essa relação.

Importância do tema exige  mais espaço

Os meios de comunicação contribuem para dar notabilidade à temática ambiental à medida que ganha mais espaço, considerando o tamanho e a frequência deste veículo. Mas se formos considerar a qualidade e a forma, verificamos que é preciso avançar muito. Os estudiosos do Jornalismo Ambiental, que pode ser considerado uma especialização do jornalismo, têm contribuído com pesquisas e reflexões no sentido de observar, avaliar e sugerir procedimentos para que o jornalismo exerça com responsabilidade a função social de informar ao público.

Considerando que o jornalismo ambiental deve ser uma fonte de democratização do saber ambiental que conduza para uma direção de mudanças estruturais e congênitas.  Wilson Bueno no livro Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente propõe funções para o jornalismo ambiental, como a função política, que é mobilizadora social. As outras funções que ele agrega são a informativa (com o viés de atualização) e a pedagógica (mostra problemas e indica soluções). O ponto que ressalta é que o sucesso das duas últimas categorias depende do progresso da primeira no sentido de informar um público desconhecedor do assunto e causar novas atitudes, mudanças de pensamentos e de costumes. Podemos relacionar a efetiva consolidação de duas funções condicionadas a outra a essa visão sistêmica que está na essência do jornalismo ambiental, que parte da ação conjunta de três núcleos compostos por suas características e objetivos próprios, mas que atuando em sincronia funcionam e alcançam a sua meta, independentemente se uma função se sobressai sobre as demais, ainda assim,  não elimina o caráter  de atuação coletiva como caminho para atingir finalidades.

 No caso de Mariana, é muito emblemático a pouca visibilidade e espaço que o tema meio ambiente tem na mídia. O momento em que assuntos referentes à preservação ambiental aparecem com mais ênfase são em casos de catástrofes, como a da Samarco em Mariana. E não deve ser assim. Essa prerrogativa destrutiva e caótica na qual o tema meio ambiente aparece com mais espaço na mídia é explicada no livro Sociologia Ambiental, do sociólogo John Hannigan, onde avalia que apenas na década de 1990 as histórias sobre o assunto começa a ganhar um estilo mais global e complexo.

Nessa época, as coberturas passaram a ter caráter emergencial na imprensa canadense. Em um panorama geral, nos outros países, as pautas ambientais demoraram ainda mais para ter lugar, destacando-se apenas em grandes desastres ou acidentes. Ainda nos anos 1990, após inúmeras catástrofes e uma conscientização maior dos jornalistas, empresários e políticos, foram abertos espaços específicos para o tema e surgiram revistas voltadas somente para tratar a temática. A partir dessa abrangência crescente de notícias ambientais na mídia, ainda que em condições específicas, jornalistas começam a se interessar e oferecer abordagens mais focadas no tema. Por isso, o jornalismo ambiental pode ser considerado como uma especialização jornalística. Porém, o seu conceito não pode ser simplista e restrito à abordagem puramente ambiental, pois considera também valores sociais e comporta intenções de responsabilidade com o meio ambiente incluindo cuidados com o planeta. Porém, é importante destacar que esse lugar de diálogo mais acentuado sobre o meio ambiente inicia e permanece nos veículos especializados, o que já foi um começo, pois exigiu um preparo mais focado dos jornalistas. Porém, a introdução nos veículos de comunicação destinados Às grandes massas, ainda faz uma abordagem superficial, básica e factual em cima de grandes tragédias, o que associa a ideia de que pauta de meio ambiente é somente desastre.

 O jornalismo ambiental deve ser promotor de um encadeamento de esferas, princípios e valores humanos e sociais em forma de notícia. No livro Ciudadanía Planetaria: Temas y desafios del periodismo ambiental, o jornalista uruguaio Victor Bacchetta  afirma que o Jornalismo ambiental considera os efeitos da atividade humana, desde a ciência e a tecnologia em particular, sobre o planeta e a humanidade. Deve contribuir tanto pela difusão de temas complexos e pelas análises de suas implicações políticas, sociais, culturais e éticas. É um jornalismo que procura desenvolver a capacidade das pessoas para participar e decidir sobre a sua forma de vida na Terra, para assumir em definitivo a sua cidadania planetária (tradução da autora). Ele explica que é um tipo de comunicação especializada que requer preparação e conhecimento para lidar com assuntos variados, como diversas ciências e teorias. Pode ser visto como uma filosofia de vida que pretende encontrar o sentido conciliador e social da proximidade do meio ambiente com o homem através das áreas do conhecimento, onde o homem oscila entre o centro e a margem das formações relacionais.

 Um problema ambiental é uma questão social

O sociólogo Hannigan acredita que a temática ambiental para virar notícia tem que configurar um problema social. Para isso, precisa seguir seis critérios para se tornar um problema ou uma questão ambiental e, consequentemente, notícia. São eles: autoridade científica para validação dos argumentos; a existência dos “popularizadores” que podem combinar ambientalismo e ciência; atenção da mídia, na qual o problema é “estruturado” como novo e importante; dramatização do problema em termos simbólicos e visuais; incentivos econômicos para uma ação positiva, recrutamento de um patrocinador institucional que possa garantir legitimidade e continuidade.

Outro aspecto que orienta a produção de notícias sobre o meio ambiente é o estabelecimento de delimitações, que interessam ao jornalismo, onde três tipos importantes de eventos ambientais podem ser identificados. Segundo Hannigan, os eventos são marcos históricos (Dia da Terra, por exemplo); as catástrofes (derramamento de petróleo, acidentes nucleares, incêndios tóxicos); e acontecimentos legais/administrativos (audiências parlamentares, julgamentos em tribunais, publicação de relatórios ambientais oficiais). Na reflexão de Hannigan, conforme descrição, o desastre da mineradora Samarco que criou o evento “lama em Mariana” enquadra nesse “padrão” para virar notícia.Virou, mas restrita a uma tabela de números de perdas, mortes e destruição.

O jornalismo ambiental, antes de ser classificado dessa forma por tratar de um tema específico e que ainda não foi totalmente internalizado na pauta da mídia, é jornalismo. Neste sentido, não há diferenças “abismais” que justifiquem a separação de dois fazeres jornalísticos que são afins na forma de busca e preparo da notícia. Mas no caso do jornalismo ambiental, por ser direcionado, podemos ter uma aspiração mais definida para causar interesse e atitude no olhar do público na sua relação com meio ambiente. Como diz Bueno, “o jornalismo ambiental, que é jornalismo em primeiro lugar, caracteriza-se por produtos (veículos, de maneira geral) que decorrem do trabalho realizado por profissionais que atuam na imprensa”.

 Por isso, deve ser visto da mesma forma como o jornalismo cultural, político, esportivo, econômico e deve receber a mesma importância. Apenas direciona para o assunto que vai ser tratado considerando, evidentemente, as peculiaridades de abordagem e apresentação do tema. Conforme o livro Alfabetização Ecológica –Meio Ambiente no século 21, do autor Frijot Capra, essa é a visão sistêmica, que se fundamenta no pensamento de que tudo está interligado, formando um sistema de múltiplas interações onde “todo organismo-animal, planta, micro-organismo ou ser humano- é um todo integrado, um sistema vivo”. Esta pode ser uma característica que está na raiz do jornalismo ambiental, que é de agregação e não de fragmentação. Logo, o jornalismo ambiental condensa, intensifica e converge áreas instituindo uma essência de articulação social a partir da própria natureza quando executa essa interação.

 Essas características políticas, sociais, culturais e éticas estão presentes no caso do rompimento da barragem em Mariana: Política porque envolve o estado de Minas Gerais, social porque virou um problema de ordem social e cultural porque desestabilizou a vida dos mineiros com seus hábitos e costumes, assim como espaços de artes foram soterrados, e a ética evidenciou a falta de condições, controle e de descumprimento de leis que desencadeou a ausência de ética com toda a conjuntura.

 O caso de Mariana torna possível fazer esse cruzamento de áreas porque o resultado desse acontecimento é oriundo de uma série de falhas sociais, administrativas e políticas, o que permite construções noticiosas mais profundas e analíticas mostrando as funções negligenciadas de cada área que ocasionaram essa sequencia mortífera de desastres. A visão sistêmica que consolida os pilares do jornalismo ambiental reforça que a atuação conjunta das áreas reflete em resultados que interferem na sociedade.

 Em se tratando da Samarco, a falha de gestão de um elo da cadeia que envolve o processo industrial, cadeia essa composta pelos setores ambiental, político, econômico, cultural (Minas Gerais tem tradição no ciclo da mineração), educativo, entre outros, determina uma crise cuja primeira manifestação foi atingir/agredir um elo da cadeia: o meio ambiente. A partir do estrago causado, de dimensão imensurável, apareceram os problemas de ordem administrativa das outras áreas, ou seja, dos outros elos. E isso enfatiza o funcionamento da engrenagem da máquina formada também pelo meio ambiente e por isso também que merece espaço na mídia independente de acontecer catástrofes porque dialoga com consistência e informação com outras áreas. Ou seja, o jornalismo ambiental deve ter independência e não ficar refém de tragédias causadas por fenômenos naturais ou acidentes para ter espaço na mídia.    

 Mariana grita por socorro

 A transformação de um tema ambiental em pauta e, posteriormente, convertido em notícia é um processo mais complicado quando precisa penetrar no âmbito do fluxo das políticas públicas, ou seja, quando precisa estar em consonância com os interesses políticos e econômicos da empresa jornalística. Nas últimas décadas, percebeu-se o surgimento de um jornalismo voltado para o mercado, em favor da sustentação da sociedade capitalista.

 No livro Sociologia Ambiental, John Hannigan o desafio da mídia é produzir uma notícia de cunho ambiental que a capacite a concorrer com as editorias tradicionais. Neste livro, há uma citação trazida por Hannigan que auxilia na compreensão: as políticas (ambientais) raramente resultam de um problema racional em que os problemas são identificados com precisão e, depois, cuidadosamente ligados a soluções otimizadas. A maior parte das políticas emergem duvidosamente, aos poucos a partir de uma complicada série de contratos e compromissos que refletem as tendências, objetivos e necessidades de realce das agências estabelecidas, comunidades profissionais e políticos ambiciosos.

 O caso da mineradora Samarco representa que o meio ambiente, se relaciona à política, à economia, à cultura, à educação, à sociedade. Esse tema para ser tratado de forma ampla deve ser através do cruzamento de áreas para que seja compreendido dentro do contexto globalizado e não como um assunto isolado como se não fizesse parte do cotidiano. O que percebemos de uma forma geral é uma cobertura baseada em números: número de mortos, número de desaparecidos, número de estados atingidos, quilômetros que a lama atingiu, número de peixes atingidos, morte do Rio Doce, multa para a Samarco.

Deixamos claro que essas informações são fundamentais como consequências de uma estrutura que fracassou no seu funcionamento, mas não deve ser o cerne da questão, embora tenha sido o promotor de interesse da mídia. Essa seria uma oportunidade de aprofundar o tema, com uma abordagem analítica que pudesse ter desdobramento para outros temas para ampliar o debate em torno da conscientização ambiental. Essa já deveria ser uma realidade intrínseca porque é necessária e essencial à existência da vida. Temos que entender que esse fato expressa claramente que a preocupação ambiental não deve ser uma particularidade de ambientalistas, mas sim, uma problematização social.

A mídia precisa adotar uma abordagem sistêmica e com viés mais analítico, que possibilite o acesso a informações que não se restrinjam ao factual, mas também culturalize na mídia a presença contínua do Meio Ambiente “saudável” e não com visibilidade limitada a eventos depreciativos e negativos.

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Taís Teixeira é  jornalista, professora e mestre em Comunicação e Informação

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