Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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JORNALISMO CIENTíFICO > Pensata

Dez inquietações, ideias e tendências que pintaram na maior conferência de jornalismo científico do mundo

Por André Biernath em 23/07/2019 na edição 1047

Reitores da Universidade de Lausanne e da Escola Politécnica de Lausanne na abertura do evento. (Foto: Luiza Caires)

Além dos queijos, dos chocolates e das paisagens de tirar o fôlego, a cidade suíça de Lausanne é conhecida mundialmente por ser a sede do Comitê Olímpico Internacional (COI), entidade responsável por organizar e promover os jogos esportivos que mexem com o mundo a cada quatro anos. Porém, durante a primeira semana de julho de 2019, o local foi capital de outro evento que muito interessa a nós, profissionais da imprensa: a Conferência Mundial de Jornalistas de Ciência.

Na edição de 2019, o congresso reuniu 1137 profissionais do jornalismo, da comunicação e da divulgação científica de 83 países, incluindo o Brasil. Em sua décima primeira edição, a conferência é o principal encontro global do setor. Veja, a seguir, dez destaques e pensatas que foram apresentados e discutidos por lá:

1. A ciência nem sempre tem dois lados
Atire os primeiros bloquinho e caneta quem nunca ouviu a frase “jornalista tem que ouvir os dois lados”. Acontece que, em ciência, as coisas podem ser um pouco mais complicadas. Ora, não há razão para entrevistar um indivíduo que acredita que a Terra é plana em toda matéria sobre o nosso planeta redondo, muito menos dar voz a alguém que não acredita em vacinas nas reportagens sobre os imunizantes. Nosso guia precisa ser a evidência científica e o que ela nos assegura (ou não) sobre determinado assunto.

Numa palestra inspiradora, a cientista Naomi Oreskes, coautora do livro Merchants of doubt (Mercadores da dúvida, em tradução livre), mostra como a própria indústria se aproveitou desse princípio jornalístico de isonomia para semear um ponto de interrogação na cabeça das pessoas. Isso ocorreu (e ocorre), por exemplo, em questões ligadas ao cigarro ou ao aquecimento global. Nas palavras da própria Naomi, precisamos rejeitar esse conceito de equidade cega e indiscriminada quando fazemos jornalismo de ciência. “Se continuarmos apostando nesse senso errôneo de justiça, cairemos numa falsa equivalência em que misturamos informações factuais com mentiras e desinformação”, afirma.

2. Sem empolgação: precisamos ser mais céticos
Nós, jornalistas que acompanhamos e escrevemos sobre essa área, temos uma terrível tendência de errar na mão e exagerar nos desdobramentos de alguns estudos. Não raro, nos animamos com evidências iniciais e divulgamos testes em cobaias como a cura para determinada doença. Esse é um assunto que gera um grande debate no exterior: como dizem os americanos, nós precisamos ser menos cheerleaders e mais watchdogs. Em bom português, não podemos jamais “torcer” pela ciência e pelos cientistas. Nosso dever é acompanhar com seriedade e fiscalizar os trabalhos sob os mais variados aspectos. Será que o dinheiro investido pela sociedade está sendo bem empregado naquele laboratório ou universidade? Há casos de abuso de poder ou assédio sexual dentro de determinado grupo de pesquisa? Essas são algumas pautas às quais precisamos dar mais atenção.

O jornalista Nalaka Gunawardene, do Sri Lanka, levantou um aspecto bem interessante sobre essa questão: parece que existe, na nossa atuação profissional, uma espécie de “tecnonacionalismo”. Toda a produção científica que advém de nosso próprio país pode ganhar uma proporção desmedida nos periódicos locais e nacionais. Por mais que saibamos todas as dificuldades de fazer ciência (contexto comum a várias nações mais pobres do globo), é interessante ter sempre um pé atrás antes de reportar o assunto de maneira descabida.

3. É vital proteger nossas informações pessoais
Vivemos tempos difíceis. De todos os lados do espectro político, acompanhamos o emergir de governos totalitários e autoritários, que não suportam a mídia independente. De acordo com estatísticas apresentadas pela repórter Dana Priest, do Washington Post (EUA), 1350 jornalistas foram assassinados de 1992 para cá e 250 profissionais da área estão presos (68 na Turquia, 47 na China, 25 no Egito, dezesseis na Arábia Saudita e dezesseis na Eritreia).

Quem pensa que a ameaça se restringe àqueles que cobrem política e economia ficarão assustados com o relato de Thomas Nilsen, editor do Barents Observer, da Noruega. Após divulgar algumas reportagens sobre a destruição do meio ambiente na região ártica da Rússia, ele foi considerado persona non grata pelo governo de Vladimir Putin e impedido de entrar naquele país. Seu site foi retirado do ar e só consegue ser acessado pelos cidadãos russos com uma conexão VPN – a proibição, aliás, curiosamente alavancou a audiência do site. “Autoridades que têm medo do jornalismo são autoridades que têm algo a esconder”, disse Nilsen em sua fala.

Nesse cenário, é importante que todos nós sejamos bastante cautelosos com as informações que disponibilizamos na internet (cuidado com o grupo do Telegram, pessoal!). Senhas de e-mail e redes sociais devem ser trocadas de tempos em tempos – prefira frases em vez de palavras soltas, inclusive. Outra dica é sempre ativar a autenticação de login por dois fatores. Por fim, gere arquivos e emails encriptados (é possível fazer isso por meio de serviços como o suíço ProtonMail, por exemplo) e esconda a sua localização GPS do celular, se achar necessário.

4. Quem vai pagar a conta?
Parece que a crise não tem fim: ano após ano, os passaralhos voam soltos pelas redações do Brasil. A queda do número de leitores e assinantes, aliada com a falta de interesse de anúncios publicitários, cria a fórmula-base para esse fracasso editorial generalizado. Mas depois de quase uma década de agruras, a situação parece estar se estabilizando. Um dos caminhos encontrados no exterior são as fundações: instituições ou grupos de indivíduos que se juntam para financiar o jornalismo sem nenhum interesse político ou financeiro aparente. A Fundação Bill e Melinda Gates, por exemplo, pagou uma quantia para que o jornal francês Le Monde desse mais espaço, em seus cadernos, para histórias positivas vindas da África. Essa é uma alternativa, mas não parece ser a solução para todos os nossos problemas. O que nos leva para o próximo ponto…

5. Dá pra ganhar dinheiro no jornalismo impresso?
Sim, as redações de jornais e revistas vivem um cenário de terra arrasada, com cortes sistemáticos no número de funcionários, qualidade do papel e recursos para investimento. Mas há uma luz no fim do túnel – pelo menos lá fora. Num debate que reuniu os diretores de redação das revistas Scientific American (Estados Unidos), New Scientist (Inglaterra) e Sciences et Avenir (França), o sentimento geral foi de esperança. Após alguns solavancos recentes, as três publicações hoje se sustentam e trazem até um pouco de lucro para seus donos.

Curioso que cada uma tem a sua estratégia: a revista inglesa aposta na força de seus assinantes e leitores de longa data. Já a Scientific American tem um olho muito atento no digital e investe bastante num site forte e atualizado. Mas o que chamou a atenção, mesmo, foi a Sciences et Avenir, que, ligada na reação do público mais jovem em suas postagens nas redes sociais (especialmente o Instagram), resolveu criar uma nova revista impressa de ciência voltada aos adolescentes e jovens adultos. Com o nome de #Science (com hashtag e tudo), ela passou a circular em território francês na semana passada. Um passo arrojado e que vai contra todas as análises de tendência atuais.

6. Como caçar as pautas que não estão no press release?
Na correria do dia a dia, falta tempo para sair da redação e conversar com as pessoas. Uma pena, pois é justamente nesses espaços que surgem as boas histórias! Uma apresentação da conferência reuniu jornalistas que discutiram estratégias para fugir das novidades que chegam apenas em informes de assessoria de imprensa. Podemos, por exemplo, marcar visitas sem compromissos em universidades, museus e hospitais. Participar de congressos científicos também é outra boa pedida, como sugeriu a jornalista independente Inga Vesper.

Mas nem sempre é preciso sair da frente do computador para saber o que está acontecendo. As redes sociais são uma ótima fonte de pautas para nós. Dom DiFurio, responsável pela estratégia digital do Dallas News, dos Estados Unidos, indicou ferramentas como o TweetDeck, que permite ver os principais comentários sobre determinado assunto no Twitter (dá até para determinar a região de onde eles vêm, para uma análise mais certeira!). Além disso, é vital criar laços mais fortes com nossa audiência e construir reportagens em conjunto com ela. Fóruns de leitores em grupos de Facebook e Reddit são uma mão na roda nessa troca com o público.

7. Chega de tragédias! Precisamos reportar as soluções
Sabia que reportagens construtivas, que focam em ideias e iniciativas, costumam atrair mais atenção dos leitores? De acordo com a palestra da jornalista freelancer Nina Fasciaux, as matérias precisam identificar os problemas e apresentar caminhos e soluções, uma vez que todo mundo está cansado de ler, assistir e ouvir sobre tragédias e banhos de sangue nos noticiários. Existe até uma associação que trabalha para incentivar mais trabalhos jornalísticos focados nas soluções: é a Solutions Journalism Network, sediada em Nova York (EUA).

8. Respire fundo e mergulhe nas estatísticas
Não tem como fugir: todo jornalista de ciência que se preze (e se preocupa com seus leitores) precisa saber ler um paper científico. E não dá pra pular direto para as conclusões sem analisar com cuidado a metodologia e os resultados brutos da pesquisa. De acordo com um estudo realizado em 2005 e publicado no Archives of Clinical Neuropsycology, 51% dos 791 artigos analisados tinham erros de interpretação de seus próprios dados. Isso está relacionado ao próprio sistema de publicação das pesquisas: sempre ganham destaque aquelas que trazem resultados positivos e, de preferência, surpreendentes. Na contramão, os outros que trazem conclusões negativas ou pouco impactantes são relegadas ao segundo plano e nunca ganham destaque na imprensa.

Vamos a um exemplo, trazido pelo professor de zoologia e jornalista de ciência Valentin Amrhein, da Universidade de Basel (Suíça), um dos responsáveis por levantar a discussão durante a conferência em Lausanne. Observe as duas manchetes: “Nova droga reduz o risco de ataque cardíaco em 50%” e “Nova droga reduz ataques cardíacos de 2 a cada 100 para 1 a cada 100”. As duas estão de certo modo corretas. Só que a segunda é muito mais verdadeira, pois retrata o risco absoluto (e não o risco relativo). Você há de concordar que ela é menos empolgante, mas, pelo menos, é muito mais responsável e próxima da realidade…

Ao entender melhor de números e estatísticas, somos mais verdadeiros e honestos com nossos leitores. O desafio está em encontrar boas histórias que contem a relevância dos estudos sem cair no sensacionalismo barato.

9. É possível ter boas ideias para um livro de ciência?
O grande sonho de muitos jornalistas da área é escrever um best-seller com uma narrativa boa e cativante. Mas como alcançar esse Santo Graal? Para o editor inglês David Bamford, o segredo está em contar histórias de pessoas. Podemos usar também todos os materiais já publicados e compilados nas bases de dados da ciência, caso do Pubmed, como orientou o escritor americano Thomas Abraham, autor de Pólio – A odisseia da erradicação (sem edição em português).

10. Vamos nos conectar?
Por fim, nenhuma dessas iniciativas, ideias e inquietações faz sentido se a gente não conversar. A conferência serve justamente para isso: reunir pessoas dos mais variados contextos para refletir sobre o que estamos fazendo com a nossa profissão – e, mais importante, como podemos melhorá-la e prepará-la para os desafios que virão. Essa reunião de profissionais ocorre internacionalmente, na própria Federação Mundial de Jornalistas Científicos. Também discutimos a criação de uma Associação Latino-Americana de Jornalistas de Ciência. A ideia, ainda embrionária, juntaria num mesmo grupo todo mundo interessado nessa área. Por fim, temos a nossa Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência, que há um ano e meio trabalha para ser um ponto de encontro e referência dentro de nosso país.

***

André Biernath é presidente da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência) e repórter da Revista Saúde, da Editora Abril.

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