Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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JORNALISMO CIENTíFICO >

Meu nome não é Viagra

Por Roxana Tabakman em 26/08/2015 na edição 865

Quem deu o título à matéria? A resposta fácil é “o editor” o que nem sempre é verdade. Às vezes, o apelo ao público pode ter nascido bem longe das redações.

Esta semana, a aprovação pela FDA (órgão americano regulador de remédios e alimentos), de uma droga de nome flibanserina que vai ser comercializada nos Estados Unidos como Addyi , recebeu no Brasil uma resposta mediática importante com o apelido de Viagra feminino. Eis alguns exemplos:
– “Bancaria testa recém aprovado Viagra Feminino “(revista Marie Claire),
– “Agência norte-americana aprova o Viagra feminino” (Jornal do Brasil),
– “Agência de medicamentos nos EUA aprova primeiro Viagra feminino” (Folha de São Paulo).
-“Viagra feminino abre nova era para tratar falta de libido” (Uol),
– “Viagra feminino recebe sinal verde de especialistas (G1).

A metáfora se amplificou em distintas redações:
– “Viagra feminino prevalece sobre riscos “(Exame);
– “Viagra feminino, muito barulho por nada” (IstoÉ).

Também fora do Brasil, o prestigioso jornal argentino La Nación colocou Viagra Feminino no título de todas as matérias sobre a flibanserina e na mídia britânica, para dar apenas uns exemplos, não apenas o sensacionalista Daily Mail fez referência ao “Female Viagra” como o mais sério The Guardian que apenas acrescentou aspas “female Viagra”. Google oferece exemplos em todas as línguas que esta autora consegue ler ou adivinhar.

Qual é o problema? Ninguém vai escrever flibanserina no título, todo mundo concorda. Addyi, o nome comercial para os EUA também não. E o Viagra todo mundo conhece, mesmo quem jura que nunca usou. As metáforas são muito usadas no jornalismo científico, mais fica a pergunta: O que levou as editores da revista Veja a dar relevância ao assunto com uma chamada de capa, destaque no sumário, e uma matéria de seis páginas sem usar em nenhum dos títulos o nome comercial da pílula azul? Sexo, desejo, libido feminina foram as palavras chaves. Como o The New York Times que deu a notícia como: a pílula da libido para mulheres. A diferença, com o resto da mídia é que eles acreditam que a distinção entre o estimulante do apetite sexual feminino e o Viagra não é menor. E estão certos.

A metáfora utilizada por boa parte da imprensa está completamente errada, a nova drágea cor-de-rosa não imita a pílula azul. Aliás, está bem longe disso. Juntá-los na gaveta do criado mudo parece natural: a flibanserina atua estimulando o desejo e o Viagra facilitando a resposta. Porem, é como misturar maçãs com laranjas. Primeiro: a nova droga que será vendida nos Estados Unidos, a partir de março, pode ajudar um pouco a algumas mulheres pré- menopáusicas, e com algum transtorno especifico, a disfrutar um pouco mais do sexo.

Mesmo assim, os dados sobre a eficácia do medicamento não são inequívocos, para não dizer bem fracos, e há consenso de que ainda são necessários mais pesquisas para que os médicos sintam confiança para receitar. Segundo: A principal diferença com o sildenafil (Viagra) não e’ apenas quantitativa: o remédio dos homens simplesmente relaxa a musculatura do pênis favorecendo a ereção, enquanto o produto para mulheres mexe com o complexo e ainda misterioso circuito cerebral da libido. A diferença é total.

Minha preocupação principal aqui é considerar o impacto junto ao público do uso da metáfora errada. Os títulos são, às vezes, a única coisa que as pessoas leem e que acabam determinando a forma como a informação é percebida. O destino e a influência de uma metáfora desacertada são impossíveis de prever. Vale a pena lembrar que o apelido “peste rosa” dado a AIDs em muitos países na década de 1980 teve grande responsabilidade na disseminação do vírus HIV entre os heterossexuais.

Uma das diferenças da flibanserina com o sildenafil é que se tornou muito mais importante evitar a massificação do consumo do remédio no público feminino. Desta vez estamos noticiando um remédio perigoso quando combinado com álcool, uma droga social que habitualmente entra em cena antes, durante o depois dos encontros eróticos. Não e’ brincadeira: a bula alerta que pode levar a uma queda da pressão arterial até a perda da consciência. Também não pode ser consumido junto a antidepressivos, antibióticos e antifúngicos, nem depois da menopausa, quando as mulheres mais precisam de uma ajudinha da ciência. Banalizar este novo produto chamando-o de Viagra feminino para atrair leitores pode ser um grande e perigoso erro. O impulso deve ser atenuado por una boa dose de reflexão, antes do consumo.

Precauções adicionais

Noticiar medicamentos sempre exige cuidados extras porque, nós humanos, somos atraídos pelo consumo de drogas e parece que os médicos acham que não se pode sair satisfeito de um consultório sem uma receita. Adicionemos neste caso que quando a performance sexual é o objetivo, a automedicação abrange desde um chá inócuo até drogas bem potentes. Em alguns casos, as empresas também contribuem para a desinformação.

Vale lembrar que logo depois do lançamento do Viagra, os especialistas em marketing recomendaram ao laboratório Pfizer que deixasse de falar em disfunção erétil para passar a caracterizar o remédio como uma ajuda para o desempenho sexual, ao mesmo tempo que as imagens publicitarias passaram a se utilizar de homens cada vez mais jovens para promover o produto. Foram mudanças destinadas aos pacientes- consumidores das chamadas life-style drugs (drogas do estilo de vida), que não se destinam a curar doenças mas sim melhorar a qualidade de vida. É o que pode acontecer com o marketing voltado para as consumidoras da flibanserina.

O uso equivocado da expressão Viagra feminino é um erro condenável que só favorece os felizardos investidores das empresas que lucraram ou lucrarão com a nossa inocente publicidade gratuita. Mesmo assim, este texto não pretende ser uma advertência sobre a necessidade de cautela diante das armadilhas dos laboratórios. Até porque a história deste novo remédio não responde apenas ao desejo de alguns de ganhar mais dinheiro.

O lobby político- mediático já estava trabalhando desde o ano 2004, quando a bíblia dos psiquiatras (DSM – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) incluiu o Desejo Sexual Hipoativo na lista dos transtornos mentais. Semana passada, algumas associações feministas celebraram a aprovação da droga como uma mudança de placar: de 26-0 a 26- 1. Vinte e seis é o número de drogas aprovadas nos EUA para tratamento da disfunção sexual masculina e agora a flibanserina tornou-se a primeira a favorecer as mulheres. O grupo feminista Even the Score (Igualemos o Placar) qualificou publicamente o lançamento da flibanserina como uma batalha vencida na guerra pela igualdade de genro. (Vale esclarecer que paradoxalmente, o prazer feminino não foi o objetivo inicial do desenvolvimento da droga. O aumento de libido foi um efeito colateral imprevisto referido por mulheres voluntarias nos testes em que a flibanserina era experimentada como um remédio antidepressivo).

O desafio jornalístico

Na hora de escolher o título das matérias, o principal desafio é sem dúvida atrair a atenção do público. É por isto que muitas das fontes às quais recorremos para obter informações se queixam que nós os jornalistas exageramos as coisas, que prometemos mais do que o texto oferece e não respeitamos os manuais que indicam que os títulos não devem deixar dúvidas. O desafio que se impõe na hora de titular não pode se limitar a facilitar a compreensão com palavras atraentes que todo mundo entenda. E preciso reconhecer o impacto das mensagens e dar o significado correto aos fatos, principalmente quando se noticia um acontecimento médico. Vivemos numa época que mais viu crescer a redução da tolerância ao desconforto, o aumento da consciência dos sinais corporais como problemáticos e a preferência por soluções rápidas. Com a aprovação nos Estados Unidos de este novo remédio para o sexo, há uma nova porta que se abre e os jornalistas precisam ficar atentos ao que há por trás delas.

***

Roxana Tabakman é bióloga e jornalista. Autora do livro “A saúde na mídia: Medicina para jornalistas, jornalismo para médicos” . Ed. Summus.

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