Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNALISMO CIENTíFICO >

Os desafios do jornalismo especializado em saúde

Por Roxana Tabakman em 11/04/2018 na edição 982

Esta semana, o dia do jornalista e o dia da saúde encontrou aos jornalistas que fazem cobertura de saúde sem muito para comemorar. Mas um grupo deles compareceu a um encontro em São Paulo para debater caminhos para continuar a fazer a diferença na vida das pessoas em condições de trabalho tão difíceis.

O debate foi liderado por André Biernath, repórter da revista Saúde, Fabiana Cambricoli, do O Estado de São Paulo e o médico Emerson Gasparetti da empresa DASA, organizadora do evento. Falou- se na precarização do trabalho de jornalista em relação a um público que deverá estar cada vez mais informado, e a diminuição do espaço fixo dedicado aos temas de saúde na grande mídia.

Fabiana chamou a atenção para o chamado “efeito manada” dos sites que divulgam informação inválida. “As fake news têm muito impacto na população. Na redação, temos que ter cuidado para checar com cuidado as informações. Mesmo que elas estejam circulando em vários sites, não quer dizer que elas estejam corretas”, disse.

Outros problemas da função derivam, pelo contrário, do excesso de informação que levou a atual hiper especialização da profissão médica. Na hora de procurar fontes, os jornalistas estão encontrando cada vez mais dificuldade em falar com “experts” que conheçam realmente dos assuntos requeridos.

Nas matérias de saúde, há responsabilidade por parte do repórter de realizar uma apuração cuidadosa, houve consenso nessa afirmação. Mas no dia a dia, nem sempre se consegue. Nas revistas e os jornais, há cada vez menos jornalistas especializados, e estes estão sobrecarregados na hora de alimentar com conteúdo de qualidade suas páginas habituais, assim como os sites e redes sociais.

André Biernath levou a debate um assunto pouco falado. “As vezes, não vemos ou não mostramos a nosso público os bastidores das notícias de saúde, não fazemos o papel de watch dog como se faz mais em outros países”, lamentou.

No assunto que deu título ao evento, “Saúde que queremos, pautas que fazemos”, houve entre os palestrantes e o público ideias por momentos opostas sobre os assuntos que devem se cobrir. Seguir a atualidade científica ou prestar serviço público divulgando apenas o que as pessoas realmente vão ter acesso?

Houve jornalistas que descreveram o sofrimento pessoal que provoca divulgar um serviço, método de diagnóstico ou tratamento que o público dele não vai ter. Outros, porém, insistiram na necessidade de sair da pauta do possível, exemplificada em dieta e exercício, para mostrar o que a ciência de ponta representa no presente e no futuro da medicina e da saúde, e destacaram a necessidade de manter viva a paixão pelo conhecimento e a descoberta. No sentido prático, foi dito que sair da pauta do possível ajuda ao empoderamento dos pacientes, sendo este aceito como um caminho para um Brasil melhor.

“O dinheiro da saúde não está na saúde, está na doença” reconheceu o doutor Emerson Gasparetti, VP da área médica da empresa DASA, organizadora do evento. “E os jornalistas são os que podem, como ninguém, ter um grande impacto na primeira”.

Houve, também, um anúncio esperançoso. Cientes de que jornalismo especializado se aprende no dia a dia, sobre a base de que a formação do jornalista é deficitária em assuntos de ciência e saúde, um grupo de jornalistas está organizando a Rede Brasileira de Jornalismo Científico. O grupo, independente, pretende conectar jornalistas de todo o país, com o objetivo essencial: melhorar a formação dos jornalistas e, em consequência, que estes possam gerar conteúdo de melhor qualidade para a população. Todos os que produzem conteúdo de saúde e ciência estão convidados.

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Roxana Tabakman é jornalista científica, autora de “A saúde na Mídia, medicina para jornalistas, jornalismo para médicos” (Ed. Summus).

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