Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNALISMO CULTURAL >

Educação e Arte, narrativas para a mídia

Por Hebe Rios e Renata Aparecida Felinto dos Santos em 18/09/2018 na edição 1005

O improviso no ensino de artes, ou sua total ausência nas escolas públicas, contraria a Base Nacional Comum Curricular, a BNCC, homologada em dezembro de 2017. As escolas particulares também não priorizam esse saber, e as que oferecem artes como disciplina, com o mesmo peso de matemática ou língua portuguesa, por exemplo, tornam-se referência. Essa é a certeza que desconcerta e indigna a artista visual, professora universitária e pesquisadora Renata Felinto, que abriu a palestra sobre Arte e Educação, dentro do Programa de Capacitação Técnica da Funarte 2018, em Campinas-SP, na segunda semana de setembro.

O Programa itinerante da Funarte vem oferecendo durante todo o segundo semestre deste ano (de julho a dezembro) oficinas de capacitação técnica com profissionais e pesquisadores de vasto currículo no ensino da música, dança, teatro e artes visuais, além de palestras com artistas e educadores. Renata ofereceu a oficina de capacitação técnica Performar a vida: arte como estratégia de existência. Fez questão de lembrar também na abertura da palestra que as instituições nem sempre consideram sua situação de mãe sozinha, que tem dificuldades para deixar os dois filhos no interior do Ceará, onde vive e trabalha, apesar de paulistana, para falar sobre arte, educação e história. “Só estou aqui hoje porque essa realidade foi considerada”.

Quando ainda vivia na cidade de São Paulo, viu uma obra de arte pela primeira vez aos 13 anos. “Antes disso só tinha acesso ao que chamava de arte, na cultura de massas, como no caso da Monalisa no desenho do Pica-pau”, diz. Quando entrou no colégio técnico, Renata passou a ter contato com colegas da classe média alta. A convivência com pessoas que viviam outra realidade deu a ela a esperança de que bastava ter a mesma formação para ter as mesmas oportunidades. “A convivência com meus colegas me levou a descobrir que existia uma coisa chamada Universidade pública e que eu poderia sim fazer um curso superior”, lembra.

A Universidade pública foi a Unesp e o curso, Artes Visuais. Depois vieram o mestrado e o doutorado na mesma Universidade e uma especialização em Educação e Curadoria em Museus de Arte pelo MAC/USP, com pesquisas em história, cultura afro-brasileira e mulheres na arte. Renata lembra a perda do acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, no início do mês de setembro. O incêndio queimou vinte milhões de itens do acervo, sem contar os danos expressivos ao prédio que os abrigava. Para a pesquisadora, mesmo sabendo que muito do acervo representava a história construída a partir de olhares europeus e eruditos, é lamentável que o fogo tenha destruído parte essencial de elementos que testemunham o processo de construção de identidades no país. Mas para ela, um processo tão avassalador quanto o fogo que destruiu o Museu Nacional, tenta deixar sob as cinzas do tempo as novas narrativas sobre a história brasileira, especialmente as que realçam os traços e contribuições da cultura negra.

A vida acadêmica despertou, por isso, a atenção ao que Renata chama de “falta de percepção e sensibilidade dentro de muitas Universidades para estimular a escrita de novas narrativas”. Essa lacuna passou a ser para ela um campo de pesquisa e prática artística. Na oficina de capacitação técnica, Renata apresentou a produção de artistas que têm usado suas próprias biografias como matéria-prima para performances e construção de novas narrativas sobre si e sobre o mundo. “A performance como linguagem aciona dados das biografias dos participantes como elemento criativo”, diz ela.

Apresentou o trabalho de minorias políticas como artistas visuais de origem afro-brasileira, indígenas, mulheres, homossexuais e homens que se diferenciam do padrão branco, dando atenção à regiões muito além dos tradicionais circuitos de arte, que deixam “o lugar do homem branco como gênio da história da arte. É uma escolha sair da leitura hegemônica e pensar em quem não está nos livros”. Pelo menos 90 mulheres negras artistas visuais, em plena produção, foram catalogadas pelo grupo de pesquisa NZINGA – Novos Ziriguiduns (Inter)Nacionais Gerados nas Artes, da Universidade Regional do Cariri, no Crato, Ceará, onde Renata é professora. “Se os livros são obsoletos, os currículos são obsoletos, o que não está neles é preciso mostrar de outro modo”.

Na performance a partir da história pessoal, uma das participantes da oficina quis usar o cabelo como demarcador estético da luta contra a própria natureza. Já outro criou a performance a partir de frestas e buracos de um espaço arquitetônico. Viu neles a possibilidade de discutir e alertar para a negação de oportunidades e as lacunas da própria formação. Essa metodologia Renata aplica também em sala de aula. “Na falta de aparelhos culturais adequados os alunos são estimulados a ver nas pessoas destacadas e omitidas na história da própria cidade, a construção do conceito de patrimônio e de educação patrimonial, o que se alinha à história do Museu Nacional queimado, que muitas pessoas não compreenderam os motivos de tanta comoção”. Na base dessa forma de ensinar, a pesquisadora lembra a arte educadora Ana Mae Barbosa, referência no Brasil. Seus estudos mostram que a arte mobiliza outras formas de pensar, desenvolve habilidades na cognição, sensibiliza e propõe uma investigação própria do ser humano. É, portanto, essencial para a educação e na educação.

Na contramão desse pensamento estão muitas vozes dentro do próprio ambiente escolar. São professores que, segundo Renata, não conhecem e não querem trabalhar com arte educação. Nessa perspectiva, estimular a arte educação nas escolas seja talvez tão difícil hoje quanto era na década de 1980. “A diferença é que hoje existem mais pesquisadores bolsistas de agências de fomento à pesquisa estudando arte educação e os professores podem contar com metodologias já reconhecidas”, diz.

Não há, propriamente, uma novidade nessa constatação, que vem principalmente a partir dos estudos da pesquisadora Ana Mae Barbosa em escolas onde jovens e crianças só conheciam a Monalisa do desenho, assim como Renata. O desafio é levar a discussão sobre novas narrativas para a mídia que vive a era do conteúdo. A televisão que durante muito tempo exerceu o papel de babá eletrônica, ainda não perdeu esse posto em muitas famílias, mas hoje sua audiência se serve cada vez mais da mídia digital e sua rede de informação e entretenimento.

As plataformas digitais de produção e distribuição de conteúdo não parecem investir, porém, em novas narrativas sobre arte, educação, história e patrimônio. Até agora, aparentemente, o que tem surpreendido é a quantidade de narrativas falsas sobre informações, pessoas, grupos e temáticas. Para a inversão do vetor das notícias falsas, por exemplo, muitos grupos de mídia até se associaram. Mas, as iniciativas de regulação e monitoramento das redes ainda não foram capazes de barrar a circulação de narrativas nocivas até mesmo para a vida democrática. Dentro e fora das Universidades é o momento de refletir porque existe uma relação inversamente proporcional entre a disseminação do novo que é falso e do já conhecido, sob novas perspectivas. Parece ser menos uma questão de algoritmo do que de semântica.

Voltamos, então, ao ponto de partida deste texto: Não existe educação sem arte e nem arte sem educação. As duas são irmãs gêmeas. A arte da qual a pesquisadora Renata Felinto fala é a que deveria ser prioridade, aqui já consideradas as críticas feitas à Base Nacional Comum Curricular, que delimitou o ensino de artes ao campo das Linguagens. A educação que pratica é aquela que não forma pessoas apenas para concorrer, mas para pensar, compreender, cooperar e assim ter consciência de que somos seres narrativos. A forma como contamos nossa história determina não só quem somos, mas quem queremos ser.

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Renata Aparecida Felinto dos Santos é professora Adjunta de Teoria da Arte do Centro de Artes (Reitora Mari Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau) Coordenadora do PIBID Sub Projeto Artes Visuais, Componente do Comitê de Pesquisa Científica, Componente do Observatório da Violência da URCA/CNPq.

Hebe Rios do Carmo é jornalista, mestranda do Programa de pós graduação em Linguagens, mídia e arte, LIMIAR – PUC-Campinas, Especialista em mídias digitais – Metrocamp – Campinas, graduada em História – FEPI.

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