Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNALISMO CULTURAL > Artistas, fãs e redes

Tribalistas não precisam de jornalismo

Por Pedro Varoni em 15/08/2017 na edição 954
Tribalistas

Os Tribalistas: um retorno sem mediação do jornalismo (Foto: Reprodução/carlinhosbrown.com.br).

O compositor Nando Reis, em entrevista ao programa Conversa com Bial na TV Globo sobre o lançamento de seu novo disco “Jardim Pomar” queixou-se da falta de espaço no caderno de cultura do maior jornal de São Paulo por não ter dedicado única linha ao trabalho. Não que precisasse disso, acrescentou, porque hoje os artistas criam espaços diretos de comunicação com o público.

A fala de Nando não teve qualquer traço de arrogância ou mesmo mágoa. Foi um comentário que apontou para um mundo em transformação. Não é possível saber se a Folha ouviu as queixas de Nando, mas quando se apresentou, em São Paulo, ao lado de Gilberto Gil e Gal Costa no show “Trinca de Ases”, o ex- titã ganhou destaque na edição de domingo com uma reportagem de página inteira na coluna de Mônica Bergamo.

Dias depois, o jornalista Júlio Maria publicou no site do Estadão uma crítica a volta dos Tribalistas —Marisa Monte, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes— comentando o fato deles terem feito tudo às escondidas, sem avisar aos jornalistas. Recorrendo às redes sociais, o grupo lançou seu novo trabalho ao vivo no facebook e os números da audiência impressionam.

Os artistas foram vistos por 5,62 milhões de pessoas em 52 países diferentes, incluindo destinos distantes como Rússia e Paquistão. O tom de Júlio é também queixoso: “as redações, ignoradas, até então, só receberam informações na tarde de ontem. Quando vier um show dos Tribalistas, talvez essa informação seja passada em primeira mão aos jornalistas porque “será preciso vender ingressos”, conclui o crítico do Estadão.

Os dois episódios são reveladores de uma crise de contato entre o chamado jornalismo cultural e os artistas. Nando parece levemente nostálgico de um mundo onde havia uma relação dialógica que dava significado às obras lançadas a partir da mídia de massa: dos festivais de música exibidos na televisão nos anos 1960 às páginas da Ilustrada (caderno de cultura da Folha de S.Paulo) vinte anos depois.

As novas formas de circulação são mais democráticas e não precisam do antigo modelo de mediação que dependia de critérios eletivos dos jornalistas culturais, quando não do poder econômico das gravadoras. Hoje, a pluralidade de vozes é maior. Os artistas comunicam diretamente com seus fãs, esses contribuem para propagar o conteúdo. Os Tribalistas tem a força e a usaram dentro das regras do jogo, outros tantos passam de quase desconhecidos a famosos se valendo das redes conectadas.

O implícito nas queixas de Nando e Júlio é a relação com o público: a quem se destinam as canções e a produção jornalística. O tradicional filtro feito pelos editores hoje está nos algoritmos e nas palmas das mãos de todos. As páginas dos artistas preferidos nos chegam para a curtida e compartilhamento.

A antiga mediação entre os jornalistas e artistas não faz mais sentido e, diante desse contexto, é bom retomar uma pergunta básica: pra que serve o jornalismo cultural no mundo contemporâneo? A pergunta demanda mais complexidade do que é possível resolver nesse espaço, mas uma das respostas possíveis pode ser encontrada na relevância dialógica que esse tipo de jornalismo já teve no passado.

De um lado a tradição da música brasileira onde se inscrevem Nando Reis e os Tribalistas e o significado dela para o público, de outro a forma como momentos criativos da vida cultural brasileira — como o final dos anos 1960 — estavam associados a uma ponte entre o jornalismo e a criação. Ecos do Pasquim e de outras conexões, como o programa “Abertura” da extinta TV Tupi, ou o “Ensaio” de Fernando Faro, para citar alguns espaços de encontro que faziam bem aos jornalistas e artistas.

Num ano de perdas tão significativas como a de Belchior, Luiz Melodia e Jerry Adriani, a sensação de orfandade se amplia diante de um vazio simbólico em relação as linhas de continuidade entre o passado e o presente da música popular brasileira.

Não se trata de negar a profusão de conteúdo bom relacionado às questões da música brasileira dentro e fora do meio jornalístico. Ensaio recente do psicanalista Tales Ab Saber sobre o antológico álbum “Clube da Esquina”, número 1, ilumina a potência daquela produção e nos convida a uma outra escuta, facilitada porque as canções estão indexadas ao texto.

O texto de Ab Saber não é único, outros tantos circulam sem que deles tomemos conhecimento, o que nos leva a pensar num novo tipo de mediação para o jornalismo cultural: a curadoria de informações. Algo que pode ser muito facilitado pelos meios digitais.

A possibilidade de desenvolver conteúdo interativo, multimídia, sem limitação de tempo e espaço — podendo ressignificar memórias que falem ao presente — abre um leque narrativo para os temas em torno da canção popular brasileira: de estudos acadêmicos ao dia a dia dos artistas.

Num mundo de algoritmos curadores, é tempo do jornalismo se reinventar como presença humana no jogo cultural. A crise que atravessamos demanda, sobretudo, a busca de novas linguagens. Talvez aí esteja o ponto de intersecção entre as queixas do compositor e do crítico, ambos saudosos do jornalismo que já não há.

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Pedro Varoni é jornalista e editor do Observatório da Imprensa.

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