Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNALISMO CULTURAL > Convivendo com o Netflix

Um crítico para chamar de seu

Por Franthiesco Ballerini em 17/03/2017 na edição 937

Com bastante frequência, ex-alunos e alguns veículos de imprensa me perguntam se o jornalismo cultural se tornou irrelevante com o advento digital, com leigos e especialistas promovendo de tudo em redes sociais, de forma gratuita. Netflix logoE eu sempre respondo a mesma coisa: nunca antes o jornalismo cultural se tornou tão relevante como atualmente, no século 21. E para entender isso, basta um exemplo, talvez o mais significativo: o Netflix.

Desde que Gutemberg criou a prensa móvel, por volta de 1450, até o final dos anos 1980, as críticas, notas e reportagens sobre os lançamentos de produtos de arte e entretenimento serviam como um guia para o leitor escolher a novidade que estava em cartaz na cidade que mais o apetecia para o final de semana. Mas, obviamente, o oficio ia além disso: críticas de veículos sérios ajudaram a construir um panorama da produção cultural daquele momento. E uma vez que o jornalismo é um dos construtores hoje do que será história amanhã, o jornalismo cultural é, portanto, um dos construtores hoje do que estará nos registros de história da arte amanhã.

Ao serem as maiores fontes de consulta sobre produtos de arte e entretenimento no mercado, os veículos de imprensa não só possuíam um poder sobre a “história da arte do hoje” como também um conforto financeiro, pois eram muito buscados por estes próprios produtores culturais na forma de espaço publicitário. A roda girou confortavelmente, por décadas, já que críticos e repórteres culturais eram, sem dúvida, indispensáveis para o consumo cultural.

Netflix divulgacao

Netflix divulgação

Mas quando a internet chegou e, posteriormente, os sites de download, blogs e as redes sociais, a impressão que ficou é que jornalistas culturais se tornaram dispensáveis. A pesquisadora da UFRJ, Cristiane Costa, relatou-me certa vez um ponto de vista interessante, durante a pesquisa do ‘Jornalismo Cultural no Século 21’. Dizia ela que “o best-seller em nada depende dos jornais. Já as livrarias fazem diferença. Com o sistema de reputação eletrônico da Amazon (algo como ‘se você gostou do livro tal, quatro leitores gostaram destes outros livros também’), o crítico é ainda menos relevante no ato da compra de livros, pois esse sistema eletrônico faz uma comparação assertiva de estilos e gostos”.

Em outras palavras, um sistema eletrônico percebe que você gostou de um produto cultural e, ele mesmo, te indica outros produtos semelhantes. Evidentemente, o ofício da crítica de arte não se resume a indicar produtos, mas também a colocar a obra em crise (nas palavras de Jean-Claude Bernardet), ou seja, refletir sobre suas formas, estética, técnicas, como se comunica com o mundo e com o local onde foi produzida, se existe nela algum legado significativo para o campo das artes etc.

Mas, indiretamente, Cristiane Costa acabou por apontar um ofício fundamental do crítico cultural: ele é o filtro que nenhum sistema de reputação eletrônico ainda é capaz de ser, dada a complexidade das escolhas no campo da arte e entretenimento. E a prova cabal da importância desta função nas mãos de um crítico profissional é justamente filtrar, num oceano de produtos de arte e entretenimento que diariamente são lançados no mercado, aquelas gotas que realmente valem a pena perdermos nosso tempo para apreciar e consumir.

E dentre todas as plataformas de consumo cultural que hoje existem, talvez o Netflix seja a que mais evidentemente mostra a importância do jornalista cultural. A maioria dos seus assinantes já passou por um dos dois cenários a seguir e, em ambos, o filtro do jornalista cultural acaba se tornando um objeto de desejo.

Cenário 1: um consumidor sem grandes exigências de qualidade no campo da arte/entretenimento cinematográfico ou televisivo. Ao iniciar sua experiência com a plataforma, encontra-se diante de um vasto oceano de produtos, para nadar livremente. Consome tudo que vê à frente, dando prioridade apenas ao que está mais em evidência na vitrine do Netflix. Mas com o passar do tempo – e depois de gastar muito tempo neste oceano – ele percebe que nadar nele ficou enjoativo, que era preciso dar “braçadas” mais eficientes, mais prazerosas, a fim de se ter a sensação de estar chegando em algum lugar. Este consumidor começa a se dar conta de que capturou muitas gotas deste oceano de baixa qualidade e perdeu um precioso tempo de sua vida consumindo bobagem, que nem mesmo entretinha como ele previa. E tempo não volta atrás. Ele, então, começa a se cansar daquelas águas.

Cenário 2: um consumidor mais exigente, aquele que quer filmes e séries que entretenham mas que também agreguem nos quesitos criatividade, originalidade, visual ou, em palavras mais técnicas, roteiro original, direção de arte, atuação, direção, fotografia etc. Este consumidor, ao entrar no Netflix, fica absolutamente perdido. A primeira reação é achar que, dentro daquele oceano, há poucas gotas realmente válidas – especialmente no quesito filmes – e elas estão espalhadas, perdidas num vasto território a navegar. Descobre, por acaso, que ao contrário do que parece, a plataforma oferece, sim, filmes e séries não-hollywoodianas, o que os leigos chamam de “filme de arte”, mas estas gotas são ainda mais difíceis de encontrar. Este consumidor é um pobre navegador em busca de um farol: o filtro do jornalista cultural.

Os veículos de imprensa já estão se dando conta da importância do jornalista e crítico cultural em plataformas como o Netflix. Alguns jornais, revistas e portais já estão dedicando tímidas colunas para dar dicas do que realmente vale a pena no “oceano Netflix”. Mas são espaços proporcionalmente menores do que realmente deveriam ser, diante do consumo cada vez maior dos brasileiros no Netflix. Um espaço tímido porque, talvez, esta plataforma vai de encontro com os interesses de alguns anunciantes tradicionais – emissoras de TV aberta e paga, distribuidoras de cinema etc. – ou talvez porque os jornalistas culturais destes veículos também têm uma baita dificuldade em navegar por essas águas.

Um ano atrás, o Netflix abriu uma vaga no Brasil que alguns brincavam ser “a vaga dos sonhos”: filtrar e classificar o portfolio de filmes e séries, facilitando a busca. Ou seja, ganhar dinheiro para ficar em casa vendo série e filme. Um ano depois, quem quer que tenha sido o nadador escolhido, estas águas continuam confusas, turvas. A vaga, afinal, talvez não era um sonho como se imaginava. Afinal, nadar no escuro dá medo. E cansa.

***
Franthiesco Ballerini é jornalista, autor do livro ‘Jornalismo Cultural no Século 21’

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem