Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNALISMO ECONôMICO > Credibilidade em baixa

A influência política no jornalismo econômico

Por Nereide Beirão em 14/11/2017 na edição 966

Inflação sobe 2,81%, na segunda prévia do IGPM de outubro. Taxa acumulada de janeiro a outubro é de 13,64%.

Agência de Classificação de Risco Fitch rebaixa a avaliação de títulos da dívida brasileira.

Redução de empregos na indústria em agosto, é de 0,3% em relação ao mês de julho e o salários caem 1,6%, segundo o IBGE.

Dólar sobe 1,03% e fecha com cotação de R$3,91, motivado pelo vencimento de 1 bilhão e 100 milhões de dólares de dívida cambial.

Queda de 30% nas vendas de pacotes de viagem para o exterior.

Esse é o noticiário econômico do dia 30 de setembro de 2002, no Jornal da Globo, com Ana Paula Padrão. As notícias são péssimas, mostram uma grave situação econômica do Brasil de então, mas todas elas foram exibidas serenamente, no segundo bloco do jornal, em notas curtas, sem imagens, apenas com os números na tela. Nenhuma delas estava nas manchetes do telejornal ou foi destaque. Não mereceram reportagens, entrevistas, gráficos, comentários.

Estávamos no fim do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, em período eleitoral, mas o tom do noticiário não fugia ao habitual.

Em outra gravação de um Jornal da Globo, de maio de 1999, com Lilian Witte Fibe, notícias econômicas preocupantes:

Bolsa de Valores fecha o dia com queda de 4.9%.

Títulos da dívida pública brasileira caem 2,6% e o dólar sobe.

Governo revê para baixo, pela quarta vez, a meta anual da balança comercial, acertada com o FMI.

E imagens mostram uma gigantesca fila, em Brasília, de candidatos a uma “frente de trabalho”. A contratação é por tempo determinado, seis meses, e o salário mínimo, de R$136,00. Novamente, um noticiário econômico muito negativo, mostrado sem estardalhaço, sem adjetivação, de forma calma. As palavras crise, desemprego, rombo, descontrole e verbos como despencar, derrubar não são usados. As notícias não são relacionadas ao governo. O nome do presidente não é citado. Não há entrevistas com desempregados, políticos, repercussão no Congresso. Há uma sonora do porta-voz da presidência dizendo que o governo estava preocupado com a situação econômica. Da Argentina…

Saltando no tempo, para abril de 2013. O grande aumento no preço do tomate gera horas de reportagens, comentários, debates nas rádios e TVs e manchetes nos jornais. Ana Maria Braga usa um colar da fruta em seu programa matinal. Capas quase iguais da Veja e de Época tratam do aumento do preço do tomate, vinculado a imagem de Dilma Rousseff. Mesmo em época de entressafra, com peso pequeno no índice do custo de vida e estando longe de ser um dos principais produtos da alimentação do brasileiro, o aumento causa comoção. Representa descontrole inflacionário no país, alertam todos. Como viveremos sem o tomate? Até o Financial Times faz reportagem sobre o aumento, ouvindo donos de pizzarias de São Paulo.

A situação econômica de um país se reflete diretamente na política. E a política influencia cada vez mais o jornalismo econômico. A linha editorial acompanha o que os donos das empresas jornalísticas e seus anunciantes entendem ser o melhor para a economia. A partir deste entendimento definem-se as pautas, os destaques, os entrevistados, os colunistas.

Se a política econômica adotada pelo governo não está de acordo, o tom do noticiário muda. Os números, que não deveriam mentir, mentem. Podem ser muito bons ou ruins dependendo do parâmetro e do destaque que recebem. Podem ser selecionados, escolhidos, comparados com o mês, o trimestre, o ano ou até a década anterior. As entrevistas, principalmente com os economistas, os “especialistas” que normalmente erram bastante, reforçam o tom catastrófico ou esperançoso da situação.

E os temas em destaque? Direito do consumidor, noticiário das pequenas e médias empresas, regional e local, agricultura familiar são deixados de lado. Nos últimos anos, o assunto principal foi o déficit público. Era discutido em mesa de bar, foi pano de fundo para as “pedaladas” e daí, para o golpe contra Dilma, foi um pulo.

O déficit cresceu, as “pedaladas” já não são crime e até são parte das medidas necessárias e que estariam sendo tomadas . O discurso é otimista. Aumento de 0,2% no PIB, redução na taxa de juros, inflação baixa, contratações em alguns setores são motivos de grande comemoração. A palavra crise praticamente deixou de ser usada. O que importa é a “estabilidade”, a confiança dos empresários e, principalmente, do mercado financeiro.

É um alívio ver um noticiário mais otimista. Mas não há como fugir da realidade que, mais cedo ou mais tarde, sempre se sobrepõe ao mundo feliz ou infeliz do noticiário. O que vem despencando, para usar uma palavra/imagem que esteve em moda, é a credibilidade do noticiário econômico.

**

Nereide Lacerda Beirão é jornalista. Foi Diretora de Jornalismo da EBC e da TV Globo Minas. Professora e Diretora do Centro de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais. É autora do livro “Serra”, publicado em 2012.

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