Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNALISMO INVESTIGATIVO > Novas formas de apuração

Em tempos de rapidez, como fazer jornalismo investigativo?

Por Ricardo Missão em 08/08/2017 na edição 953

Fazer jornalismo investigativo é uma tarefa árdua e trabalhosa, pois exige profundidade de checagem, dispêndio de tempo e disponibilidade de recursos que influenciam na qualidade de informação e conteúdo. Nos últimos anos, as redações têm passado por um processo de transformação em que as pessoas buscam no conteúdo online e, principalmente, nas mídias digitais, uma forma de se manter atualizadas. É preciso repensar a notícia e debater a qualidade de informação que, poderá impactar de modo direto na audiência e credibilidade do veículo de comunicação.

O Jornalismo é por essência investigativo. É checagem, reportagem com dados, pauta com subsídios suficientes para produzir reportagem e, com isso, até chamá-la de especial. É pauta com fontes, personagens e dados. Muitas vezes, pensamos que produzir uma reportagem por uma emissora do interior ou centro-oeste paulista seria algo muito distante ou algo que só existiria nas grandes redações das capitais, mas não.

Embora seja pouco, isso ainda pode ser visto nas redações de televisão levando em conta a região, dinâmica e escolha do tema determinante para se investir numa pauta.

Há mais de um ano e meio na produção de reportagens investigativas para a TV TEM na cidade de Bauru, região do centro-oeste paulista, foi possível vivenciar como ocorre às produções locais e, entender de que forma assuntos específicos dessa região repercutem no cenário local e nacional. Já contava com a experiência do uso de ferramentas de pesquisas e checagens dos lugares por onde passei como, a EPTV de São Carlos e jornal O Movimento de Pirassununga.

O jornalista Ricardo Missão fala sobre jornalismo investigativo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em Bauru, meu trabalho se deu, especificamente, com o jornalismo investigativo.  Utilizei de recursos para a checagem de pautas de denúncias e o auxílio de ferramentas de pesquisas online: Jornalismo de Dados ou Rac (Reportagem com Auxílio do Computador).

Contar com a criação de um núcleo investigativo foi fundamental para que eu pudesse escolher os casos que chegavam à redação. Além disso, o alinhamento da equipe, tempo para trabalhar a pauta e apoio da gerência foi fundamental no sucesso da reportagem. Checar até esgotar as possibilidades do assunto foi algo frequente e rotineiro. Na maioria das vezes, as saídas para constatações ou coleta de informações com fontes por meio de depoimentos era algo comum e sempre rendia. As produções investigativas costumam levar dias, semanas e até meses para serem concluídas.

As imagens que vemos nos filmes sobre jornalismo investigativo nem sempre são, de fato, como acontecem na vida real. Você ainda precisa de uma boa história para contar, vender pauta com dados apurados aos seus editores e o auxílio de fontes e personagens. O tempo para uma pauta bem checada também deve ser levado em consideração, pois cada veículo de comunicação tem o seu deadline. Muitas vezes, terá que correr contra o tempo ao trabalhar com o prazo estipulado pelo seu editor. E, com tudo isso, deverá contar ainda, com uma estrutura que disponha de equipe, carro e logística.

Recurso da câmera escondida ou oculta

Para a televisão, a constatação por recursos de câmeras escondidas ou de circuitos de monitoramento sempre funcionou. Os recursos são meios utilizados para subsidiar as investigações e, quando uma imagem é exibida ou flagrada, ela torna-se forte.

A falta de aparelhos para hemodiálises em hospitais referências de Bauru rendeu exibição em jornal de abrangência nacional em março desse ano. A denúncia feita do hospital, pelo próprio paciente, chegou via rede social enquanto ele aguardava há 70 dias, uma vaga na fila de espera do tratamento para hemodiálise.

O paciente aceitou participar da gravação e com o recurso da câmera escondida foi possível entrar no hospital e constatar a denúncia. Além dele, outras pessoas foram flagradas na mesma situação e, identifiquei casos de pacientes que aguardavam pela vaga há mais de 100 dias.

Com os flagrantes foi possível chamar atenção para outro grande problema: a falta de leitos nos hospitais e o reflexo nas filas de espera para internação.

Um setor econômico forte na região de Bauru é o de comércio e serviços. Em novembro de 2015, a investigação mostrou casos de fraudes e “maquiagens” de preços. A reportagem orientou consumidores a pesquisar na hora de aproveitar grandes liquidações como, por exemplo, o Black Friday. O recurso da câmera escondida possibilitou o flagrante e mostrou como ocorre a “maquiagem” do preço.

Teve ainda, o caso dos “flanelinhas”. Esse foi um problema que chegou na redação diante o número de reclamações feitas pelos motoristas que se sentiram coagidos e obrigados a pagá-los com dinheiro.  A reportagem contou com um auxiliar técnico, repórter, cinegrafista monitorando gravações à distância e uso da câmera escondida.

Sem esses recursos seria inviável obter os flagrantes, as constatações de usuários de drogas envolvidos e menores de idade pedindo dinheiro para “guardar” os carros. Em Bauru é grande o número de pessoas nas ruas e em situações de risco embora, muitos casos sejam assistidos pela Secretaria de Bem Estar Social e estejam inseridos em programas sociais, revelam uma nova discussão: não trata-se de um problema de Polícia, e, sim, de ordem social. A produção dessa investigação durou três dias.

Com a reportagem exibida o caso ganhou repercussão e desdobramento, chamando atenção do Ministério Público, Conselho Tutelar, Polícia Militar e Município. A boa apuração e constatação com imagens foram fundamentais para dar base ao trabalho de equipe e refletir sobre o tema.

Jornalismo de dados ou reportagem com auxílio do computador

Uma das ferramentas importantes e aliadas do jornalista investigativo é o uso do jornalismo de dados ou a Rac (Reportagem com Auxílio do Computador). Isso permite que o profissional tenha subsídios para a pauta. É possível ampliar a pesquisa com cruzamentos de dados e informações que, muitas vezes, estão ocultas ou não são disponibilizadas de maneira transparente pelos órgãos públicos ou empresas privadas. Com a Rac fica viável pautar diversos assuntos por meio de análises comparativas e dados históricos coletados.

Há inúmeras plataformas de checagem. Seja por organizações, sites independentes ou órgãos públicos. Com o advento da Lei de Acesso à Informação (LAI) de 2011, cada vez mais órgãos públicos – Município, Estado e Governo Federal – disponibilizam plataformas de acesso a informações atualizadas principalmente, com os Portais Transparência. Esse é um processo que está caminhando, mas o desafio é grande para que a LAI se cumpra em todos os municípios brasileiros.

Em 2016, as supostas fraudes apontadas pelo Ministério Público Federal no Programa Bolsa Família foram apresentadas por meio de um relatório de cruzamento de dados da Receita Federal, Ministério do Desenvolvimento Social, Previdência Social e Tribunal Superior Eleitoral entre outros. Foram listados nomes de mais de mil beneficiários que recebiam, indevidamente, o benefício. Esse foi o ponto de partida para uma investigação que levou três meses e resultou no desdobramento de duas reportagens especiais. A primeira, sobre beneficiários dados como falecidos e que receberam por mais de um ano e meio e, ainda, de uma beneficiária que estava informada como falecida porém, estava viva. Foi possível mostrar a falha somente depois da investigação. E, a segunda, sobre o caso de uma beneficiária que teria doado R$ 40 mil à campanha eleitoral. Com a investigação averiguei que o CPF informado na listagem dos doadores não era o da beneficiária e, sim, do seu antigo patrão, um produtor rural do município de Garça.

Novamente, o auxílio do jornalismo de dados, as checagens por meio dos Portais Transparências do Governo Federal, Tribunal Superior Eleitoral, Ministério do Desenvolvimento e as constatações feitas com câmera escondida, além das conversas com personagens e gravações telefônicas, permitiu um material consistente, diferenciado e de credibilidade, resultando em um desdobramento da abertura de pelo menos 13 inquéritos pela Polícia Federal e encaminhamentos pelo Ministério Público Federal.

Em tempos de pós-verdade

A credibilidade das pessoas nos veículos de comunicação no Brasil está em jogo frente as chamadas fake news ou pós-verdade. Esse fenômeno foi apresentado durante o 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado em junho.

Entre as sugestões para combater as fake news está o jornalismo qualificado, ou seja, a necessidade dos veículos de criarem ferramentas e técnicas para um filtro e, assim, lidar com esse tipo de informação. Ela chega em forma de avalanche nas redações por meio dos canais de rede social principalmente, pelo aplicativo WhatsApp e Facebook. Pós-verdade foi a palavra do ano em 2016, segundo o Dictionaries Oxford, da Universidade de Oxford.

A necessidade em combater esse tipo de notícia deixa claro que, é necessário a qualificação da informação nos veículos de comunicação.  A ausência de checagem interfere na credibilidade do veículo e do profissional.

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Ricardo Missão é jornalista.

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