Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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JORNALISMO INVESTIGATIVO >

A execução da vereadora e do seu motorista foi um recado para o xerife do Rio de Janeiro

Por Carlos Wagner em 21/03/2018 na edição 979

Texto publicado originalmente pelo blog Histórias Mal Contadas. 

A vereadora virou alvo por defender os interesses dos favelados. (Foto: Mídia Ninja/Creative Commons)

Por conta da intervenção das Forças Armadas, hoje o Rio de Janeiro é o pedaço do Brasil mais vigiado e guarnecido. Por que, dentro de um ambiente desses, uma organização criminosa iria fazer um acerto de contas com a vereadora Marielle Franco (PSOL)? Mais ainda: a ação da vereadora, denunciando as arbitrariedades policiais contra os favelados, vem desde 2013. A execução da parlamentar e do seu motorista Anderson Pedro Gomes traz uma mensagem muito clara: alguém está avisando que ainda manda no Rio Janeiro. E esse nome só irá surgir no final dessa investigação. Por conta da pressão popular e do número de agentes disponíveis, equipamentos e informações dos serviços de inteligência, a investigação está caminhando bem. A maneira como foi feita a execução e os vestígios deixados na cena do crime apontam na direção de que os assassinos eram profissionais.

E o estilo da execução lembra os milicianos — gangues de policiais militares que disputam território com os traficantes nas favelas. Há ainda outros dois grupos que usam um estilo semelhante: Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. A favor dessas organizações, existe o fato que, sempre que as Forças Armadas ocupam o Rio de Janeiro, e foram muitas vezes na última década, elas não vão para o enfrentamento porque sabem que a ocupação é por tempo limitado. A briga não vale a pena. Esperam as tropas saírem e voltam aos seus negócios. Tem sido assim nos últimos anos. Portanto, é real a possibilidade de que o grupo que executou a vereadora e o seu motorista ter sido formado apenas para fazer “a parada”, usando o jargão dos matadores de aluguel para definir a situação.

Quem apertou o gatilho a polícia vai descobrir. Nós, repórteres, podemos avançar nos lugares escuros desse episódio em busca de pistas de quem é esse alguém que está mandando o aviso de que ainda manda no Rio de Janeiro. Primeiro, é uma pessoa que sabe o que significa o Rio de Janeiro. Um lugar que, por conta de suas belezas naturais, seus poetas, botecos e o carnaval, é um endereço conhecido no mundo. Qualquer coisa que acontece lá é notícia mundial. A intervenção federal foi noticia ao redor do mundo. Aqui é o seguinte. Até o governo do presidente da República Michel Temer (MDB – SP) decretar intervenção federal no Rio, ele era coadjuvante no combate da violência. A intervenção o tornou o ator principal, ou usando o jargão das redações, puxou a bronca para o seu colo. Quem é o governo Temer? Ele é formado por um grupo político que está envolvido em vários escândalos de corrupção, há vasta documentação na Operação Lava Jato. É um fato importante. Na medida em que o grupo foi se consolidando no poder, ele vai se livrando de antigos aliados que são abandonados à própria sorte. Muitos deles foram presos e estão encarcerados no sistema penitenciário.

A execução da vereadora é um recado muito claro para Temer: ele manda no Brasil, não no Rio de Janeiro. Aqui quero refletir com os meus colegas repórteres calejados e os novatos. Até agora, as execuções do Rio de Janeiro têm seguido um roteiro conhecido. Elas acontecem por vingança, queima de arquivo ou briga por território. O caso da vereadora e do seu motorista tem vestígios do que pode ter acontecido por motivos diferentes. Nos últimos 40 anos, tenho trabalhado com reportagem investigativa e aprendi que as coisas nem sempre são o que aparentam ser. O certo é que a pouca credibilidade que resta ao governo federal pode ir para o espaço com o caso da vereadora. A intervenção tornou Temer o xerife do Rio de Janeiro, o responsável pela segurança. E também criou a oportunidade para a execução da vereadora que devido ao seu trabalho sempre foi um alvo das gangues infiltradas na polícia militar.

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Carlos Wagner é jornalista, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, entre eles “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017.

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