Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNALISMO INVESTIGATIVO > A renovação vem das quebradas

O jornalismo está vivo. Viva o jornalismo!

Por Regiane Bochichi em 14/11/2017 na edição 966

Representantes das organizações do Festival 3i. Agência Lupa, Brio Hunter, JOTA, Nexo, Nova Escola, Ponte Jornalismo e Repórter Brasil, e Google News Lab. (Foto: Regiane Bochichi/Arquivo Pessoal)

Kaique Dalapola é das quebradas. É assim que chamam as periferias de São Paulo. Ele tem 22 anos e sente saudades do Orkut. Eu, tenho 51 e muitas vezes, sinto falta do barulho da máquina de escrever. Como eu, Kaique é um jornalista apaixonado pela profissão. No alto da sua juventude e do seu início de carreira, subiu ao palco do Festival 3i que aconteceu este fim de semana no Rio de Janeiro e contagiou a plateia formada, em sua maioria, por jornalistas de todas as faixas etárias.

Foram dois dias de intensa discussão sobre como resgatar o jornalismo e mostrando as iniciativas de grupos que estão promovendo soluções inovadores, inspiradoras e independentes – tema do evento – enquanto as redações tradicionais nas mãos de algumas famílias não se mexem. Eu já tratei deste tema em outro artigo, reafirmando minha fé que as redações são espaços criativos o suficientes para promover as mudanças necessárias para este salto quântico. Só que enquanto muitas ainda estão paralisadas, a fila anda e aparecem iniciativas preenchendo esse vácuo. E o que é melhor, fazendo bem e dando certo. Foi um banho de otimismo. Tipo aquela cachoeira gelada em dia de sol. Energizante.

Kaique não trabalha na grande mídia. Ele é o mais jovem repórter da Ponte, um canal de informação on-line que cobre Segurança Pública, Justiça e Direitos Humanos. Com muita emoção, ele contou como uma matéria sua conseguiu livrar da cadeia um ambulante preso injustamente. A essência do jornalismo é essa: a informação mudando a realidade e transformando o mundo. Pode ser o mundo de um. Um universo particular. Mas tá valendo. Tendo isso em mente, a tecnologia, a rápida distribuição possibilitada pelo surgimento das redes sociais, as novas formas de financiamento, o uso dos princípios da economia colaborativa, servem, mais do que nunca para manter essa missão viva e operante.

Os exemplos mostrados durante o seminário foram muitos e todos na linha do “vai lá e faz”. A falta de grana foi contornada por financiamentos próprios, crowdfunding, apoio de fundações, cooperativas e até da mal fadada publicidade. As ideias ganharam corpos e nasceram podcasts de sucesso, revistas feministas endossadas por grandes agências, agências de fast-checking em crescimento exponencial, sites temáticos de várias vertentes, cursos para preparar melhor jovens jornalistas, programas de humor tendo a notícia como base, eventos jornalísticos entre outros.

Como tudo que é novo, as dificuldades estão sendo apresentadas e contornadas as poucos. Empresas como Facebook e Google — também presentes no evento — tem tentado buscar soluções para novos problemas como, por exemplo, aplicar os filtros sem que isso se torne uma censura prévia a determinados veículos e informação. Ou ainda, tratar da cobertura política de forma garantir a isonomia de todos os candidatos evitando os bots e a supremacia de posts impulsionados por candidatos com mais dinheiro. E também, o combate ao fake news a proliferação de haters. Fora a grande discussão da linha tênue que separa a ética da invasão total da privacidade.

São tantas frentes a serem desbravadas que este tipo de iniciativa do Festival 3i foi apenas o pontapé inicial. Os jornalistas veteranos que conhecem como a mídia tradicional atua, devem dar as mãos aos jovens como Kaique para que os novos desafios impostos sejam vencidos e apareçam outros diferentes e igualmente superados. Não podemos esperar de braços cruzados a indústria quebrar sem trazer alternativas para que o poderoso papel do jornalismo perdure. É preciso dar voz para todos, inclusive para as quebradas.

PS: Devo deixar registrado aqui os meus sinceros agradecimentos aos organizadores do Festival 3i: Agência LupaBrio HunterJOTANexoNova EscolaPonte JornalismoRepórter Brasil e Google News Lab.

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Para quem quiser acompanhar os debates e se aprofundar mais, além desta pensata, os vídeos na integra estão na página do Festival 3i no Facebook.

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Regiane Bochichi é jornalista com MBA em tecnologia e internet. Participou de 4 startups: NetEstado, AOL Brasil, Bandnews FM e ManagementTV. Foi editora do site Museu da Corrupção, idealizado por Moises Rabinovici, que recebeu o prêmio Esso como melhor contribuição à imprensa em 2009. Fez parte da equipe de engajamento dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

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