Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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JORNALISMO INVESTIGATIVO > Contexto

Sérgio Cabral: o homem que amava o dinheiro alheio

Por Carlos Wagner em 06/03/2019 na edição 1027

Publicado originalmente pelo blog Histórias Mal Contadas.

A consciência do Cabral pode ter sido aliviada pela sua confissão de que se envolveu em corrupção. Mas fica o fato que ele ajudou a aperfeiçoar o Rio de Janeiro Bandido, um estado que elimina pessoas que o enfrentam, como a juíza Patrícia e a vereadora Marielle. (Foto: reprodução.)

Qual é a vantagem que espera ganhar o ex-governador carioca Sérgio Cabral, 56 anos, ao confessar que realmente cometeu os crimes pelos quais foi condenado a 198 anos de cadeia em oito processos? Ele fez a confissão em uma audiência pedida pelos seus advogados no último dia 26, na 7ª Vara Criminal Federal no Rio de Janeiro. Depois de admitir a culpa, Cabral disse que se sentiu aliviado e justificou assim os seus crimes: “…. cobiça… o dinheiro é um vício”. Pela lei brasileira, uma pessoa pode ficar presa 30 anos. Mas, quando completa 80 anos de idade, ela tem uma série de privilégios, como a liberdade condicional. Para o ex-governador chegar a essa idade, faltam 24 anos. Também não pode ser afastada a possibilidade de um acordo de delação premiada com um “depoimento arrasa-quarteirão”. Tudo hipótese. Tem que esperar para ver o que irá acontecer. Ele foi preso em 2016 pela Operação Lava Jato.

Esse é o quadro. O que nós, repórteres, temos que explicar aos nossos leitores é como tudo isso aconteceu e porque só virou caso de polícia na Operação Lava Jato, que se iniciou em 2009. Foi justamente nessa data em que a Revista Época o considerou um dos 100 políticos mais influentes do Brasil. Mas a história dele começou bem antes. Filiado ao MDB, ele foi deputado estadual do Rio de Janeiro duas vezes (1991 a 2003), senador (2003 a 2004) e governador de 2007 até 2014, quando renunciou e assumiu no seu lugar o seu vice, Luiz Fernando Pezão, que se reelegeu governador e foi preso por corrupção em 2018. Há um vasto material – livros, documentos, processos e vídeos – que explica a história do Cabral. Mas existem dois livros em particular que recomendo a leitura aos jovens repórteres que estão na linha de frente dos noticiários e precisam pensar rápido, redigir voando e publicar na correria: “Sérgio Cabral O Homem que queria ser rei” e o “Rio Sem Lei“. Os dois são de autoria do repórter Hudson Corrêa, sendo o segundo em parceria com a jornalista Diana Brito. Antes de seguir contando a história, eu quero chamar a atenção dos jovens repórteres para o seguinte. Em 40 anos de redação, eu aprendi que tudo o que acontece no Rio de Janeiro virá notícia ao redor do mundo. E a maneira de operar dos criminosos cariocas acaba se espalhando pelo Brasil, por exemplo: a formação de facções e a maneira de operar do Batalhão de Operações Espaciais (BOPE) viraram filme.

Portanto, saber como as coisas acontecem no Rio é muito útil para o repórter. Ainda mais nos dias atuais, em que a maioria é multimídia – faz texto, áudio é vídeo. No final do ano passado, eu conversei com Hudson em Porto Alegre sobre os livros. Li os livros e fiquei esperando um “gancho” para falar no assunto. Ele surgiu com a confissão do Cabral. Na minha opinião, os dois livros se completam. Em “Sérgio Cabral O homem que queria ser rei”, em uma linguagem simples, direta e recheada de informações – tiradas de processos e de muita conversa de bastidor – a história do ex-governador é esmiuçada para o leitor. Cabral não montou a rede de corrupção. Foram os banqueiros do jogo do bicho que a profissionalizaram nos anos 60, e nos anos seguintes foi sendo aperfeiçoada. Até agora, Cabral foi quem usou a “maquina de corrupção carioca“ com uma destreza jamais vista. Há uma sinopse do livro na internet.

É muito comum nos conteúdos dos noticiários nós, repórteres, citarmos a corrupção como culpada pelos péssimos serviços prestados pelos governos aos contribuintes. O outro livro, escrito pelo Hudson em parceria com Diana mostra que é muito mais que isso. Em “Rio Sem Lei”, eles relatam a execução da juíza carioca Patrícia Acioli, em 11 de agosto de 2011. A magistrada era linha dura contra os policiais militares que se envolviam em crimes. Na noite de 15 de janeiro de 2018, Marielle Franco, vereadora do PSOL no Rio Janeiro, é executada, e os disparos também atingem e matam o seu motorista, Anderson Pedro Gomes. Marielle também lutava contra o envolvimento de agentes do Estado em corrupção, como as milícias cariocas que são formadas por policiais. Os responsáveis pelo crime da juíza foram descobertos. O caso de Marielle ainda não foi resolvido. Cabral não apertou o gatilho das armas que fizeram os disparos contra a juíza e a vereadora. Mas ele ajudou a aperfeiçoar a infiltração da corrupção na máquina administrativa carioca. E para a máquina continuar funcionando, ela precisa eliminar pessoas como a juíza e a vereadora.

Tenho lembrado nas minhas palestras pelas redações dos jornais do interior do Brasil e nas faculdades de jornalismo como é que os órgãos de controle, tipo Receita Federal e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), formados por funcionários altamente capacitados e muito bem pagos, não conseguiram detectar pessoas como o ex-governador. Erre um número na declaração de renda para ver o que acontece. A leitura dos livros do Hudson e da Diana é ferramenta importante para o jovem repórter entender “o rolo todo”.

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Carlos Wagner é jornalista.

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