Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNALISMO NA INTERNET > Web móvel em crise

Congestionamento de anúncios e falta de credibilidade

Por Angela Pimenta em 25/09/2015 na edição 869
ONA meeting

Debate entre Emily Bell e Richard Gingras, na ONA,Los Angeles. Foto divulgação ONA

Não é todo dia em que um figurão de uma grande empresa de tecnologia se dispõe a conversar francamente com jornalistas, respondendo perguntas incômodas, além daquelas para as quais não tem respostas. Mas na última quinta-feira, durante a abertura da conferência anual da Online News Association, Richard Gingras, um misto de tecnólogo, empreendedor e jornalista, chefe dos departamentos de produtos relacionados a notícias e à sociedade do Google, encarou de frente não só as questões de Emily Bell, diretora do Tow Center for Digital Journalism da Columbia University, como também as da plateia.

Já de saída, Gingras citou a peça “Quem tem Medo de Virginia Woolf”, de Edward Albee, em que a personagem Martha elogia o marido George, por “continuar a aprender os jogos tão rapidamente quanto eu consigo mudar as regras.” Ele se referia à necessidade de que publicações noticiosas sejam tão boas na produção de conteúdo como em recursos tecnológicos.

O melhor da conversa foram as críticas e alertas do próprio Gingras para os crescentes problemas enfrentados pela Web, seja em termos do caráter aberto da rede ou da corrosão da credibilidade – inclusive jornalística -, à medida que o tráfego global se expande. Gingras é um grande defensor da arquitetura aberta da rede, mas reconhece que tal característica gera enormes desafios.

Para ele, a produção e distribuição de conteúdo noticioso em plataformas móveis enfrenta uma grave crise provocada por dois fatores: o mau uso da publicidade, que congestiona a rede, e a competição em pé de igualdade – que também tem seu lado altamente positivo – entre publicações líderes, como o The New York Times, e publicações menores, não raro blogs, menos rigorosos na apuração e checagem de fatos. “A solução não virá de uma empresa ou de um instituição, mas pela colaboração em um modelo aberto.” Ele também enfatizou a importância do conteúdo local, “que uma vez criado deveria estar disponível para todos.”

Tradicional patrocinador da conferência da ONA no Brasil, o Google também é um parceiro ativo de instituições que promovem eventos e treinamento para jornalistas. Desde 2013, o Google apoia o projeto Grande Pequena Imprensa, promovido pelo Projor, a instituição mantenedora do “Observatório da Imprensa.”

Segundo Gingras, o interesse do Google em apoiar financeiramente projetos jornalísticos deriva de um interesse comum: “As buscas do Google [funcionam porque] encontram conteúdo no ecossistema aberto que é a Web. A chave é buscarmos modelos de negócios sustentáveis.” A seguir completou: “Nosso negócio só existe enquanto tivermos a confiança do público.”

Indagado sobre o “algoritmo secreto” do Google que ordena a forma como as respostas às buscas são exibidas ao usuário, Gingras disse tratar-se de “um sistema complexo que muda constantemente (…) Nós não nos sentimos confortáveis em revelá-lo, mas os resultados estão disponíveis para todos.” Ele acrescentou que as críticas recebidas pelo Google têm ajudado a empresa a aprimorar o sistema.

Abaixo, uma seleção do que disse Gingras. O vídeo original em inglês está acessível neste link:

Futuro do jornalismo: “Sou extremamente otimista sobre o futuro das notícias por causa das capacidades que temos. Umas delas, por exemplo, é jornalismo de dados. (…) Acho que existem oportunidades poderosas aí. E essas oportunidades podem ter modelos de negócios associados. Podemos ver publicações noticiosas crescendo de quase nada a [um tráfego] de 200 milhões de visitantes únicos em um período de tempo de dois anos. Eu compreendo que sair de [uma escala] pequena para grande não é fácil, mas acontece. E isso só pode acontecer com as capacidades da Web, onde cada um tem a oportunidade de fazê-lo.”

Crise das plataformas móveis: “Mesmo quando eu chefiava o Salon, há alguns anos, eu dizia que tínhamos que repensar a estrutura de nossos artigos. (…) A maioria dos nossos públicos está lendo material em celulares e pacotes velozes de informação e podemos repensar de que forma vamos fazer com que este conhecimento chegue às suas cabeças.”

Trust Project : parceria do Google com a Santa Clara University e publicações como o The New York Times: “Uma das coisas que buscamos no Trust Project são sinais daquilo que a publicação está comprovadamente mostrando a seus usuários, e não apenas meta-dados que são mostrados com algoritmos. (…) Talvez fosse uma boa ideia ter sinais sobre [uma testemunha visual]. Eu não sei no que vai dar, mas isso só funcionaria se o selo visual de que uma testemunha visual estava lá para cada leitor e para cada jornalista ver, para que tivéssemos o mesmo sentido de prestação de contas.”

***

Angela Pimenta é jornalista e presidente do PROJOR. Angela participou , em Los Angeles, da reunião da Online News Association (ONA)

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