Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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70 anos do revolucionário do traço

Por Dênis de Moraes em 05/02/2014 na edição 784

Se vivo fosse, Henrique de Souza Filho, Henfil, estaria completando 70 anos neste 5 de fevereiro de 2014. Foi um dos mais criativos e combativos artistas brasileiros do século 20. Do célebre semanário Pasquim aos oito minutos diários de atrevimento no quadro “TV Homem”, no programa TV Mulher da Rede Globo, em plena ditadura militar, ele fez do humor político uma trincheira de resistência cultural, cativando uma legião de admiradores. Nunca cedeu à graça dócil. “Obviamente tenho o prazer da criação, mas a massa de trabalho que faço só se justifica pelo fato de estar inserido numa atitude de denúncia, de solidariedade, servindo para reforçar o pensamento das pessoas, informar e buscar uma saída” [entrevista de Henfil a Tânia Carvalho, “Desenhar, pra mim, é como mastigar pedra”, Status Humor, n. 41, 1979].

A palavra que parecia dar sentido à caminhada do mineiro de Ribeirão das Neves, nas múltiplas dimensões em que se desdobrou, compunha-se de seis letras: missão. A consciência de missões a cumprir, com as expectativas implícitas, as suas e as dos outros, foi mencionada por Henfil em carta ao irmão Herbert de Souza, Betinho, então exilado no Canadá, de 23 de junho de 1978: “Eu realmente me sinto (não sentia não, ainda me sinto!) responsável por todos e por tudo, e que tenho que dar resposta a tudo. Você só se esqueceu de dizer a palavra-chave que a gente aprendeu na Ação Católica: MISSÃO!”

Para dar vazão à índole missionária, enfrentou riscos, por sua condição de hemofílico e pelos sofrimentos daí decorrentes, o que simultaneamente lhe realçava a urgência de vida. Frei Betto atribuiu esse compromisso visceral à formação política dos militantes da esquerda católica – incluindo ele próprio e seu amigo Henriquinho – nas décadas de 1950 e 1960. “Nós fomos educados para salvar o mundo, como se tivéssemos sido escolhidos ou convocados por Deus para essa missão. Movia-nos a ideia de consertar o Brasil. Somos messiânicos; Henfil totalmente. O messianismo impregnou-se em nós, felizmente na vertente positiva do humanismo e da luta por igualdade social” [depoimento de Frei Betto ao autor, setembro de 1995].

Contra o poder

Nos desenhos, imagens, escritos e ações públicas, Henfil não camuflava o alvo. Desde a juventude e até os derradeiros dias, queria transformar a realidade, fustigar as hipocrisias e denunciar as engrenagens da dominação. Desprezava os que se omitiam ou aceitavam imposturas e injustiças. Não foi outro o sentido da série “O cemitério dos mortos-vivos”, no Pasquim, onde “sepultava” colaboradores, cúmplices e simpatizantes da ditadura, bem como os que se locupletavam com a corrupção, fingiam não ver os crimes dos “esquadrões da morte” ou exploravam os semelhantes em busca do lucro desmedido.

Quando o termômetro opressivo da ditadura recomendava prudência, Henfil não hesitou em afirmar que “o engajamento é necessário”, argumentando: “Você não pode ficar falando de esquis, jogos de tênis ou problemas pessoais quando tem gente literalmente morrendo de fome. (…) Hoje estou com todas as antenas ligadas para um trabalho de transformação, de busca de uma estrutura social mais humana” [entrevista de Henfil a Tânia Carvalho, já citada].

Foi fichado como “subversivo” pelos repulsivos órgãos de segurança, cujos agentes anexavam em seu prontuários tiras de Zeferino, Graúna, Bode Orelana e Ubaldo, o Paranóico, na tentativa de incriminá-lo. Estes personagens geniais, como resumiu o mestre Janio de Freitas, afrontavam a boçalidade ditatorial com ironia devastadora diante da atmosfera sombria do país. No auge da repressão, Henfil demonstrou irrestrita solidariedade a perseguidos pelo regime, ora escondendo e ajudando pessoas amigas, ora colaborando nas cotizações para pagar advogados de presos políticos.

As estúpidas censuras policial e empresarial o atormentaram, mas Henfil reagiu a pilhas de cartuns e charges proibidos empenhando-se em produzir outros tantos, para que alguns sobrevivessem ao pesadelo das guilhotinas. Não se esquivou da corda bamba nos empregos da imprensa conservadora, e inclusive demitiu-se de alguns deles em protesto contra a censura interna nas redações. Não deixou de externar pontos de vista que, embora coerentes, o situavam na contramão de consensos estáveis. E, principalmente, jamais abriu mão de dizer verdades ao poder e aos poderosos, denunciando suas lógicas antissociais: “O verdadeiro humorista é o que faz rir contra o poder e sem a sua licença” [entrevista de Henfil a Maria Carneiro da Cunha, “A linguagem crítica e individual do humor”, Folha de S. Paulo, 29 de dezembro de 1980].

Traço único

Num país em que até hoje vigora a concentração monopólica da mídia nas mãos de poucos grupos privados e dinastias familiares, Henfil percebeu a necessidade de ocupar todos os espaços e brechas disponíveis, com o intuito de fazer ecoar aspirações e necessidades da cidadania. Estima-se que, em 26 dos seus 43 anos – uma vida encurtada pelo vírus da Aids, contraído em transfusões de sangue –, Henfil tenha produzido quase 30 mil desenhos para dezenas de veículos. Sem contar cartuns animados, textos diversos, livros, sinopses e roteiros para televisão, cinema e teatro. Guardava tudo com incrível zelo. Em depoimento ao jornal universitário WO (agosto de 1973), ele explicou a razão do rigor documental com a memória: “Sempre me preocupei em guardar e em publicar meus desenhos. Morro mas meu desenho fica. É minha possibilidade de vida depois da morte, que de fato vai acontecer. Não tem a menor graça, mas vai”.

Na segunda década do século 21, fazem muita falta ao país a contundência de sua voz em favor dos oprimidos e excluídos, a adesão à causa da emancipação social, a prática de um jornalismo crítico, a ousadia imaginativa e a retidão ético-política. Com a rebeldia do seu traço mágico e inconfundível, Henfil lutou incansavelmente por alternativas socializantes e igualitárias, vale dizer, por um destino de luz para o nosso povo.

Leia também

O guerreiro que se foi muito cedo – Venício A. de Lima

Um diabo dum humorista – Cassio Loredano

Os 70 anos do cartunista – Maurício Meireles

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Dênis de Moraes, jornalista e escritor, é professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense; autor, organizador e coautor de mais de 25 livros publicados no Brasil, na Espanha, na Argentina e em Cuba, entre eles O rebelde do traço: a vida de Henfil, que será brevemente relançado, em versão revista e ampliada 

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