Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

MALAGUETA DIGITAL > PORTA DOS FUNDOS

Aids com humor

Por João Fernando em 25/03/2014 na edição 791
Reproduzido do Estado de S. Paulo, 19/3/2014; título original “Porta dos Fundos lança sua primeira série, que fala de aids com humor”

“Eu tenho aids, p… Sou soropositivo, entendeu?”, grita Beto, personagem vivido por Gregório Duvivier, para uma de suas ex-parceiras sexuais. É assim, direto ao assunto, que o Porta dos Fundos vai tratar da doença em Viral, série de quatro episódios, com 15 minutos cada um, que o canal de humor da internet lançará no dia 4 de abril. Na trama, o protagonista descobre ser portador do vírus HIV e vai atrás das últimas oito mulheres com quem transou para dar a notícia e tentar encontrar a transmissora.

“É um tema difícil e, por isso, achei interessante. Não temos temas proibidos, já falamos de tabus, de religião. Claro que, nessas situações, tomamos um cuidado triplo”, analisa o ator, que não estranhou a proposta do roteiro, escrito por Fábio Porchat. “Já estou acostumado com temas polêmicos. O Porta sempre busca algo diferente, que não se vê por aí. A aids está presente na vida e a gente trata como se já tivesse acabado, porém, é um problema. A gente não está rindo de quem tem aids, mas das situações”, defende Ian SBF, diretor dos vídeos. “É para jogar uma luz sobre o tema”, reforça Porchat.

Na história, Beto faz um exame de sangue por outras razões e descobre ter a doença. Devidamente medicado, ele procura as ex-parceiras na companhia do amigo Rafael (Fábio Porchat), que, na tentativa de encorajá-lo a contar a verdade, às vezes o atrapalha. “Ele só fala coisas imbecis, como dizer que pessoas com aids só podem transar com outras pessoas com aids. A gente brinca com o que seriam as dúvidas das pessoas. O problema é a ignorância”, avalia o colunista do Caderno 2.

Porchat teve a ideia durante uma viagem à África, continente com alto número de infectados pela doença. A inspiração veio após ele assistir ao filme 50%, em que o jovem Adam (Joseph Gordon-Levitt) descobre ter câncer e aprende a lidar com o problema com o apoio de um amigo. Outra fonte foi um episódio de The Office, em que um dos personagens tem herpes labial e precisa contar para as ex-namoradas.

Para entender melhor a questão, o humorista consultou ativistas e ONGs que tratam de portadores do HIV, o que já reduz os riscos de alguém reclamar quando tudo for ao ar. Ele também permanece em contato com uma médica para tirar dúvidas do roteiro. “Ela achou ótimo o fato de o amigo ficar ao lado dele. Quando uma pessoa revela que tem a doença, todo mundo se afasta.”

Na pesquisa para a série, Porchat fez os colegas do Porta dos Fundos se informarem mais sobre a doença. Uma das novidades foi a abordagem sobre um teste para detectar o vírus por meio de fluidos orais, cujo resultado sai em até meia hora. O kit ainda está restrito a 40 ONGs, entretanto, segundo a Assessoria de Imprensa do Ministério da Saúde, deve chegar ao SUS até o fim deste ano. Na cena que o Estado acompanhou, em uma rua da zona norte do Rio, Beto diz, pelo interfone, a uma de suas ex-parceiras que está com o kit para ela também fazer o teste.

O objetivo, porém, não é fazer uma cartilha sobre a aids. “Não é uma série ativista. Mas há uma questão técnica em como falar sobre isso. O negócio é ser o mais real possível. Tem uma hora em que o personagem do Gregório fala que tem de transar com camisinha e fazer outras coisas, e o meu fala: ‘O que é isso? Telecurso 2000? Teste de elenco para Malhação?’. Quanto mais didático fica, é pior”, alega Porchat. O humorista conta que, ao trazer o assunto para a roda, os integrantes do canal de humor reviram suas atitudes em relação à prevenção da doença. “Qualquer homem pode dizer que já esteve em risco com uma doença sexualmente transmissível.”

Visual

Na contramão dos raros personagens portadores do HIV no cinema e na TV, Beto não aparecerá abatido. “A gente não quis fazer o estereótipo. Por isso, mantivemos a barba do Greg. Hoje, é difícil reconhecer que tem a doença. Na série, ele já está tomando os remédios”, explica o diretor. Único do grupo a ter amigos com o vírus, Gregório concordou. “Tenho dois amigos soropositivos e eles não mudaram nada esteticamente. Você segue uma vida normal com uma quantidade de remédios. Mas eu adoraria um pretexto para emagrecer para um papel agora”, confessa.

O ator passou a ter outra visão da aids ao assistir ao longa Clube de Compras Dallas, em que o protagonista se descobre soropositivo em uma época em que o coquetel de medicamentos ainda estava em discussão. “O filme me tocou, pois é político, mostra como uma doença pode ser lucrativa. Aqui, é uma abordagem mais pessoal”, compara.

Para Gregório, os efeitos do HIV vão além de uma questão de saúde. “É uma doença muito específica. Ela passa pelo sexo, envolve as pessoas que se relacionam amorosamente. Isso gera complicações afetivas, por isso, é meio fascinante. Ela passa pelo amor e tem um responsável por você ter pego. Com um câncer, você não pode culpar ninguém. Na série, a gente fala da culpa de ter passado por alguém”, adianta ele.

Por Viral ser mais trabalhosa que os vídeos semanais do Porta dos Fundos, o grupo foi atrás de patrocinadores para produzi-la. Apesar do sucesso comercial e de público do canal (leia abaixo), a missão não foi fácil, como revela Porchat “É mais difícil, as pessoas se interessarem, elas ficam com o pé atrás. Todos queriam saber como terminava a história, se o cara morreria ou não no final. As pessoas têm, sim, medo de se associar à aids. Isso prova que estamos no caminho certo: tocar em um assunto que ninguém quer.”

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Porta dos Fundos planeja novas séries, uma delas sobre política

Mesmo sem ter concluído as gravações da primeira série, a turma do Porta dos Fundos já se prepara para outras. “Vamos ter uma sobre o Deus polinésio”, entrega Fábio Porchat. A produção em questão é o desdobramento do vídeo Deus, em que uma mulher, vivida por Clarice Falcão, morre e, ao se encontrar com Deus (Rafael Infante), espanta-se pelo fato de ele usar maquiagem e trajes dos aborígines das ilhas do Pacífico.

Em ano eleitoral, os humoristas não vão deixar o momento passar em branco. “Estou pensando em uma sobre política”, avisa Gregório Duvivier. Nos próximos meses, o canal de humor terá vídeos semanais sobre a Copa do Mundo, que ficarão disponíveis sempre aos sábados. As produções regulares, lançadas sempre às segundas e quintas-feiras, continuarão.

Recentemente, o Porta dos Fundos lançou dois aplicativos com jogos para celulares. O primeiro, Bola Azul, é baseado no vídeo Quem Manda, em que um adolescente encara uma sabatina do sogro ao buscar a namorada em casa. No jogo, ele tem de driblar o inimigo para conseguir levar a garota ao cinema. Já em Voa, Totoro, o ator homônimo aparece em versão alada e precisa driblas obstáculos. Juntos, os dois aplicativos tiveram mais de 20 mil downloads gratuitos. “Queremos popularizar a marca, por isso, não cobramos. Como cerca de metade da população brasileira ainda não tem acesso à internet, ainda temos de crescer 50% no mercado”, explica Porchat.

Em breve, mais dois jogos serão lançados. Um deles tem inspiração no vídeo Bala de Borracha, sobre policiais, e o outro em Fundo Verde, em que Gregório passa por um teste em fundo eletrônico de chroma key, no qual imagens são projetadas digitalmente.

Com mais de 800 milhões de visualizações desde a criação, em 2012, o Porta dos Fundos é o canal que cresceu mais rápido em todo o YouTube. Vistos fora do Brasil, os vídeos já têm legendas em inglês e espanhol. De olho no mercado internacional, o grupo encomendou as próximas em francês e alemão. Para evitar acusações de plágio, os humoristas não leem sugestões de esquetes enviadas pelos internautas e até têm e-mail com resposta padrão. Com 40 funcionários, a empresa, que também produz vídeos publicitários, deve crescer. “Todo mundo trabalha com freelancers, mas a gente vai na contramão, contrata muita gente. Acho importante ter a nossa galera”, prega Gregório. (J.F.)

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João Fernando, do Estado de S. Paulo

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