Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O guerreiro que se foi muito cedo

Por Venício A. de Lima em 04/02/2014 na edição 784

[No dia 5 de fevereiro de 2014 Henrique de Souza Filho, o Henfil, faria 70 anos. Tenho pensado o quanto ele faz falta. Talvez com sua irreverência pudesse nos ajudar a enfrentar tempos tão sem graça, intolerantes e radicalizados. Fica o registro e o breve depoimento de um amigo sempre saudoso.]

Henriquinho, como nós o chamávamos, foi meu colega de sala no curso de Sociologia e Política (que não existe mais) da FACE – Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG (1965) que funcionava num prédio na esquina das ruas Curitiba e Tamoios, no centro de Belo Horizonte. Ele trancou a matrícula para se dedicar à carreira profissional de cartunista.

Éramos quase da mesma idade. Tinha pouco mais de um ano do que eu. Já nos conhecíamos da militância comum na Juventude Estudantil Católica (JEC). Sempre alegre e solidário, não havia quem não gostasse dele.

Na época, a gente fazia refeições no bandejão da FACE e ele já criava charges todos os dias para o Diário de Minas, além de trabalhar no departamento de artes da Macron – Imprensa, Propaganda e Produções Ltda., uma agência de publicidade que atendia, dentre outras, a conta da cervejaria Antárctica em Minas Gerais.

Quando o escritório da Interamericana de Publicidade, onde eu trabalhava, fechou, Henriquinho conseguiu um emprego de “contato” para mim na Macron. Isso nos aproximou mais e passei a fazer parte de uma pequena turma que saia à noite num carro, creio, do irmão do Paulinho (Paulo César Teixeira), seu velho amigo da turma de Santa Efigênia, ou no Renault Dauphine do Toni (um dos donos da agência). Uma de nossas incursões pela antiga Avenida Pedro II custou-me uma longa série de injeções de Benzetacil, inesquecível pela dor e pelo constrangimento, uma vez que, naqueles tempos, tomá-la denunciava o que havia provocado a infecção que ela curava.

Falta que faz

Nossa turma da FACE de 1965 e os amigos mais próximos de Henriquinho naquele período, pelo nome ou pelos apelidos, estão eternizados em duas listas que aparecem nas mãos de deputados numa charge com o título “Assembleia nomeia afilhados”. A charge, originalmente publicada no Diário de Minas, foi reproduzida no seu primeiro livro, Hiroshima, meu humor (Editora do Professor, Belo Horizonte, 1966; página 150).

Quando Henriquinho foi trabalhar no Jornal dos Sports, no Rio de Janeiro, os contatos foram ficando mais difíceis e a distância se encarregou de nos afastar, embora aqui e acolá o encontrasse em Belo Horizonte ou no Rio. A partir de janeiro de 1971, mudei-me para Brasília. Quando ele estava morando em São Paulo, encontrei-o nos lançamentos de alguns de seus livros [as dedicatórias são absolutamente hilárias] e, na década de 1980, pelo menos uma vez, trocamos correspondência (ainda não havia o e-mail para facilitar as coisas). Depois, os contatos foram ficando mais escassos.

No início de janeiro de 1988, estava em casa de amigos, em Aracaju (SE), esforçando-me para recuperar um casamento que não existia mais, e desci cedo numa manhã ensolarada para comprar o jornal. Foi quando e como soube – na banca de jornal – que Henriquinho havia falecido com apenas 43 anos.

Daqui a uns poucos dias ele faria 70 anos. Tanto tempo depois de nos deixar – quase 26 anos – ele continua a fazer muita falta.

Leia também

70 anos do revolucionário do traço – Dênis de Moraes

Um diabo dum humorista – Cassio Loredano

Os 70 anos do cartunista – Maurício Meireles

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Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador/autor, com Juarez Guimarães, de Liberdade de Expressão: as várias faces de um desafio (Paulus, 2013), entre outros livros

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