Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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MARCHA DO TEMPO > Revolução Farroupilha

180 anos de uma guerra civil

Por Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite em 11/09/2015 na edição 867

“A causa que defendemos, não é só nossa. Ela é igualmente a causa de todo o Brasil. Uma República Federal baseada em sólidos princípios de justiça e recíprocas conveniências uniria hoje todas as províncias irmãs, tornando mais forte e respeitada a Nação Brasileira” (Bento Gonçalves da Silva [1788-1847])

A Revolução Farroupilha, de acordo com o historiador Moacyr Flores, em seu livro Modelo Político dos Farrapos, insere-se num contexto de confronto entre o absolutismo e o liberalismo que caracteriza o século 19. Os ideais liberais, que fomentaram a independência das 13 colônias inglesas (1776) e a Revolução Francesa (1789), ecoavam na América espanhola e portuguesa.

Outra análise, que extrapola o caráter regional da Revolução Farroupilha, é a do jornalista e historiador Décio Freitas (1922 -2004). Em seu artigo, “Farrapos: uma Rebelião Federalista” (1985), o autor registrou: “… Ela faz parte de uma grande rebelião federalista que abarcou quase todo o país, exceção feita ao Sudeste, contra o opressivo e escorchante centralismo do recém-criado Estado Nacional.”

Há algum tempo, a Província de São Pedro (RS), estava bastante prejudicada devido aos altos impostos taxados sobre a propriedade rural, o charque (carne seca) e o couro. Com a Independência da Província da Cisplatina (Uruguai), em 1828, o charque uruguaio começou a competir com a produção gaúcha. O produto uruguaio tinha menos custos sendo vendido a menor preço. Diante deste fato, o charque gaúcho, responsável pela alimentação dos escravos e das camadas mais pobres de outras regiões do país, desde o Ciclo da Mineração (ouro), ficou em desvantagem, perdendo a concorrência em relação ao produto platino. Além desta grave questão econômica, que atingiu a elite estancieira (fazendeiros) da Província, havia, entre outras causas, a insatisfação quanto à política centralizadora do presidente da província Fernandes Braga (1805-1875), que iniciara seu governo com uma política liberal, aderindo depois à política centralizadora do Império.

O início

Diante do descaso do governo imperial em relação aos problemas sociopolíticos e econômicos que se avolumavam na província de São Pedro (RS), um grupo de maçons articulou a tomada de Porto Alegre em 20 de setembro de 1835. A decisão, quanto à invasão da capital da província pela Ponte da Azenha, ocorreu na primeira Loja Maçônica de Porto Alegre, “Philantropia e Liberdade”, fundada em 1831, na Rua do Rosário, atual Vigário José Inácio. A Loja se apresentava como um “gabinete de leitura” onde funcionava o jornal O Continentino (1831-1833), para não despertar a atenção dos opositores.

No dia 18 de setembro de 1835, Bento Gonçalves da Silva (1788-1847), abriu a famosa reunião que decidiu o inicio da Revolução Farroupilha. Estavam presentes na Loja José Gomes Jardim (1774-1854), Onofre Pires (1799-1844), Pedro Boticário (1799-1750), Vicente da Fontoura (1807-1860), Paulino da Fontoura (? – 1843), Antônio de Souza Neto (1803-1866) e Domingos José de Almeida (1797-1871). Os legalistas, ou Caramurus, chamavam, de forma pejorativa, os adeptos das sociedades secretas da Maçonaria de “marimbondos”.

Quando Porto Alegre foi invadida pelos farroupilhas, na madrugada de 20 de setembro de 1835, o presidente da província, Fernandes Braga, e seus auxiliares embarcaram na Escuna de Guerra rio-grandense e seguiram para Rio Grande. Os líderes farroupilhas José Gomes Jardim (1774-1854), João Manuel de Lima e Silva (1805-1837) e Onofre Pires (1799-1844) invadiram o palácio do governo, abandonado pelo presidente Fernandes Braga, não encontrando resistência. No dia 21 de setembro, Bento Gonçalves da Silva (1788-1847) chegou a Porto Alegre, vindo de Pedras Brancas (Guaíba), sendo recebido num clima de comemorações. Após a invasão da capital, os farroupilhas tomaram Jaguarão, Piratini, Cachoeira e Santo Antônio da Patrulha.

A República Rio-Grandense

No Rio de Janeiro, capital do império, farroupilha era a denominação dada à facção política liberal mais radical que combatia o centralismo do governo imperial. Em 1831, o termo apareceu estampado nos jornais cariocas Matraca dos Farroupilhas e Jurujuba dos Farroupilhas. O vocábulo, de acordo com o historiador Walter Spalding (1901-1976), deriva da palavra portuguesa farroupa que apareceu, em 1700, nas atas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, designando agricultores e criadores de gado que usavam roupas humildes e gastas.

Em 15 de junho de 1836, Porto Alegre foi retomada pelos imperiais sob o comando do major Manuel Marques de Souza (1804- 1875), futuro conde de Porto Alegre, após sua fuga do navio/prisão conhecido como Presiganga. Apesar dos esforços, os farroupilhas não conseguiram invadi-lo novamente, embora o tenham sitiado, por três vezes, entre 1836 e 1840, a partir da Vila Setembrina (Viamão). Graças a essa resistência, Porto Alegre recebeu de D. Pedro II, em 1841, o título de “Leal e Valorosa Cidade” que está registrado no brasão da cidade, criado pela Lei n° 1030, em 22/01/1953. A lei foi assinada pelo prefeito Ildo Meneghetti (1895-1980), sendo o responsável pelo desenho o artista plástico Francisco Bellanca (1895-1974).

Na manhã de 11 de setembro de 1836, nos Campos dos Menezes, o riograndino Antônio Souza Netto (1803-1866), um dia após a vitória contra as tropas de Silva Tavares (1792-1872), na Batalha de Seival, em Bagé, proclamou a República Rio-Grandense. Após esse ato, iniciou-se a composição do futuro governo da jovem República. Com a proclamação da República Rio-Grandense, ficou declarada a guerra entre esta e o Império. A partir desse momento, o conflito deixa de ser caracterizado como uma insurreição de uma província contra o poder central, transformando-se num confronto bélico entre dois países independentes, embora o Império não reconheça o fato.

No dia 12 de novembro de 1836, o governo publica o decreto, assinado por Domingos José de Almeida e Gomes Jardim, criando oficialmente a bandeira da República Rio-Grandense, mantendo as cores do império: o verde e o amarelo; porém, entre estas, o destaque da cor vermelha, que representa o espírito da República. A criação do nosso pavilhão é atribuída, por alguns historiadores, ao major Bernardo Pires. A criação do pavilhão farroupilha foi o primeiro decreto da jovem República.

Antecedentes

Anterior à proclamação da República Rio-Grandense (1836), ocorreram no Brasil, durante o período Colonial e o Primeiro Império (1822-1831), várias tentativas republicanas, em outras províncias, que não lograram êxito: a Inconfidência Mineira (Minas Gerais) de 1789, Revolta dos Alfaiates (Bahia) de 1798, Revolução Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador (Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba) de 1824. Todas foram sufocadas pelo poder central, resultando em mortes, prisões e deportações.

Durante o período regencial (1831-1840), além da Revolução Farroupilha (1835-1845), eclodiram contra o poder central do Império: a Cabanagem (1835-1840) no Pará; a Sabinada (1837-1838) na Bahia; e a Balaiada (1838-1841) no Maranhão. A República Rio-Grandense (1836-1845), embora efêmera, durou nove anos, sendo a única tentativa que se concretizou, em nosso país, anterior a 15 de novembro de 1889, quando o marechal Deodoro da Fonseca, por meio de um golpe militar, proclamou a República dos Estados Unidos do Brasil.

Proclamada a República Rio-Grandense, Bento Gonçalves da Silva (1788-1847) foi nomeado presidente, embora estivesse preso no Rio de Janeiro, com outros líderes, após ter sido aprisionado pelo coronel Bento Manuel Ribeiro, na batalha de Fanfa, no rio Jacuí, em 4 de outubro de 1836. Na prisão conheceu o revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi (1807-1882), dando-lhe uma carta de corso para aprisionar embarcações imperiais. Do Rio de Janeiro, Bento Gonçalves da Silva foi enviado à prisão do Forte do Mar (Bahia). Impossibilitado de assumir a presidência, ficou o cargo, interinamente, sob a responsabilidade de José Gomes Jardim (1774-1854) e a vice-presidência nas mãos de José Mariano de Matos (1801-1866). Em 02 de outubro de 1837, Bento Gonçalves da Silva foge da prisão na Bahia, com o auxílio da maçonaria, assumindo finalmente, em 16 de dezembro de 1837, a Presidência da República Rio-grandense.

O herói de dois mundos

Buscando conquistar um porto, tendo em vista que o de Rio Grande estava nas mãos dos imperiais, David Canabarro (1796-1867) e o italiano Giuseppe Garibaldi (1807-1882) invadiram Santa Catarina, conquistando Lages e Laguna. O porto era imprescindível para exportação do charque e couro, além da compra e armas para a revolução. Em julho de 1839, foi proclamada a efêmera República Juliana. As ideias liberais estavam mais fortalecidas, na região, desde a eclosão da Revolução Farroupilha. A capital escolhida foi Laguna, e a República, conhecida, também, como Catarinense, durou de julho a novembro de 1839, quando foi reconquistada pelos imperiais. Entre 1835 e 1839, houve um avanço dos farroupilhas que conquistaram Rio Pardo, Piratini e Pelotas.

Em Laguna, Giuseppe Garibaldi conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro (1821-1849), a Anita, heroína de dois mundos, que se tornou sua grande companheira nas lutas libertárias em prol da República na Província de São Pedro e, depois, na Itália, onde faleceu. O primeiro filho do casal, Menotti Garibaldi, nasceu na região de Mostardas (RS), no dia 16/09/1840, durante a Revolução Farroupilha. No ano de 1841, Garibaldi e Anita partiram para o Uruguai com o filho, onde se casaram. Posteriormente, voltaram à Itália, para se integrarem na luta do movimento, conhecido como Risorgimento (1815-1870), em prol da unificação daquele país.

A conquista de Laguna, pelos farroupilhas, remete-nos à figura de Giuseppe Garibaldi (1807-1882), comandante da Marinha da República Rio-grandense, e à construção de seus famosos lanchões. Garibaldi contou com o apoio do norte-americano John Griggs (1790-1839) e do comandante dos Lanceiros Negros, coronel Teixeira Nunes (1802-1844). Após construir os lanchões “Seival” e “Rio Pardo”, no estaleiro do rio Camaquã, ele atravessou a Lagoa dos Patos e transportou os barcos para o rio Tramandaí. Garibaldi realizou essa épica travessia, transportando os lanchões em duas carretas puxadas por 100 juntas de bois. A Barra do Rio Grande estava guarnecida pela Marinha Imperial, sob o comando do inglês John Grenfell (1800-1869), obrigando Garibaldi a buscar outro caminho dentro da logística de uma guerra.

Do rio Tramandaí, chegou ao oceano e depois a Laguna. Infelizmente, o Lanchão “Rio Pardo”, no qual se encontrava Garibaldi, naufragou em virtude de uma tempestade, em alto mar, não chegando ao seu destino. Após o naufrágio, Garibaldi e os companheiros que se salvaram seguiram a cavalo, obtidos com a população local, ao encontro das tropas de David Canabarro que cruzavam a Serra por meio de Lages e conquistaram Laguna.

Os líderes se dividem

Ocorreram, na província de São Pedro, vários enfrentamentos entre as forças farroupilhas e as do Império, totalizando 118 embates. Durante o conflito, civis, militares e eclesiásticos liberais se destacaram: Bento Gonçalves da Silva (1788-1847), Gomes Jardim (1774-1854), Onofre Pires da Silveira Canto (1799-1844), Vicente da Fontoura (1807-1860), Antônio de Souza Netto (1803-1866), coronel Joaquim Teixeira Nunes (1801-1844), comandante dos bravos “Lanceiros Negros”; Domingos José de Almeida (1797-1871), David Canabarro (1796-1867), Padre José Antônio Caldas (1783 -?), José de Almeida Corte Real (1805-1840), Bento Manoel Ribeiro (1783- 1855), José Mariano de Mattos (1801-1866), João Manoel de Lima e Silva (1805- 1837); o primeiro general do exército republicano, general Manuel Luís Osório (1808-1879); o italiano Giuseppe Garibaldi (1807-1882), o herói de dois mundos, o padre Hildebrando de Freitas Pedroso, entre outros nomes que a historiografia registrou.

De acordo com escritor e professor Dante de Laytano (1908-2000), os líderes farroupilhas se dividiam em dois grupos: o da maioria e da minoria. O primeiro grupo era liderado por Bento Gonçalves da Silva, Domingos José de Almeida, Mariano de Mattos e Antônio de Souza Neto e defendia a criação de uma federação com estados independentes e republicanos, sendo simpáticos à causa da abolição dos escravos; o segundo grupo era integrado por David Canabarro, Vicente da Fontoura e Onofre Pires e defendia que os estados teriam apenas a autonomia administrativa, podendo ter a forma monárquica de governo.

As diferenças ideológicas entre alguns líderes farroupilhas, inclusive em relação ao sistema escravocrata, geraram conflitos internos entre os mesmos, principalmente a partir de 1840, fragmentando a força do exército Farrapo. Nesse período, dois terços do exército brasileiro se encontravam na província de São Pedro, tornando muito difícil a resistência dos farroupilhas. Calcula-se que o exército de Caxias contava com 12.000 homens, enquanto que os republicanos somavam 1000 homens. Diante das dificuldades impostas pela guerra, os farroupilhas começaram a requisitar gado e cereais, desagradando aos pequenos agricultores e criadores que se sentiam prejudicados. Em oposição a essa atitude, o barão de Caxias, líder das tropas imperiais, nos locais onde passava, oferecia apoio e distribuía rações de carne, ganhando a simpatia das populações locais.

Um exemplo claro desse contexto de cisão, entre os líderes farroupilhas, é o duelo travado, em 27/02/1844, no rio Sarandi, em Santana do Livramento. Trata-se do confronto entre Bento Gonçalves e seu primo Onofre Pires que o acusou de ladrão e responsável pelo assassinato do vice-presidente da República Rio-Grandense Paulino da Fontoura. Na época, o local pertencia ao município de Alegrete. No duelo, Onofre Pires foi ferido no braço, vindo a falecer, em 3/03/1844, no acampamento farroupilha. Diante desse fato, Bento Gonçalves renunciou à Presidência da República Rio-Grandense e ao comando da revolução, retirando-se para sua estância em Camaquã, atual município de Cristal.

A imprensa farroupilha

A imprensa cumpriu um papel importante no período pré-revolucionário e durante a Revolução Farroupilha (1835-1845). A partir do surgimento do primeiro jornal da província de São Pedro o Diário de Porto Alegre, em 1º de junho de 1827, legalistas (conservadores) e revolucionários liberais passaram a expressar suas ideias e convicções políticas, por meio dos jornais que circularam na capital ou no interior da província. De acordo com os jornalistas Carlos Reverbel (1912-1997) e Elmar Bones, no livro Luiz Rossetti: o editor sem rosto, entre 1827 a 1850, circularam 61 jornais, sendo que 37 circularam em Rio Grande, incluindo os órgãos oficiais da República Rio-Grandense: O Povo (Piratini (1838-1839) e Caçapava (1839 -1840); O Americano (1842 – 1843 – Alegrete) e Estrella do Sul (1843 – Alegrete).

Curiosamente, o primeiro óbito da Revolução Farroupilha, no combate da Ponte da Azenha, foi do jornalista Antônio José Monteiro, o Prosódia, redator do jornal legalista O Mestre Barbeiro (1835), foi o menor periódico publicado na imprensa gaúcha: 11×16. Considerado um dos mais importantes jornais desse período, O Noticiador, fundado em 1832, em Rio Grande, foi o primeiro jornal a ser publicado no interior da província. Seu redator e fundador Francisco Xavier Ferreira (1771-1838), O Chico da Botica, introduziu a maçonaria na província de São Pedro e, por meio de seu jornal, criticou o tráfico negreiro e defendeu as ideias liberais.

Outro importante marco na imprensa pré-revolucionária foi o Constitucional Rio-Grandense (1828-1831), redigido por Vicente Ferreira Gomes, o “Carona”, (1805-1837), que combatia de maneira incisiva o centralismo do império. Já a presença do imigrante alemão na Revolução Farroupilha é registrada por meio do jornal O Colono Alemão (1836), impresso em Porto Alegre, sob a responsabilidade de Hermann Von Salisch (1797-1837), que buscava arregimentar os colonos à causa farroupilha. Importante registrar, também, o nome da primeira mulher jornalista no Brasil, a gaúcha de Rio Pardo Maria Josefa Barreto Pereira Pinto (1787-1837), que dirigiu o jornal legalista Belona irada contra os sectários de Momo (1833-1834) Estes, entre outros jornais, são fontes imprescindíveis a todo pesquisador que se dedique a um estudo meticuloso desse período da história do Rio Grande do Sul.

Em Piratini, primeira capital farroupilha, circulou, em 1º de setembro de 1838, a primeira edição do periódico O Povo (1838-1840), “Órgão Oficial da República Rio-Grandense”, às quartas-feiras e aos sábados. Criado por Domingos José de Almeida (1797-1871), o jornal teve a sua tipografia adquirida no Uruguai com o dinheiro da venda de 17 escravos que lhe pertenciam, recebendo a denominação de “Tipografia Republicana Rio-Grandense”. Em sua 2ª fase, o jornal passou a ser impresso em Caçapava (2ª capital farroupilha). Quando a cidade foi tomada, em 1840, pelas tropas legalistas, a tipografia foi totalmente destruída. Nesse período, o jornal O Povo ostentava em seu cabeçalho o dístico “Liberdade, Igualdade e Humanidade”, inspirado no lema da Revolução Francesa de 1789. O Povo totalizou 160 edições, após ter funcionado 627 dias, de acordo com o engenheiro e pesquisador Francisco Riopardense de Macedo (1921-2007).

O Povo, em sua edição de 4/05/1839, publicou a letra conforme foi cantada no baile, em Caçapava, em comemoração ao 1º aniversário do Combate do Barro Vermelho, ocorrido em Rio Pardo. O jornal denominou de “Hino da Nação”. O autor da música, o mineiro Joaquim José Mendanha (1801-1885), era maestro da banda do Segundo Batalhão de Caçadores da Primeira Linha, apreendida pelos farroupilhas, durante o combate. Na ocasião, os farroupilhas lhe exigiram que compusesse o Hino Farroupilha. Conhecido como o maestro negro, destacou-se no cenário musical de Porto Alegre. Dirigiu os coros da Igreja das Dores e da Matriz e fundou a Sociedade Musical de Porto Alegre. Na inauguração do Teatro São Pedro, em 1858, o maestro Mendanha regeu uma orquestra. Ocorreram três versões da letra do nosso hino. A versão oficial foi definida no Centenário Farroupilha (1935) durante o governo de Flores da Cunha (1880-1959), tendo uma estrofe suprimida durante a regime militar em 1966. A letra é de Francisco Pinto da Fontoura (o Chiquinho da Vovó) e música de Joaquim Mendanha.

O criador e redator do jornal O Povo Domingos José de Almeida (1797-1871) era natural de Minas Gerais e também destacou-se como ministro da Fazenda e do Interior. Entre outras realizações, foi responsável pela criação da primeira barca a vapor, no Rio Grande do Sul, e pela fundação de Uruguaiana. Autoditadata e possuidor de uma cultura e inteligência invejáveis, muitos o consideram um dos principais ideólogos da Revolução Farroupilha. O Povo contou, ainda, com a presença marcante de Luigi Rossetti (1800-1840) e, na sua fase final, com os textos de João Batista Cuneo (1809-1875). Perseguidos na Itália, devido aos ideais republicanos da “Jovem Itália”, movimento criado por Giuseppe Mazzini (1805-1872), encontraram abrigo na província gaúcha. Luiz Rossetti morreu no combate do Passo do Vigário (1840) em Viamão (Vila Setembrina).

Dentre os italianos que se envolveram na revolução, destaca-se também o conde Lívio Zambeccari (1802-1862) cientista e militante político, natural da Bolonha, que escreveu nos jornais O Recopilador Liberal (1832-1836) e o Republicano (1834) que eram impressos em Porto Alegre. Considerado o secretário de Bento Gonçalves, esteve preso com o mesmo no Rio de Janeiro. No jornal O Recopilador Liberal, no dia 25/09/1835, publicou na íntegra, após a tomada de Porto Alegre, em 20/09/1836, um Manifesto de Bento Gonçalves da Silva que explicava as razões do movimento armado, convocando a todos para a manutenção da ordem e da liberdade.

O massacre de Porongos: os Lanceiros Negros

Devido aos deslocamentos constantes das tropas farroupilhas, a capital da República mudava de local. Depois de estabelecida em Piratini, foi transferida para Caçapava e, depois, para Bagé e São Gabriel que foram sedes provisórias. Em julho de 1842, Alegrete se torna a nova e última capital farroupilha, onde se reuniram os “constituintes farrapos” para debater e elaborar o Projeto da Constituição da República Rio-Grandense, que, na prática, não se efetivou devido a discordâncias internas. Este “aspecto andarilho” dos arquivos da República Rio-Grandense e da sua tipografia oficial fez com que recebesse a perífrase de “República das Carretas” pelo saudoso folclorista e historiador Barbosa Lessa (1929-2002).

Um episódio que suscita polêmica entre os historiadores, até os dias de hoje, está ligado à Batalha de Porongos, ocorrida quando as negociações de paz já estavam em curso. Alguns dias antes, comandando 100 Lanceiros Negros, o coronel Joaquim Teixeira Nunes (1801-1844), foi responsável por baixas significativas no grupo comandado pelo legalista Francisco Pedro Buarque de Abreu (1811-1891), apelidado de Moringue. Nesse confronto, o líder farroupilha Teixeira Nunes veio a falecer. Assaltado de “surpresa”, na madrugada de 14 de novembro de 1844, pelo mesmo Moringue, ocorreu o massacre do Corpo de Lanceiros Negros que se encontravam acampados na atual região do município de Pinheiro Machado. Os Lanceiros Negros se distribuíam em oito companhias de 51 homens cada, totalizando 426 lanceiros.

Há uma discussão que se prolonga acerca da veracidade de uma carta que registra ter havido um acordo entre o duque de Caxias e David Canabarro, para que desarmassem os Lanceiros Negros, considerados insuperáveis em sua bravura, a fim de dizimá-los.

O destino destes lanceiros negros ainda é um tema controverso. Com assinatura do Acordo de Paz de Ponche Verde, em 1845, os escravos ainda engajados seriam entregues ao barão de Caxias e reconhecidos como livres. Sabe-se que, um grupo foi enviado , em 1845, para o Rio de Janeiro como liberto, de acordo com o Jornal do Commercio e o Diário do Rio de Janeiro de 26 de agosto de 1845. Se foram libertos, quando chegaram ao seu destino, não se pode garantir. O ex-farroupilha Manuel Caldeira suscitou suspeitas de que estes teriam sido, novamente, escravizados e encaminhados para a Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, como propriedade do Estado. Ao término da guerra, em 1845, o general Antônio Souza Netto, que era republicano e abolicionista, retirou-se para o Uruguai com alguns negros, que sobreviveram, enquanto outros lanceiros foram enviados para o Exército do Rio de Janeiro.

Apesar das promessas, em nenhuma ocasião a República Rio-Grandense alforriou seus escravos. A questão abolicionista causava divisão entre seus líderes farroupilhas. Ao mesmo tempo em que os farroupilhas prometiam a liberdade aos escravos, condenando o tráfico negreiro, o Órgão Oficial da República Rio-Grandense, O Povo (1938-1840), divulgava anúncios de fugas de cativos. Houve uma tentativa de abolir a escravidão, por meio de projeto que foi apresentado à Assembleia Constituinte, em 1842, por José Mariano de Mattos (1801-1866), que foi recusado. Anos depois do término da guerra, vários líderes farroupilhas ainda tinham escravos, a exemplo de Bento Gonçalves (1788-1847), que morreu deixando 53 cativos para seus herdeiros.

Este combate em Porongos é tratado pelo historiador Mário Maestri no seu livro O Escravo Gaúcho – Resistência e Trabalho (1993), editado pela UFRGS. Segundo Mário Maestri, o Arquivo Histórico do RS reconheceu a assinatura do duque de Caxias como autêntica. Os defensores de David Canabarro defendem a tese de que esta carta teria sido forjada pelos legalistas para incriminá-lo.

Nessa carta se encontra o seguinte trecho:

“No conflito poupe o sangue brasileiro quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro.”

O livro Memórias de Garibaldi (1859), de Alexandre Dumas (1802-1870), durante muito tempo foi considerado o mais antigo registro acerca da Revolução Farroupilha. Com a descoberta dos manuscritos de Luigi Nascimbene (1801-1873) na Universidade de Pávia, em 1999, na Itália, pelo pesquisador Ricardo Franco da Fonseca, a primazia de narrar os acontecimentos ficou creditada a esse italiano que foi matemático, engenheiro e arquiteto. Nascimbene realizava transações econômicas que visavam ao abastecimento de diversos gêneros à incipiente República Riograndense. Suas transações econômicas se encontram registradas no jornal O Povo no período de 1838 a 1839. Em Tentativa de Independência do Estado do Rio Grande do Sul, páginas 362 e 363, Nascimbene declara nunca ter visto a carta que comprove traição em Porongos e considera David Canabarro um homem honrado. Desta forma, seguem as divergências quanto à questão de Porongos.

Em novembro de 1942, Luiz Alves de Lima e Silva (1803-1880), o barão de Caxias, foi designado pelo imperador D. Pedro II para negociar a paz com os farroupilhas e assumir a presidência da província. O Império percebia os interesses econômicos e expansionistas dos caudilhos platinos Oribe (1792-1857) e Rosas (1793-1877), e o quanto era importante a participação da província de São Pedro (RS) naquele momento, para guardar a fronteira e a integridade da nação.

A tradição de lutar, preservando o território, era própria dos milicianos gaúchos, ao longo do tempo; embora a falta de reconhecimento político por parte do Império. Em 19/03/1843, um cometa cruzou os céus, sendo percebido, pelos farroupilhas, como um mau presságio numa luta que já completava oito anos. Este cometa foi batizado, pelo imaginário popular, de “Estrela de Caxias”. Curiosamente, no início da Revolução Farroupilha, em novembro de 1835, já havia passado o cometa Halley.

No dia 28 de fevereiro de 1845, David Canabarro assinou o acordo de paz, em Ponche Verde, com os legalistas. Em 1º de março de 1845, o barão de Caxias representante das forças imperiais declarou a província pacificada. O Império fez algumas concessões políticas e econômicas que beneficiaram aos farrapos; além de garantir que não haveria perseguições (anistia) aos que tinham lutado contra o poder central. O acordo de paz consta de 12 cláusulas que foram lidas por Antônio Vicente da Fontoura (1807-1860), considerado o maior líder civil da Revolução. Antisseparatista, ele foi o negociador da paz de Ponche Verde no Rio de Janeiro. O local, onde foi assinado o documento, faz parte do atual município de Dom Pedrito.

Porto Alegre, ao findar a Revolução Farroupilha, é a quarta maior cidade do Império, totalizando 13.500 habitantes. Ao encerrar a revolução, Luis Alves de Lima e Silva, o futuro duque de Caxias, foi escolhido pelos farroupilhas, para continuar presidindo a província de São Pedro.

A estatística numérica, ao findar a Revolução Farroupilha, registra 59 vitórias para cada lado, totalizando em torno de 3.400 óbitos. O lado farrapo perdeu quase o dobro de homens ao término da guerra em 1845. Ao encerrar este longeva guerra, os campos e as estâncias estavam despovoados e as charqueadas de Pelotas e nas margens do Guaíba e Jacuí ficaram empobrecidas. Segundo o historiador Moacyr Flores, no seu livro História do Rio Grande do Sul, cerca de 4000 rio-grandenses emigraram para outras províncias do Brasil e, principalmente, para o nosso vizinho Uruguai.

Nos anos que se seguiram à pacificação, em Ponche Verde (1845), farroupilhas e legalistas se uniram no mesmo exército, lutando na Guerra do Prata (1851-1852) e, depois, na Guerra do Paraguai (1864-1870).

Ao finalizar este artigo, é importante destacar que a Revolução Farroupilha (1835-1845), apesar de seu caráter elitista, representa um marco de resistência aos desmandos políticos e à exploração econômica por parte do poder central que, naquele momento, considerava a província de São Pedro (RS) “uma grande estalagem do Império”, parafraseando a historiadora Sandra Jatahy Pesavento (1946-2009).

Neste ano de 2015, a Revolução Farroupilha completa 180 anos. A Lei nº 4.850 de 11 de dezembro de 1964 (com algumas alterações posteriores), tornou oficial a Semana Farroupilha que deverá ser comemorada de 14 a 20 de setembro a cada ano.

Bibliografia

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Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite é pesquisador e coordenador do Setor de Imprensa do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa

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