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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Riocentro continua sendo uma história de carochinhas

Por José Cleves em 18/02/2014 na edição 786

As recentes conclusões do Ministério Público Federal (MPF) sobre o atentado do Riocentro, em 1981, divulgadas no site da Folha de S.Paulo em 16/02, podem levar, segundo as investigações, cinco militares e um delegado ao banco dos réus, o que não é nenhuma novidade para este repórter, que acompanha o caso desde o ocorrido. Pelo contrário, tem mais gente envolvida nesta farsa e os jornalistas mais atentos nunca tiveram dúvidas de que o atentado fora praticado pela ala radical das Forças Armadas que desejava, com essa bomba, convencer o grupo moderado do Exército que os radicais civis de extrema-esquerda ofereciam riscos ao país e, por essa razão, não era o momento certo de os militares entregarem o poder.

Realmente, se o artefato tivesse sido detonado dentro do Riocentro, em meio a mais de 20 mil pessoas, a tragédia seria atribuída a grupos radicais de extrema-esquerda e isso dificultaria em muito a transição do poder, como desejava a ala moderada das Forças Armadas, sob o comando do general Ernesto Geisel. Mesmo com o fracasso do ato terrorista (a bomba explodiu no colo de um dos militares, quando era manipulada dentro do carro utilizado para transportar o grupo responsável pelo atentado), os milicos tentaram convencer a imprensa e a opinião pública que o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu no local, e o capitão Wilson Luiz Chaves Machado, foram vítimas de terroristas civis.

O pior disso tudo é que o presidente João Baptista Figueiredo, amigo de infância do general Newton Cruz, então chefe da Agência Nacional, do Serviço Nacional de Inteligência (SNI), comandado pelo sucessor de Figueiredo neste cargo, general Otávio de Medeiros, não fez o menor esforço para esclarecer a verdade. Pelo contrário, deixou que Cruz resolvesse a questão ao seu modo. Ora, foi como mandar o rato vigiar queijo. A primeira coisa que o general Cruz fez foi destruir todas as pistas possíveis que pudessem levar ao esclarecimento da verdade. O objetivo era criar o “outro fato”. A mentira. A meta era endurecer o regime contra os radicais de esquerda, de modo a atribuir a esses “terroristas” tudo que de ruim ocorresse no país a partir de então.

O uso da inteligência para o mal

Prova disso foi o assassinato do jornalista Alexandre von Baumgarten, executado com um tiro na cabeça em alto mar, com o corpo aparecendo quase uma semana depois. Baumgarten, que não era flor que se cheire, era ligado aos milicos e chegou a ganhar o título da revista O Cruzeiro para divulgar o nome do chefe do SNI, Otávio de Medeiros, que pretendia suceder Figueiredo numa provável eleição indireta, para que os milicos pudessem ficar mais cinco anos no poder, mesmo após a transição. O general ganhou muita força dentro do SNI, então a maior agência de informação do mundo, e tinha o apoio de grande parte dos generais de diferentes patentes porque sabia de muita coisa errada dentro do governo.

A questão é que Baumgarten, muito ligado a um informante que eu tinha dentro do sistema, começou a mentir para os milicos sobre a tiragem da revista e foi expulso do SNI por Newton Cruz, logo após o atentado do Riocentro. Maquiavélico, o jornalista deixou a comunidade de informações do governo com um dossiê, que ele denominou de Yellow Cake, contendo todas as informações sobre o atentando do Rio Centro, deixando o general Cruz apavorado. Cerca de duas semanas após a expulsão do jornalista do SNI, em janeiro de 1981, um dos responsáveis pela sua escaramuça disse-me que o jornalista corria riscos de vida, não apenas por mentir sobre a tiragem da revista, mas porque sabia demais sobre o atentado e também sobre a remessa de urânio para o exterior e outras coisas erradas do governo militar.

Quando o general Golbery do Couto e Silva foi expulso pelo presidente Figueiredo do cargo de ministro chefe da Casa Civil, em agosto de 1981, o “bruxo”, como o general era conhecido pela sua extraordinária capacidade de persuasão dentro das Forças Armadas (mandou e desmandou no governo Geisel), começou a reunir provas para se vingar de Figueiredo. Como foi o fundador do SNI, sabia quase tudo de errado que acontecia no país e se valeu das informações obtidas por Baumgarten para destilar o seu ódio contra a linha dura do Exército e, principalmente, contra o presidente Figueiredo.

Aliás, Golbery teve uma breve passagem por Belo Horizonte, quando serviu no quartel-general da Infantaria Divisionária da 4ª Região Militar (ID/4), logo após se insurgir contra o governo do presidente Juscelino Kubistchek. Era, realmente, um gênio, segundo diziam os militares que o conheceram. Um deles, já falecido, chegou a fazer uma profecia. “Se ele (Golbery) usar 10% de sua inteligência para o mal, estaremos ferrados.” A previsão, que felizmente não se concretizou, ocorreu anos após o golpe militar de 1964, quando o general montou o SNI com arquivos do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), também criado por ele.

O grande adversário da mentira

A artilharia deste general anti-linha dura e as ameaças de Baumgarten, que prometia colocar os podres do SNI para fora, resultaram na execução do jornalista e de sua mulher, em outubro de 1982. O casal foi sequestrado na Praça XV, no Rio, e levado para o alto mar, onde foram mortos com tiros na cabeça e desovados. Parte do dossiê do jornalista, que falava sobre o atentado do Riocentro, por exemplo, desapareceu.

O resto da história todos sabem: as acusações contra o SNI “queimaram” o filme do general Otávio de Medeiros, que não mais teve forças para sustentar a sua tão sonhada candidatura à sucessão de Figueiredo, e o general Newton Cruz, apontado como mandante da morte do casal, livrou-se da condenação. Mas a versão militar sobre o atentado do Riocentro resistiu, apesar de seu enredo bizarro e esdrúxulo, e isso tem uma explicação: o medo que grande parte da imprensa tinha de contrariar o poder.

O mais triste, em tudo isso, é que este medo persiste, com a diferença de que antes era a arma que intimidava e agora é o dinheiro. A grande – e também a pequena – imprensa continua atrelada ao poder e, enquanto isso ocorrer, vai ser difícil para a classe jornalística derrubar as versões absurdas dos governantes, até porque boa parte dos profissionais da comunicação gosta tanto do dinheiro quanto os seus patrões.

A esperança é a internet, não há outra. A mídia virtual, com todos os seus devaneios e loucuras, é, sem dúvida, o grande adversário da mentira no mundo atual. Se fosse hoje, por exemplo, o Riocentro seria desmascarado alguns segundos após o sucedido e não haveria força miliar suficiente (ou dinheiro) capaz de desmontar o fato verdadeiro.

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José Cleves é jornalista

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