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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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MARCHA DO TEMPO > 1964 + 50

Golpe revisitado em livros

Por Antonio Gonçalves Filho em 25/03/2014 na edição 791
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 22/3/2014 # Modernização, ditadura e democracia, Daniel Aarão Reis (coord.), Editora Objetiva (323 págs., R$ 49,90) e Um olhar sobre o Brasil, Boris Kossoy (coord.), Editora Objetiva (464 págs., 459 fotos, R$ 159,90)

Último volume da coleção História do Brasil Nação, bancada pela Fundación Mapfre e organizada pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz, o livro Modernização, Ditadura e Democracia chega em abril às livrarias para apimentar a polêmica sobre o golpe que instaurou há 50 anos uma ditadura no País.

Rejeitando o argumento de que foi uma revolução engendrada exclusivamente na caserna, o coordenador da obra, Daniel Aarão Reis rebate teses históricas e diz que se tratou, antes, de uma aliança “heterogênea e disparatada” entre militares, líderes políticos, empresariais e religiosos.

Cobrindo o período que vai do golpe aos dias de hoje, o livro incorpora as grandes manifestações sociais registradas em todo o País desde junho do ano passado, reprimidas como na época do regime militar.

Para discutir a coleção, que começa em 1808, ano da transferência da corte portuguesa, o Caderno 2 entrevistou a historiadora Lilia Schwarcz e o coordenador do quinto volume, que tem entre seus colaboradores o economista Paul Singer.

Lilia Schwarcz escolheu os 27 autores presentes nos volumes. Há um extra, só de fotos, Um Olhar Sobre o Brasil, organizado por Boris Kossoy. Ele traz imagens como a que ilustra esta página, de Evandro Teixeira, feita no Rio, em 1964.

O que aconteceu, de fato, nesse ano, quando o golpe militar levou à Presidência da República o general cearense Castelo Branco? Medo de uma guerra civil? Paranoia anticomunista? As respostas são muitas, mas desencontradas.

A facilidade com que o presidente João Goulart (1919-1976) foi destituído em 1964 e como o governo militar se instalou no poder é uma questão que merece melhor exame, diz o historiador Daniel Aarão Reis, ele mesmo perseguido na época pelo regime, que agora examina em Modernização, Ditadura e Democracia, quinto volume da coleção História do Brasil Nação, bancada pela espanhola Fundación Mapfre e coordenada pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz. Na versão oficial da história, “as direitas venceram porque eram mais poderosas e as esquerdas, mais desorganizadas, incapazes de lutar”. Aarão Reis, autor de uma biografia (inédita) do líder comunista Luís Carlos Prestes para a Companhia das Letras, diz que não foi bem assim.

O golpe que instaurou a ditadura em 1964, segundo ele, “exprimiu uma heterogênea aliança, reunindo líderes políticos, empresariais e religiosos, civis e militares, elites sociais e segmentos populares”. E como essa minoria de golpistas conseguiu paralisar sem luta todo um país? Por que sem um único tiro instauraram a ditadura que durou de 1964 a 1979? Os golpistas, movidos pelo medo de reformas revolucionárias, argumenta o autor, usaram a “defesa da democracia e do cristianismo” como escudo. Contra a baderna e o medo que o Brasil copiasse o modelo comunista cubano, a nação trocou as alpargatas pelos coturnos.

Democracia

Daniel Aarão lembra que “salvar” a democracia, para muitos, “passava pela extirpação do getulismo e a eliminação dos comunistas” (leia entrevista ao lado). Era preciso que o golpe fosse transformado numa “revolução” – e foi justamente o que fez a Junta Militar, em nome do comando da Revolução de 1964, editando o Ato Institucional de número 1, em abril daquele ano, o primeiro de uma série de quatro baixados durante o governo do general Castelo Branco, que permitia cassar mandatos e suspender direitos políticos. O militar cearense, lembra o historiador, cassou mandatos, mas prorrogou o seu até 1967, ano de sua misteriosa morte, criando ainda o Serviço Nacional de Informações (SNI), centro de espionagem que levou à tortura os oponentes do regime.

O quinto volume da coleção foi dividido pelo coordenador em cinco partes, cada uma delas assinada por especialistas em suas respectivas áreas. Paul Singer analisa o período entre o “milagre econômico” do regime militar e a crise financeira mundial de 2008, enquanto Marcelo Ridenti traça um panorama do momento da virada rumo à massificação da cultura. Os outros três pesquisadores são Herbert S. Klein, Francisco Vidal Luna e Francisco Carlos Teixeira da Silva, todos eles com visões bem diferentes das interpretações consagradas a respeito da época.

Foi em 2009 que a fundação espanhola Mapfre encomendou essa coleção sobre a história do Brasil a Lilia Schwarcz, parte de um ambicioso projeto editorial, América Latina na História Contemporânea, publicado em dez países com a participação de 400 especialistas. Ela deveria contemplar a formação da nação brasileira, o que levou a historiadora a escolher o ano de 1808, o da transferência da corte portuguesa para o Brasil, como o marco zero da coleção, que tem, entre seus autores, respeitados nomes. Entre eles estão os historiadores e diplomatas Alberto da Costa e Silva e José Murilo de Carvalho, o jurista Rubens Ricupero, o escritor Jorge Caldeira e a própria organizadora da coleção (no volume que vai da proclamação da República a 1930).

A coleção da Fundación Mapfre feita nos outros países latinos é ilustrada, mas só a edição brasileira tem um livro separado – e luxuoso – com a iconografia do período, entre 1808 e a primeira eleição de Lula. Um Olhar Sobre o Brasil – A Fotografia na Construção da Imagem da Nação, coordenado pelo fotógrafo Boris Kossoy, traz registros antológicos de grandes profissionais da área, de Augusto Stahl a Sebastião Salgado, contando com 350 documentos, sendo o mais antigo de 1850.

Imagens

Lilia Schwarcz, grande entusiasta da análise histórica a partir da iconografia, fez questão de um volume à parte (e não um anexo) justamente por entender que pinturas e fotos são tão importantes para o estudo da História como as cartas e outros documentos escritos. “Tenho defendido que as imagens conduzem à reflexão, não são simples ilustrações”, diz, condenando a relação de subalternidade da imagem ao texto nos livros de história.

Seu modelo, evidentemente, é o austríaco Ernst Hans Josef Gombrich (1909-2011), o historiador de arte que operou dentro de um território não demarcado, estabelecendo um rico diálogo entre arte, ciência, filosofia e psicologia. Gombrich defendia que as imagens geram imagens e que esse fluxo de relações conduz a uma cultura visual intimamente ligada à memória – ou à história, no caso.

Exemplos vigorosos da seleção de imagens do quinto volume são duas fotos históricas: a da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em 2 de abril de 1964, no Rio, e o comício das reformas de base do dia 13 de março daquele ano, congregando as forças de esquerda sob a liderança de Goulart. Lá está visível o embrião do golpe que instaurou uma ditadura de 15 anos – contra a historiografia oficial, o autor diz que ela acabou em 1979 com a revogação dos atos institucionais.

As fotos também mostram a transformação de um país agrário numa nação urbana, aberta para o mundo e dirigida por uma mulher, depois de presidida por um sociólogo e um operário, algo impensável em 1964. Aarão Reis admite que houve mudanças, “mas tiveram, e têm ainda um alto custo”, como o “trauma dos milhões arrancados de seus lugares de origem e obrigados a migrar” e a tortura, “que continua sendo praticada por agentes do Estado”. E conclui: “Enganam-se os que pensam que a onda (de manifestações) de 2013 acabou. Penso que ela tende a retornar mais cedo do que tarde”.

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Antonio Gonçalves Filho, do Estado de S.Paulo

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