O golpe de 64 e a cultura brasileira | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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O golpe de 64 e a cultura brasileira

Por Luiz Costa Lima em 25/03/2014 na edição 791
Reproduzido do blog Prosa, de O Globo, 22/3/2014; intertítulo do OI

Já não se duvida que o golpe de 64 instaurou uma ditadura. Tampouco é questionável que toda ditadura representa uma presença letal a qualquer vigor cultural. Cultura supõe cultivo, seja das terras do chão, seja da terra da mente. Para que o golpe tivesse significado outra coisa senão medo, rancor surdo, sensação de impotência seria preciso que tivesse lidado com outra humanidade. Chega a ser ocioso pensar-se que a nossa recente ditadura pudesse ter tido outro perfil que não o de suas semelhantes. O que escrevo só fará sentido se considerarmos a ditadura de 64 dentro das coordenadas nacionais.

Assim considerando, seria injusto dizer que as disposições discricionárias dos militares, suas arbitrariedades na confecção dos Atos Institucionais, sua tática de eliminação dos adversários e sua tecnologia da tortura tivessem ultrapassado o que era esperável das ditaduras. O que distingue e especifica o golpe militar deriva de características do país em que ele se deu. Se então pensamos em suas consequências do ponto de vista da cultura, há de se reconhecer que desenvolvimento cultural nunca esteve entre nossas metas. E nunca esteve porque nunca vimos vantagem em estimular o espírito reflexivo.

Entre nós, os próprios termos “cultura” e “reflexão” são vistos com fastio. Cultura parece uma palavrinha para discurso de batizado; reflexão, algo que lembra púlpito ou tribuna, um lugar em que se fala para não dizer nada. Se o país tem sido uma “terra estéril” que antes definha do que desenvolve seus poucos frutos, a ditadura apenas incrementou esta tendência. É fácil entender-se que isso não dependeu de que os agentes da nossa tenham sido particularmente maus. O importante é que a ordem que punham em exercício deles exigia uma determinada atitude, esterilizante à produção cultural. A explicação é simples: uma ordem ditatorial estabelece para todo aquele que toma a palavra, oralmente ou por escrito, a dupla exigência: o que diga há de ser claro e simples de ser entendido; e isso tanto mais para que não brote qualquer ambiguidade passível de ser tomada como crítica à ordem estabelecida. Ora, como algo dito dentro deste regime pode admitir qualquer reflexão?! A ditadura veio coroar a história de um país que, mesmo sem o saber, esteriliza o melhor que possa qualquer aceno reflexivo.

Espírito mercadológico

Note-se outra vez: isso não se dava, antes do golpe, porque nossos governantes fossem necessariamente maus ou medíocres, senão porque sabiam que todo dito não bastante claro e bastante explícito teria dificuldades de encontrar ouvidos para entendê-lo. Pois (então e agora) a falta de reflexão já se relacionava com o ralo público cultivado. A ditadura ampliou uma direção já existente antes dela. 

Mas não importa havermos saído há quase 30 anos da ditadura? Não discutindo a chamada redemocratização, diremos: a “terra estéril”, a antipatia pela atitude reflexiva se amplia com a intensificação da sociedade de mercado. Pois para esta vale quase a mesma máxima que a apropriada para as ditaduras: para que o negociante não perca o cliente, o que se diga deve ser claro e explícito. É verdade que a interdição pura do ambíguo não mais funciona. O ambíguo pode até ser bem-vindo se atiçar o interesse do cliente. 

Conclusão: a ditadura favoreceu a expansão do espírito mercadológico. Com ele a pleno vapor, nos tornamos um país satisfeito com sua mediocridade.

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Luiz Costa Lima é crítico literário e professor emérito da PUC-Rio. Foi cassado em 1964 na Universidade de Recife (hoje Universidade Federal de Pernambuco) 

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